domingo, 19 de fevereiro de 2012

Apocalipse de um cineasta




Quando dirigiu, em 1979, o clássico "Apocalypse Now", Francis Ford Coppola sofreu o diabo. Sofreu com a selva das Filipinas, com tempestades, com o presidente Ferdinando Marcos, com o infarto de Martin Sheen, com o desleixo de Marlon Brando e com a própria insatisfação com o roteiro, alterado diariamente.

Para sorte dos amantes de cinema, porém, os bastidores das filmagens foram registrados em filme pela própria esposa de Coppola, Eleanor, e aproveitados num documentário dirigido por Fax Bahr e George Hickenlooper em 1991. O filme chamou-se APOCALIPSE DE UM CINEASTA, e escrevi sobre ele aqui:

Maurício Limeira

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Convite de praia

Por Vicentônio Silva


Um amigo de longa data – mais ou menos setenta anos de idade – convidou-me para três dias das férias numa dessas lindas e pouco habitadas praias paulistas. Relutei dezenas e dezenas de vezes. Disse-me que poderia caminhar na orla ao fim da tarde, fazer churrasco o dia inteiro, encher a cara de Coca-Cola, água de coco, sucos de laranja e derivados, ler os jornais numa rede improvisada com vistas ao mar, ouvir o barulho das ondas ao dormir e aproveitar o café da manhã que ele preparava diariamente para as netas.

- Aqui, pode escrever na sua agenda e memorizar, não falta mulher. São sete!

Não são todos os dias que um amigo, ainda por cima avô moderno e liberal, me dava uma indireta daquelas de modo que, na tentativa de descobrir mais detalhes da casa na praia lotada de mulheres, indaguei quem mais estaria lá. Gostava de privacidade e lugares turbulentos ou infestados de barulho tiravam-me o humor. Diante da resposta – que ele, as netas e uma namorada que encontrara num jogo de tênis no clube local – não pensei duas vezes, arrumei minha bolsa de viagem, joguei dentro algumas roupas, separei calção de banho, boné, protetor solar.

Na rodoviária, o atendente informou-me que as últimas passagens daquele dia tinham sido vendidas horas antes de modo que, se comprasse agora, poderia viajar a São Paulo às dezoito horas do dia seguinte. Ainda restava-me uma alternativa: um ônibus da mesma empresa partiria de Assis com itinerário ininterrupto para Santos. Por sorte, um conhecido a quem não via há bastante tempo, levaria os dois filhos a Assis. Ofereceu-me carona desde que arcasse com as despesas – de ida e de volta – do pedágio. Perguntei por que pagar a volta se apenas iria. Ele riu. Constatei a idiotice de meu questionamento.

O ônibus saiu pontualmente levando três assentos vazios o que facilitou meu sono por quase duas horas e meia quando, parando quinze minutos num desses postos de combustíveis na estrada deserta para os esfomeados ou necessitados de banheiro, uma senhora discorreu sobre as perspectivas de entrar no mar pela primeira vez. Praticamente nunca saíra do Mato Grosso do Sul, com exceção de algumas viagens às fazendas do patrão no Paraná. Sentia-se realizada de – quase no fim da vida, como ela mesma frisou – conhecer uma das maravilhas de Deus. Falou dos cinco filhos, oito netos, das noras que adorava, dos genros que detestava, do marido que, depois de aposentado, dormia o dia inteiro no sofá, da criação de galinha caipira, do carro comprado num estacionamento de Campo Grande que, de tantos e variados problemas, sugara-lhes as economias de anos nos consertos freqüentes...

Desci em Santos, despedi-me da simpática senhora e cumprimentei a irmã do amigo às mãos de quem os filhos se prenderam, extasiados pela balbúrdia urbana. Entrei em novo ônibus. Mais uma hora. À plataforma, Coca-Cola de dois litros e dois copos descartáveis. Sentamo-nos na praia, Sol ainda frio, as maravilhosas turistas caminhando, correndo ou tomando banhos de mar. Delicadamente, perguntei das netas. Dormiriam até às dez e meia. Tinham se recolhido provavelmente às três da manhã.

Meu amigo passaria parte da noite nos braços da namorada recentemente descoberta, voltaria cansado, lançar-se-ia na cama, caminho livre para mim. Nunca fora tão fácil um lobo vestir-se em pele de cordeiro. Sete mulheres para quinze dias! Quinze dias com sete mulheres! O que mais poderia desejar?

Poderia desejar que meus sonhos se transformassem em realidade. Meu amigo não mentiu em nenhum momento! Depois de terem ido dormir às três da madrugada, sete netas acordaram depois das onze horas. Por que tinham ido dormir às três da manhã? Assistiam ao filme do “Bob Esponja”. Sete netas de seis a nove anos de idade. Quinze dias ajudando meu amigo a cuidar das sete netas? Os mais precavidos nunca fecham negócio antes de lerem, relerem e questionaram os contratos. Da próxima vez que receber convite milagroso de praia, quero detalhes dos detalhes dos detalhes. Nunca mais recebo cavalo sem antes examinar os dentes.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 17 de fevereiro de 2012.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Curso Butoh-MA com Tadashi Endo em São Paulo

"O dançarino não deve dançar, mas ser dançado"
 
  Através de trabalhos práticos, individuais e em grupos, com exercícios criados pelo próprio Endo, e outros com grandes influências do teatro clássico japonês, Noh e Kabuki, os participantes terão a oportunidade de vivenciar alguns elementos od butoh: as diversas dinâmicas de tempo e ritmo, a variação espacial dos movimentos, os pés como único órgão de visão e percepção, a transformação de imagens em movimento, as diferentes qualidades de energia, o corpo-metamorfose, etc.

  Tadashi Endo, aluno do grande dançarino de Butoh Kazuo Ohno, encontrou seu caminho na dança no que ele chama de "Butoh-MA".

 MA no Zen-Budismo significa "vazio" e "espaço entre as coisas". Butoh-MA é o caminho para tornar visível o invisível. O mínimo de movimentos faz com que a expressão dos sentimentos e situações cresçam em intensidade. Torna-se mais importante manter o equilíbrio entre energia, tensão e controle, do que se preocupar com a forma e a estética dos movimentos.
  
A intenção do dançarino de Butoh é encontrar a relação com seu mundo mais profundo a partir do qual sua dança ganha corpo e se expressa no espaço e no tempo.
  
A maneira particular que o Butoh trabalha o corpo, abre caminhos de busca para atores e bailarinos, dado que sua principal característica é o encontro de uma dança que seja antes de tudo conectada com a pessoa que a realiza.

Datas: 09 a 11 de março (sexta a domingo)
Horário: 09/03 (sexta) 18h30 às 22h30 - 10 e 11/01 (sábado e domingo) das 10h às 19h
Carga Horária: 20h
Valor: R$ 700,00 (Clique aqui para baixar a  ficha de inscrição e consultar as formas de pagamento)
Vagas:26
Local: ESPAÇO (Rua Alves Guimarães,1374 - Próx ao metrô Sumaré)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

SescTV estreia coreografia “Girassóis”, com a Cia. Druw

O espetáculo é um tributo à obra do pintor holandês Vicent Van Gogh

A paixão por crianças e o desejo de se comunicar com o público infantojuvenil motivaram a bailarina e coreógrafa Miriam Druwe, da Cia. Druw, a criar espetáculos de dança voltados para a garotada. No dia 15 de fevereiro, quarta-feira, às 24h, o SescTV exibe Girassóis, o terceiro desses espetáculos. Criada em 2011, a dança é inspirada na obra do pintor holandês Vicent Van Gogh e integra a série Dança Contemporânea, que tem direção para TV de Antonio Carlos Rebesco.
 


Crédito: Sívia Machado


Antes de Girassóis, Miriam também criou Lúdico, uma homenagem à obra do artista plástico russo Wassily Kandinsky, e Vila Tarsila, à obra da pintora brasileira Tarsila do Amaral. Estas duas também integram o acervo do SescTV.
  
Para montar Girassóis, Miriam, que também dirige a coreografia, teve colaboração coletiva do elenco da Cia. Druw, e participação da atriz e diretora de teatro Silvia Leblon na codireção e na organização da moldura dramática. Segundo Miriam, trabalhar para criança é tão árduo e cansativo quanto fazer um espetáculo para adultos, pois também requer uma pesquisa profunda e precisa de cuidado e muito capricho.
 
Pontuada por trechos de cartas de Van Gogh - narrados em off pelo Ator Paulo Federal -,  a dança tem como pano de fundo projeções de telas do pintor, enquanto no palco um vai e vem de movimentos dos bailarinos, juntamente com a cenografia, o figurino e a iluminação,  dão vida a quadros famosos do pintor. Dentre eles estão seus autorretratos; Quarto em Arles; A Casa Amarela; Campo de Trigo com Corvos; e A Noite Estrelada. A coreografia também contempla elementos retratados em suas obras, como girassóis, que intitulam o espetáculo gravado em outubro de 2011 no Sesc Santana, na capital paulista.

Créditos: Sílvia Machado

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Mulheres de Londrina

Por Vicentônio Silva

Deveria adquirir o direito de viajar a Londrina (PR) nos meses de extremo calor quem atingiu o discernimento das pequenas observações. As londrinenses detêm charme inigualável durante o frio trajando roupas iguais, semelhantes cortes de cabelo, maquiagens idênticas e movimentos corporais sem surpresa, mas apenas o calor – inspirando-se na fábula de Esopo – as obriga aos mínimos panos: camisetas, shorts, saias, vestidos, chinelos ou sandálias.

Se Olinda (PE) ou Ouro Preto (MG) podem integrar a lista de Patrimônios Culturais da Humanidade, às Mulheres de Londrina o título de Patrimônio Natural das Gostosuras.

Quem – sentado ao Calçadão, visitando lojas, caminhando ao redor do Lago Igapó, bebendo suco na Universidade de Londrina ou a ela se deslocando nos ônibus sufocantes e lotados, tomando sorvete no shopping ou procurando lugar no cinema, atrasando-se ao teatro ou adiantando-se ao barzinho, esquecendo-se do horário de chegada à rodoviária ou trocando o dia do vôo – não presenciou uma Mulher de Londrina sorrindo, ajustando o cabelo, conferindo as unhas, os dentes ou as sobrancelhas? Mexendo na bolsa, verificando informações ao celular, aumentando o alcance de notícias corriqueiras? Procurando a página certa do livro equivocado?

A Mulher de Londrina jamais perde tempo caminhando na rua. Simplesmente se devota à tarefa de desfilar sua beleza e ampliar os minutos de nossa contemplação. Nunca almoça, janta ou lancha, entretanto degusta com seus lábios sedutores. Em nenhuma hipótese sorri: explode as barreiras de nossa cegueira para o belo, o significativo, o inexorável.

Contemporaneidade, pluralidade, democracia, conhecimento, elegância, pontualidade, percepção, sensibilidade, delicadeza, força e perseverança são características da Mulher de Londrina que, pelo cosmopolitismo, abre as portas para o universo. Mulher de Londrina não é quem nasceu em Londrina, mas quem adotou estilo de vida moderno, perdeu-se da mesquinhez, da estupidez e da falta de amor para se dedicar à vida e, sem vergonha de alcunhas de brega, fixar uma placa à porta: “Aqui mora uma mulher bem-amada”. Portanto, quem ainda não encontrou o amor, o prazer, o sorriso, o carinho, a felicidade, a sutileza e a vontade de ultrapassar os limites do transcendental, basta se transformar, o mais rapidamente possível, numa Mulher de Londrina. Uma mulher resumida em duas palavras: completa, perfeita. Uma mulher que não se define pelas formas ou pelas curvas, contudo pelo singular estado de espírito.

Obviamente algumas exceções desmontarão meu discurso: num ambiente fechado ou nas pressas de fim de ano, de carnaval ou de promoção de lojas de departamentos, algum homem sombrio ou mulher invejosa identificarão uma ou outra serpente mal educada esgueirando-se entre o jardim de rosas da espécie mais perfumada – que é a Mulher de Londrina. Aos invejosos um banho de silêncio, de compreensão e de piedade. Não se discute quem opta por estilos diversos do bem-viver, do bem amar, do bem sonhar, do tirar o sono dos amantes e de atiçar os desejos de quem se considerava para lá do terceiro tempo do jogo.

Quem percebe uma Mulher de Londrina perdida no Jardim Botânico de João Pessoa (PB), na Biblioteca Nacional (RJ), no Teatro Amazonas (AM), na Casa de Cultura Josué Montello (MA) ou na Casa de Cultura Mario Quintana (RS), esperando foto com Dalton Trevisan (PR) ou água de coco com Autran Dourado, Affonso Romano de Sant’Anna, Deonísio da Silva, João Ubaldo Ribeiro ou Rubem Fonseca na orla do Rio de Janeiro precisa de discernimento, agilidade mental e ação eficaz para conquistá-la e aprisionar-lhe o coração. A oportunidade de trabalhar uma pedra preciosa não nos bate à porta todos os dias. A loteria dificilmente premia os que desesperadamente recorrem a ela. Sutileza, sensibilidade e percepção são fundamentais.

Um fragmento bíblico nos alerta: muitos os chamados, poucos os escolhidos. São divinamente contemplados os que se envolvem com mulheres perfeitas e completas. Muitos são os que desejam mulheres perfeitas e completas; poucos os que detêm o privilégio de desfrutar, conviver e amar uma Mulher de Londrina.


*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 10 de fevereiro de 2012.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Arqueologias do Olhar

Arqueologias do Olhar
Frederico Spada Silva
Juiz de Fora, Funalfa, 2011



Agindo como um homem que escava, assim se inaugura na poesia Frederico Spada: suas imagens legitimam, na densidade como se tecem, a escavação da calma, dos sonhos, da palavra e do existir. O lançamento de Arqueologias do olhar traz à literatura brasileira contemporânea o projeto poético de um jovem constantemente inquieto com a existência e precocemente apaixonado pelas tramas da linguagem. Ao mesmo tempo em que Frederico Spada mostra-se ávido por inserir-se no ritmo das pulsações da contemporaneidade, sua índole poética recusa-se a deixar-se tragar pelos modismos proliferantes, o que confere à sua produção poética um caráter peculiar: sua arqueologia consiste também na escavação de uma convergência – trata-se da convergência entre a tradição e a vanguarda, entre o popular e o erudito, ou seja, sua poesia consubstancia-se como um palimpsesto de vozes.


(Helena Maria Rodrigues Gonçalves)

O livro foi lançado de maneira independente e pode ser adquirido pelo
e-mail arqueologiasdoolhar@gmail.com

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Comédia "A Casa Caiu" reestreia em fevereiro no Norte Shopping

A Casa Caiu -
Texto: Beto Moreno.
Direção: Oscar Francisco.
Com Alexandre Maguolo, Aline Mendonça, Beto Moreno, Luana Mitchell, Rafael Guimalle e Will Gama.

Idoso apostador do jogo do bicho ganha uma bolada e se muda para Zona Sul. Contra sua vontade, filho, nora e netos se abancam em sua casa nova. Até a mãe de sua nora que também quer um pouco dessa mordomia. Uma família bem humorada, de certa forma unida, cômica e muito atrapalhada, vai fazer da nova casa um motivo para levar o público às gargalhadas. O espetáculo mostra que em meio aos atritos e diferenças a felicidade está bem debaixo no do nosso nariz.

Teatro Miguel Falabella, Norte Shopping. Av. Dom Hélder Camara, 5474 , Cachambi (2595-8245). Cap.: 456 pessoas. Ter e Qua às 18h. R$ 30 (inteira). Duração: 70 minutos. 14 anos.  Até 25 de abril.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Roberto Agapito

Por Vicentônio Silva

Roberto Agapito entrou em nossas vidas de maneira mansa. Assim como muitos outros que encontraram abrigo, conforto e compreensão em nossa casa, começou a frequentá-la pelo lugar mais delicioso: a cozinha.

Quando, em agosto de 2010, por ocasião do dia dos pais, lancei meu livro de contos e crônicas, disse, durante nosso programa de rádio, que tinha orgulho de tê-lo no seio de nossa família. Vejo que estava errado: não é Roberto Agapito que ganha dias de sensibilidade e horas de alegria entrando diariamente em nossa família, mas é nossa família que toma aulas de honradez, lealdade e transparência de caráter, características tão nobres que realmente só podem ser atribuídas aos cavalheiros de grande estirpe.

Roberto Agapito integra a alta linhagem dos mais nobres cavalheiros na medida em que nos surpreende com sua educação e cortesia. Eventualmente perde a cabeça quando se equivoca em suas ações e meu pai chama-o à razão – assim como tem feito comigo inúmeras vezes. Revolta-se, briga, discute, bate-boca, mas, assim como eu, depois de boa dose de reflexão, retorna ao ponto de partida para aprender a andar novamente. Apenas um cavalheiro exerceria plenamente a qualidade mais cara ao homem: a humildade. A humildade com que assume o erro é a mesma humildade que aumenta o tamanho de seu espírito quando, correto, prefere desculpar-se a discutir com pessoas repletas de sofrimento, de desesperança, de solidão.

A humildade e a gentileza não o tornam submisso, entretanto consolidam os ares de cidadania que o eleva aos expoentes dos movimentos sociais. Adepto dos trabalhos voluntários, participa da fundação de Associações de Moradores, de entidades representativas, de grupos civis de orientação e prevenção à Aids, contra as drogas, as bebidas alcoólicas e o tabagismo. Perseguido pelos corruptos, jamais esmorece ou se intimida. Seus esforços ultimamente têm se voltado à criação da Associação de Saúde Mental que, na sua concepção, assegurará cidadania aos pacientes dos centros de Saúde Mental.

Sua veia mais visível: a Arte. Gosta de música, de rádio, de conversar e captar, em seus poemas, a fragilidade universal. Se o poeta constrói-se na nobreza de espírito, Roberto Agapito é grande pelo conjunto de suas características imanentes.

Justamente pelo enfrentamento, alguns perseguidores quiseram agredi-lo, criticá-lo, magoá-lo. Não se pode agredir, criticar ou magoar quem, nas palavras do poeta Antônio Lázaro de Almeida Prado, atingiu a inigualável capacidade de sofisticar a realidade plantando os pés nas nuvens. O cronista e filósofo Rubem Alves proclamou, em uma de suas crônicas, que o nome de Deus era tão forte que, ao ser pronunciado, os demônios de todos os infernos estremeciam. Sinto-me presenteado se o nome de Roberto Agapito é atacado por ladrõezinhos de meia tigela. Um ladrão apenas elogia seus comparsas, seus bajuladores, seus companheiros e similares. Ser atacado por um ladrãozinho de meia tigela é ter a convicção de que não se está na mesma quadrilha que ele, contudo no caminho oposto. O caminho oposto à ladroagem é a honestidade.

Quando estive em Porto Alegre em 2009, almocei com o romancista Luiz Antônio de Assis Brasil a quem, durante o café, solicitei o autógrafo a duas dúzias de livros. Enquanto rabiscava as mensagens, perguntou-me quem era Roberto Agapito. Poeta de alto quilate do interior paulista e, sem dúvida, um irmão. Irmão que se reunia a mim em sonhos, desejos, realidades, aspirações coletivas e literárias.

- Neste caso, complementou Assis Brasil, somos todos irmãos.

Quando leciono ou me dirijo a públicos para falar de Educação, Literatura ou Corrupção, lembro-me de Paulo Freire, Edgar Morin, Rubem Alves e Boaventura de Sousa Santos: Educação não se encerra nos limites da escola, mas transpassa os meandros da sociedade. Perdemos tempo em faculdades quando, na prática, precisaríamos conviver com as pessoas certas.

Aprender a ouvir é a primeira ferramenta do Educador. Aprender a ouvir é a surpresa de cavalheiro de estirpe. Se pretendo me tornar pessoa melhor e Educador de verdade, preciso inspirar-me nos cavalheiros. Quando penso em cavalheiro de mais alta linhagem, a imagem de Roberto Agapito desenha-se em minha mente.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 3 de fevereiro de 2012.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Abomináveis sacolinhas de plástico

por Rafael Castellar das Neves

@desce mais uma!


Sou do tempo dos sacos de papel e das caixas de papelão, e me lembro quando foram anunciadas as sacolas de plástico como sendo as grandes soluções para embalar e acondicionar as compras na boca do caixa dos supermercados, pela praticidade e pela possibilidade de reciclagem. Hoje, em São Paulo, as “grandes redes de supermercados” deixaram de distribuir estas sacolas plásticas, conforme anunciado há algum tempo. Pela manhã, presenciei algumas confusões e reclamações, inevitáveis com este tipo de mudança imposta. Mas como sempre, vamos nos adaptar. É tudo apenas uma questão de tempo.

Mas enquanto isso não acontece, mantém-se minha irritação com esta conversinha sobre as tais sacolas de plástico! Entendo e não desconsidero os problemas que o uso destas sacolas podem trazer ao nosso planeta; mas não a forma como tudo isto é tratado e colocado. Se estão os supermercados realmente preocupados com os danos causados ao planeta pelas sacolas de plástico, por que simplesmente não as banem de suas lojas? Por que não descontam dos produtos os valores a eles já atribuídos pelo fornecimento destas sacolas? Não! Ao invés disso, continuam as faturando sobre nós e, o que não é difícil de compreender, passam a comercializá-las, novamente! Isso resolve alguma coisa, que não para os próprios números?

A questão toda é que, via de regra, ninguém sai arremessando sacolas plásticas pela janela do carro, ou por cima do muro da casa ou as enfiando na descarga. Ainda via de regra, estas sacolas passam a ser usadas também para embalar lixo e são entregues aos serviços de limpeza pública que, também já pagos, se encarregam, ou deveriam, do restante do processo sem prejudicar a natureza. Ainda, vejamos bem, ainda precisamos comprar sacolas de lixo para acondicionar e despachar todo o lixo de nossas casas, de nossos condomínios e, adivinhem? São de plástico!

Existem diversas maneiras saudáveis, práticas e de leves impactos para cuidar da nossa natureza, de frear o ritmo alucinado em que nosso planeta é poluído e condenado. Podemos separar o lixo para reciclagem já dentro das nossas casas, podemos usar combustíveis alternativos, podemos fazer muitas outras coisas que já devíamos fazer há muito tempo. Mas, por favor, vender sacolinhas plásticas duas vezes causando um clima hipócrita de “oba, estou ajudando a natureza!”, já é um pouco demais!

Deixemos sim de prejudicar o planeta, façamos mais do que estamos fazendo, não deixemos de procurar cada vez mais alternativas; mas, acima de tudo, tenhamos atenção e vejamos realmente o que e quem é que estão sendo realmente ajudados.

Vamos que vamos...

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Com uma iconografia variada, livro apresenta a história do Brasil através de seus vários ciclos econômicos.

LOGÍSTICA - Uma História dos Caminhos Brasileiros

Angela Moreira Domingues da Silva

LOGÍSTICA - Uma História dos Caminhos Brasileiros - Andrea Jakobson Estúdio Editorial, 200 páginas – revisa a formação geopolítica brasileira através dos vários ciclos econômicos do país. Com texto de Angela Moreira Domingues da Silva – doutora em História da Fundação Getúlio Vargas (RJ) – e consultoria ad hoc de Cezar Teixeira Honorato – doutor em História Econômica, da USP –, a edição é composta por ampla iconografia que inclui gravuras e pinturas representativas de cada período e uma narrativa que navega pelas necessidades logísticas de cada ambiente histórico do país e os movimentos que elas suscitaram. Deve-se destacar que o termo “logística” tem origem recente e que, no contexto histórico, essa ciência ainda não existia como tal, sendo as atividades desenvolvidas em resposta às necessidades que surgiam. 

Dividido em quatro capítulos, o livro aborda os duzentos anos do ciclo extrativo do pau-brasil, coletado em penosas condições nas matas vizinhas aos núcleos populacionais; seguindo-se outros duzentos anos do ciclo do açúcar, que agregava avanços gerenciais, mas igualmente o infamante trabalho escravo e os conflitos com nações invasoras; para chegar aos ciclos do café, da borracha e da mineração de ouro e pedras preciosas. A cada ciclo e a cada produto estão associados recursos e demandas diferenciados, A obra também trata a expansão dos sistemas de transporte, a construção das estradas de ferro e de rodagem, os investimentos portuários e chega aos tempos modernos com o desenvolvimento industrial e, atualmente, com a expansão do agronegócio no centro oeste e das fontes de energia, entre outros.

 “Estamos diante de um compêndio ilustrativo de nossa formação econômica e nosso desenvolvimento histórico, vistos pela ótica da logística, que trata, justamente, da formação de excedentes, seu armazenamento, seu transporte e sua distribuição, cada vez mais em escala planetária. O leitor não deve esperar um diagnóstico dos problemas atuais, conhecidos como custo-brasil, mas sim um agradável e instrutivo overview das raízes históricas do nosso desenvolvimento e dos desafios resultantes”, escreve no prefácio o professor Nelio Pizzolato,  Diretor do Departamento de Engenharia Industrial da PUC RIO, membro do grupo de pesquisa Transporte e Logística.

A autora:

Angela Moreira Domingues da Silva
Possui graduação em História pela Universidade Federal da Bahia (2004) e mestrado em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2007). Atualmente faz Doutorado em História na Fundação Getúlio Vargas - RJ, sobre a atuação político-institucional da Justiça Militar durante a ditadura militar brasileira.

Consultor ad hoc:

Cezar Teixeira Honorato
Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense (1983), mestrado em História pela Universidade Federal Fluminense (1987) e doutorado em História Econômica pela Universidade de São Paulo (1994). Atualmente Professor da Universidade Federal Fluminense Lider do Grupo de Pesquisa O BRASIL E O MUNDO ATLÂNTICO: PORTOS, NEGÓCIOS E CIDADES, Coordenador Adjunto do PROJETO INTERNACIONAL EMPRESAS, PUERTOS Y CIUDADES (ESPANHA/CUBA/BRASIL) - http://www.estudiosatlanticos.com/ - e Membro do Grupo de Pesquisa Polis Laboratório de História Econômico-Social - Forum do Rio de Janeiro, Coordenador do Projeto Internacional Empresas, Puertos y Ciudades (Espanha/Cuba/Brasil), Presidente do Observatório Urbano Estado do Rio de Janeiro, consultor internacional - Habitat Organização das Nações Unidas Escritório Regional Para América Latina e PNUD, professor visitante da Universidade Federal do Amazonas, - revista historia e economia, - Analecta (UNICENTRO) , - INTERCIENCIA - REVISTA DE CIENCIA Y TECNOLOGIA DE AMERICA, - Revista Rio de Janeiro, - Em Pauta (Rio De Janeiro) , - Revista de Economia Política e História Econômica (São Paulo) e - guaicará. Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Políticas Públicas, atuando principalmente nos seguintes temas: políticas públicas, desenvolvimento capitalista, politicas publicas, historia economica e historia urbana e industrial.


LOGÍSTICA - Uma História dos Caminhos Brasileiros
Angela Moreira Domingues da Silva
Autor convidado: Cezar Teixeira Honorato
Prefácio: Professor Nelio Pizzolato
Andrea Jakobsson Estúdio Editorial – 200 páginas, R$ 97,00 - 23 x 28 cm

sábado, 28 de janeiro de 2012

Inteligência e esperteza

Por Vicentônio Silva



Inteligência é qualidade que envaidece os homens. Basta insinuar que é inteligente para que, desarmando-se, deixando de lado escudos e abdicando de proteções, o indivíduo sinta-se mais confortável.

Já tinha feito meu pedido, instalei-me numa dessas mesas em que se apinham seis ou oito, peguei o jornal e, antes de folheá-lo, um homem educado e de barriga protuberante perguntou-me se a cadeira ao lado estava ocupada. Diante de minha negativa, pôs a bandeja sobre a mesa e iniciaria sua refeição – bastante alface, tomate, cebola, pimentão e arroz – se um homem, dentes brilhantes e cabelos para trás presos por gel, não tivesse dado um grito, aberto um sorriso e se aproximado euforicamente:

- Lembra-se de mim?

Diante da surpresa e provavelmente evitando qualquer atitude que desagradasse ao possível parceiro de quem nem fazia idéia quem fosse, estendeu a mão e, antes que dissesse palavra, o cidadão sentou-se imediatamente, escolheu picanha bem passada, batatas fritas e refrigerante.

- Esse mundo é mesmo pequeno, disse o interlocutor de sorriso aberto. Lembro bem das brincadeiras na turma. Pensei que nunca fosse acabar aquele curso!

O homem de sorriso aberto estudara com ele. Na faculdade, no curso técnico, no ensino médio, no de mecânica de autos ou no de assentador de azulejos, encanador e eletricista? Pela desenvoltura e pela arrumação das palavras, na faculdade, mas não se lembrava dele. Terminaria o almoço, estenderia novamente a mão. O garçom trouxe a picanha, as batatas fritas e o refrigerante.

- Você era o mais inteligente da turma, disse o homem de sorriso aberto, engolindo celeremente as batatas fritas e parte do refrigerante. Quando queríamos alguma opinião inteligente, eis que sua imagem surgia e todo mundo corria ao seu encontro. Para ouvir a voz da sabedoria e do discernimento, da erudição e do bom senso, da percepção apurada e do bom gosto.

Imaginava-se inteligente, porém nunca desconfiara que os colegas da turma o indicassem como tal.

- Por que está comendo esse monte de alface?

Colesterol alto, excesso de gordura, aumento de peso, dificuldades de respiração, problemas na coluna e receitas médicas para mudar a alimentação, praticar exercícios físicos regularmente. O sono melhorara e a disposição também. A balança respondia positivamente: oito quilos e meio em três meses.

- Quando saíres desse regime, retomou o sorriso aberto, estás convidado para experimentar o melhor churrasco do mundo em minha casa. Sabes onde moro? Naquela mesma rua, naquela mesma casa. Fizemos algumas reformas, erguemos uma churrasqueira, ainda estamos construindo uma piscininha, contudo já recebemos os amigos. Talvez te confundas pelo muro: três metros de altura. Segurança nunca é demais. Fora isso, mesma rua e mesma casa. Sempre estou lá no fim de semana. E, disse engolindo o resto da carne, verificando se sobrara alguma batata frita e sugando o refrigerante, o telefone continua o mesmo. Basta telefonar a qualquer hora do dia ou da noite. Estou sempre à tua disposição!

Quis dar-lhe um cartão, mas o interlocutor recusou: lembrava o número de telefone do escritório dele. Continuava o mesmo? Cidadão tão prestativo, tão boa gente, tão confiável. Como se esquecera justamente dele?

- Estou em cima da hora! Um abraço ao pai. Passo lá qualquer hora para um chocolate quente. Sei que ele adora.

O homem de sorriso aberto saiu em disparada. Pai? O pai morrera de acidente automobilístico quando ele tinha três anos.

Continuou a refeição, engolindo forçadamente as fatias de tomate e o suco de acerola. Saía da praça de alimentação quando o garçom da Churrascaria do Gaúcho disse-lhe que o gerente gostaria de falar-lhe.

- Seu amigo disse-nos que pagaria a conta. São cinqüenta e oito reais.

Veio até minha mesa, pediu-me que testemunhasse o ocorrido, que não se lembrava do cara. Pus-me à disposição. Desceríamos todos à delegacia. De um pulo, agradeceu minha gentileza, meteu a mão no bolso e puxou algumas cédulas:

- Num país como este, concluiu, mais vale um esperto do que um inteligente.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 27 de janeiro de 2012.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Péter Forgács: Arquitetura da Memória

O artista húngaro Péter Forgács, com mais de 30 filmes e diversas instalações multimidas em sua premiada carreira, reconhecido internacionalmente pela criativa utilização de imagens de arquivo, de filmes caseiros (home movies) e de registros amadores de meados do século XX, recebe retrospectiva inédita nos CCBBs do Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo, a partir de 31 de janeiro.

A mostra Péter Forgács: Arquitetura da Memória reúne alguns dos mais importantes títulos desse autor pouco conhecido pelo público brasileiro. Serão exibidos 17 longa-metragens, produzidos entre 1988 e 2009, incluindo filmes da famosa série Hungria Particular, baseada em filmes caseiros realizados entre as décadas de 1920 e 1980, além de outros títulos premiados em festivais internacionais como São Francisco, Tribeca, Marselha e Leipzig. Péter Forgács chega ao Rio no dia 9 de fevereiro (quinta-feira) e participa de debate, no CCBB, sábado, dia 11, às 18h, com o pesquisador e teórico do documentário Bill Nichols, com mediação da curadora Patrícia Rebello. Nichols, que virá ao Brasil especialmente para a mostra, é uma das maiores autoridades no campo do documentário, autor de “Introdução ao documentário” (Papirus Editora, 2007), “Representing Realities” (1991, uma das pioneiras metodologias do estudo do filme documentário), e co-autor com Michael Renov da antologia de ensaios "Forgács, The Cinema's Alchemist" (2011).

No dia 2 de fevereiro (quinta), será realizado outro debate com Patrícia Rebello e o cineasta Eduardo Escorel, logo após a sessão das 18h30 de A Terra do Nada, filme dirigido por Forgács em 1996. "O que se pretende discutir nos debates, para além dos filmes do Péter Forgács, é o uso de material de arquivo no documentário, uma prática que é cada vez mais recorrente na produção contemporânea. Eles tanto estão a serviço de uma produção que se interessa em problematizar questões de história e memória, quanto em discutir a porosidade das fronteiras entre documentário e ficção, realidade e imaginário.

O interesse em trazer o Bill Nichols para a mostra está justamente inscrito nessa entrelinha: além de ser o teórico que criou uma das metodologias mais eficientes e utilizadas para pensar o cinema documentário (os modos de representação), sua pesquisa está cada vez mais orientada para aquilo que se produz no limite, quando documentário e ficção se atravessam, se encontram e dialogam.", comenta a curadora da mostra Patrícia Rebello.Os filmes da mostraA obra de Péter Forgács (http://www.forgacspeter.hu/) é composta por mais de 30 filmes, instalações e exposições multimidias. Entre os filmes, podemos destacar a série Hungary Particular, pela qual ele ficou conhecido internacionalmente.

Dos quinze filmes que compõem esta série estão na mostra The Bartos Family (1988), a saga de uma família dizimada pelo Holocausto registrada em filmes caseiros que começam no final dos anos 1920 e se estendem até meados da década de 1960; Free Fall (1996), reflexão dos tempos pré-Shoah a partir de filmes caseiros do talentoso comerciante, músico e fotógrafo György Petö; e Miss Universe 1929 (2006), a partir da história de uma húngara eleita Miss Universo no Estados Unidos, acompanhamos uma jornada incomum na trajetória dos europeus em migração em meados do século 20.

Além dos filmes realizados a partir da compilação de material de família, um outro aspecto da obra de Forgács gira em torno de filmes amadores realizados por personagens que, de alguma maneira, intuíram a urgência de registrar o tempo em que viveram. É possível ler nestas imagens intenções, dúvidas, suspeitas, rumores. E acima de tudo, que tão importante quanto a imagem em si, é todo o contexto que parecia estar fora dela mas que surge num relâmpago, deixando a marca indelével de sua presença.

Entre esses filmes, destacam-se El Perro Negro: Stories from the Spanish Civil War (2005, vencedor nos festivais de Budapeste, Denver e no Tribeca de Nova York), Angelos' Film (1999), sobre a ocupação nazista na Grécia; The Danube Exodus (1998), com registros da migração de judeus para a Palestina antes da Segunda Guerra Mundial.Outro destaque da mostra é Hunky Blues -  The American Dream (2009) um documentário poético sobre as centenas de milhares de húngaros que imigraram aos Estados Unidos entre 1890 e 1921. Para contar esta saga, Forgács lança mão de antigos épicos do cinema norte-americano, materiais de arquivo, fotografias e entrevistas.

CCBB Rio de Janeiro – 31 de janeiro a 12 de fevereiro de 2012
CCBB Brasília – 7 a 19 de fevereiro
CCBB São Paulo – 15 a 26 de fevereiro




quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O artista João Werner estreia nova exposição

Depois de mostrar motéis baratos e retratos de almas em profusão, o artista plástico João Werner apresenta uma nova exposição em sua galeria em Londrina, intitulada “Ladrão!”.

Mantendo o humor ácido de suas exposições anteriores, Werner reune 24 pinturas digitais que retratam, em linguagem expressionista, os mais variados matizes da violência social. Desde brigas interpessoais e acalorados protestos de rua, até as dramáticas “Homem na escuridão”, as quais retratam pessoas (presos políticos, talvez) subjugados sob a violência sem face do Estado.

Considerando o que temos visto nos recentes movimentos do “Ocupa Wall Street” ou na dramática, assim denominada, “Primavera árabe”, estas pinturas de Werner retratam um universo cultural atual, de movimentos contestatórios sociais.

- “Bem, minhas pinturas ‘Dano à propriedade’ são de 2008 e eu até achei estar fazendo pinturas anacrônicas”, diz o artista. “Já estava ouvindo alguns amigos insinuarem uma certa adolescência tardia nos temas destes meus trabalhos, quando testemunhei o início dos movimentos contestatórios na Tunísia, em 2010. Foi uma ótima surpresa para mim ver que o desejo por mudanças sociais ainda não havia sido extirpado da espécie humana”.

Este acento anarquista revela-se, também, em pinturas como “Distribuição de renda”, “Black flag” ou em “Toda riqueza provém de violência”. Em uma linguagem visual colorida e intensa, Werner não teme revisitar os velhos bordões da esquerda radical nessa confortável e carola época pós-moderna em que vivemos.


Dano à propriedade

black flag


Se o espectador desta recente exposição de João Werner vai iniciar a próxima revolução, ninguém sabe. Mas, certamente, quem visitar esta “Ladrão!” terá a oportunidade de ver mais um belo exemplo da inventiva produção digital do artista.

Serviço:
Quando: de 30 de janeiro a 30 de março
Onde: Galeria João Werner, rua Piauí, 191 - loja 71, Londrina (PR).
Horário: de terça a sexta-feira, das 14 às 20h e sábados, das 11h às 17h.
A entrada é gratuita e a exposição conta com monitoria.
Maiores informações: (43) 3344-2207

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Entrelinha musical

http://www.orinoceronte.com/

Chamo de entrelinha musical a parte da música que dela parece se deslocar, e a principal característica de uma entrelinha musical é a capacidade que ela tem de fazermos parar tudo o que estamos fazendo para apreciá-la. É um verdadeiro deleite. Não raro, fechamos os olhos e olhamos para cima até que aquele trecho musical acabe, e então possamos voltar para nossas tarefas cotidianas. Não é exagero dizer que a entrelinha musical seja melhor que a própria música à qual ela pertence. A entrelinha musical muitas vezes se manifesta por meio de um solo de guitarra, e o efeito é quase sempre o mesmo: ouvimos normalmente a música, mas quando chega o momento em que ela se apresenta é incontrolável que impunhemos uma guitarra imaginária na cintura, com a execução alucinada de acordes ao vento. Pink Floid era especialista em produzi-las.
Ao ouvir o CD do Agridoce (Pitty e Martin) identifiquei uma entrelinha musical, na Música 2 (Dançando). Ela aparece no final, exatamente aos 3:47. Também já ouvi a mesma canção no rádio, mas aí é diferente: a entrelinha musical não apareceu. Deve ter sido cortada para não comprometer o tempo da programação.  

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Esconderijo, peça de Léo Chacras, fala de amor, poder e intriga

foto de Fábio Ghrun

Com texto e direção do jovem dramaturgo Leo Chacra o espetáculo inédito Esconderijo estreia dia 10 de fevereiro, sexta-feira, na Sala Experimental do Teatro Augusta, em São Paulo, às 21 horas. O enredo desta montagem transita pelas paixões em suas diversas manifestações e pelas relações amorosas: três histórias de amor são marcadas por desencontros e afetos perdidos. O elenco é formado por Aline Abovsky, Renato Bisoni e Lívia Prestes.

A história se passa na São Paulo de 1969, época do regime militar no Brasil. Esse momento político é somente o pano de fundo para contar a história de Juliana, uma jovem ativista política que, após uma traição e a queda de seu “aparelho”, busca refúgio na casa de Marina, ex-mulher de seu namorado Pedro (personagem que não aparece fisicamente em cena). Elas amam o mesmo homem! Confinada no mesmo espaço com a rival, a protagonista vive um clima de suspense e mistério.

Esconderijo propõe  uma reflexão sobre o amor, o poder e  as intrigas. A relação forçada entre as mulheres faz com que o passado de ambas venha à tona. Segredos e desejos, assim como antigas disputas, vão se revelando à medida que elas vão se compreendendo. Juliana luta apaixonadamente pela liberdade e pelo seu amor. A convivência com Marina muda o rumo de suas desconfianças sobre a traição política e provoca nela o desejo de vingança. O traidor seria Fred, o jornalista com quem ela teve um romance? E quem seria Fred, este homem que luta pelo amor de Juliana até as últimas consequências?

Segundo Leo Chacra, a referência aos “anos de chumbo” é apenas o fio que conduz as personagens à convivência forçada. “A história poderia ser em outro contexto, em qualquer época, em qualquer lugar do mundo. Esconderijo está mais para a linha freudiana que marxista; fala mais de amor que de socialismo, de sentimento humano que nacionalista”. Chacra ainda explica que o texto traz uma visão pessoal sua da época de repressão política, de forma distanciada, sem levantar bandeiras.  “Falo do amor livre, da relação aberta, da resistência às causas e às pessoas”. O foco da peça está no âmbito privado, na intimidade de Juliana, Marina, Pedro e Fred.

O diretor/autor salienta que a encenação brinca com os sentimentos das personagens, aplicando uma lente de aumento no âmbito privado de suas vidas. No cenário, três poltronas são dispostas aleatoriamente representando tanto a casa de Marina como o apartamento de Fred. De forma nada conceitual, folhas de papel, jornais e livros são jogados pelo cenário, compondo uma atmosfera literária. Também um aparelho de telefone e uma máquina de escrever ajudam a simbolizar a liberdade tão ansiada. “O ambiente lembra um jovem que saiu da casa dos pais, um jovem país em formação ou a desconstrução das coisas, nos anos 60”. Justifica o diretor.

O figurino remete, sutilmente, à moda do final dos anos 60 e traz para a peça uma atmosfera de nouvelle vague, de tropicalismo. “Quero pincelar o mundo antes do eletrônico, antes da internet”, diz Leo. A trilha sonora passa pelo instrumental, folk music, rock clássico e tropicalismo. O diretor busca a força da sonoridade e dos acordes, para pontuar a simplicidade da vida ou a complexidade dos sentimentos. “Estou muito feliz dirigindo. Acho que o trabalho fica ainda mais autoral”. Finaliza Leo Chacra.

Ficha técnica
Espetáculo: Esconderijo
Texto e direção: Leo Chacra
Elenco: Aline Abovsky (Marina), Lívia Prestes (Juliana) e Renato Bisoni (Fred)
Cenário: Leo Chacra
Iluminação: Fábio Ferretti
Figurino: Geondes Antonio e grupo
Programação visual: Suzy Suzuki
Produção executiva: Geondes Antonio
Fotos: Fábio Ghrun
Serviço:
Estreia: 10 de fevereiro – sexta-feira – às 21h30 - Até 25/02
Local: Teatro Augusta (Sala Experimental)
Rua Augusta, 943 – Cerqueira César/SP - Tel: (11) 3151- 4141
Horários: sexta (21h30), sábado (21 horas) e domingo (19 horas)
Ingressos: R$ 30,00 (meia: R$ 15,00) – Gênero: Drama
Duração: 75 min – Classificação etária: 12 anos - Capacidade: 55 lugares
Bilheteria: 4ª a 5ª (14h às 21h), 6ª (14h às 21h30), sáb. (15h às 21h) e dom. (15h às 19h).
Reservas por telefone: 4ª a sab. (15h às 19h) e dom. (15h às 17h) – Aceita dinheiro e cartões (MC, D, V, RS e VE). Ingressos antecipados: http://www.ingressorapido.com.br/ (tel 4003-1212). Acesso universal.