sábado, 15 de junho de 2013

AUTO DA COMPADECIDA

Indicado ao Prêmio Shell de Melhor Figurino de 2012

A nova montagem da peça O Auto da Compadecida, que esta em cartaz desde abril 2012, volta em cartaz no dia 21 de junho no TEATRO IPANEMA. A iniciativa é da Cia Limite 151, que já havia produzido espetáculo com outro texto do autor, O Santo e a Porca (direção de João Fonseca), sucesso de público e crítica, aplaudido pessoalmente por Suassuna. Com um elenco formado por 12 atores, entre eles Gláucia Rodrigues, Daniel Dalcin,  Edmundo Lippi, Jacqueline Brandão e Janaína Prado, direção de Sidnei Cruz a peça foi Indicada ao Prêmio Shell de Melhor Figurino de 2012.

A peça fala das aventuras de João Grilo, um sertanejo pobre e mentiroso, e Chicó, o mais covarde dos homens. Ambos lutam pelo pão de cada dia e atravessam por vários episódios enganando a todos da pequena cidade em que vivem, até conseguirem através de suas confusões a ira do temido Cangaceiro Severino de Aracaju.

A história serve como pano de fundo para mostrar problemas sérios encontrados no Nordeste brasileiro, como o coronelismo, a pobreza extrema em que algumas pessoas se encontram e várias figuras populares na região, como o cangaceiro. Esta peça projetou Suassuna em todo o país e foi considerada, em 1962 por Sábato Magaldi como "o texto mais popular do moderno teatro brasileiro".

foto: Guga Melgar


O espetáculo dirigido por Sidnei Cruz potencializa as linhas matriciais contidas na dramaturgia de Ariano Suassuna. O espaço cênico lembra um picadeiro de teatro de circo, e o jogo de cena dos atores é inspirado nos brincantes dos folguedos populares. As embrulhadas de João Grilo (Gláucia Rodrigues), sempre acompanhado pelo fiel escudeiro Chicó (Gabriel Naegele), o levam ao céu para enfrentar o juízo final, onde o diabo faz de tudo para pegá-lo e ele faz de tudo para escapar, para tanto conta com a preciosa colaboração da Compadecida. As peripécias são narradas e pontuadas por palhaços e caretas que aparecem em diversas situações em forma de coro ou jogral. A comicidade popular e irreverente dos autos populares nordestinos e do teatro de mamulengos são as referências para o ritmo, a movimentação e os desenhos coreográficos da encenação. Pequenas arquibancadas móveis, cortinas, figurinos coloridos e rústicos dão o tom carnavalizado de comicidade bruta de feira e praça pública.

Famosa pela montagem de clássicos, a Cia Limite 151 completou 30 anos em 2011 e, dois anos antes levou aos palcos outro texto de Suassuna, O Santo e A Porca, que, além de lhe render sucesso de público e crítica, ganhou vários prêmios. Na ocasião, Gláucia Rodrigues, uma das fundadoras da Cia, foi indicada ao prêmio Shell por sua interpretação da criada Caroba. Desta vez, Gláucia vai enfrentar um desafio ainda maior. Vai dar vida a João Grilo, protagonista do espetáculo.  “Eu não ia participar dessa montagem. Fiquei durante dois anos viajando com O Santo e A Porca pelo país afora e confesso que estava pensando em tirar férias. Além disso, nenhum dos personagens femininos do espetáculo me estimulava. Foi quando o Edmundo Lippi e o Wagner Campos, que são os outros fundadores da Cia, me perguntaram se eu não toparia fazer o João Grilo. Aí sim, virou desafio. Esse era o combustível que eu estava precisando para voltar ao palco”, conta Gláucia, que já fez outro personagem masculino, Scapino de Molière.   Para o diretor, a ideia de escolher Gláucia para interpretar João Grilo foi uma “sacada” muito feliz dos dois, pois Glaucia já vinha de uma experiência anterior compondo personagens masculinos. “Aliás, grandes atrizes sempre escolhem esse caminho em vários momentos de suas carreiras. Ela, Glaucia, está construindo um João Grilo universal - e, ao mesmo tempo, particularíssimo - estruturado em suas ações arquetípicas, revelando o estado físico e a mentalidade de um tipo brasileiro, esperto, malandro, sem caráter, palhaço, pobre, astuto e criativo”, garante Cruz, que já dirigiu a Cia Limite 151 em A Moratória de Jorge Andrade, O Olho Azul da Falecida de Joe Orton, Os Contos de Canterbury de Geoffrey Chaucer e fez a adaptação do Frankenstein de Mary Shelley.

O parceiro inseparável de João Grilo é o atrapalhado Chicó que vai ganhar vida através do ator Daniel Dalcin, que faz seu primeiro trabalho com a Cia e também participará do elenco de O Santo e A Porca. “Ariano Suassuna é um dos maiores pensadores, educadores, teatrólogos que o Brasil tem. E eu, com tão pouco tempo de carreira, sou um privilegiado por participar de duas montagens vez de uma montagens do autor. Me considero muito sortudo!

Eduardo Amayo


FICHA TÉCNICA

Elenco: Gláucia Rodrigues, Daniel Dalcin, Edmundo Lippi, Jacqueline Brandão, Janaína Prado, Alexandre Mofati, Robson Santos, Arnaldo Marques, Bruno Ganem, Renato Perez, André Frazzi e Luiz Machado.

Direção: Sidnei Cruz
Cenário: José Dias
Figurinos: Samuel Abrantes
Iluminação: Aurélio De Simoni
Direção musical: Wagner Campos
Programação visual: João Guedes
Fotos: Guga Melgar

SERVIÇO

TEATRO IPANEMA
Rua Prudente de Moraes, 824 – Ipanema
Informações: 2267.3750
Horário: 6ª e Sábado às 21hs e Domingo às 19hs
Ingressos: R$ 40,00
Até dia 04 de agosto

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Vamos falar de plágio

por Humberto Pinho da Silva 


                     José Cascales de Muñoz disse: “no hay poeta que no haya plagiado  más de ciento de los antigos y contemporâneos”.

                      Nem há escritor que não tenha plagiado, ainda involuntariamente, os clássicos. Nem jornalistas e professores que não tenham copiado modo de ensinar e expressões, que ouviram a antigos mestres.

Todos nós, segundo Cruz Malpique, “chegamos muito tarde a um mundo já muito velho. Cada um de nós, falando, escrevendo, pensando, fazendo seja o que for, é como tivesse procuração dos que nos precederam.”

                  Muitas vezes há nítida intenção de plagiar, como é o caso do “Caramuru” - poema em dez cantos, de Frei José de Santa Rita Durão, publicado em Lisboa, em 1781, que é decalque grosseiro dos “ Lusíadas”.

Mas também o plágio pode ser por mero acaso: Germano Almeida, escritor cabo-verdiano, planeara escrever sobre fictício congresso a realizar em Lisboa sob o tema: Homens traídos por suas mulheres.

Com o texto criado na mente, entrou numa livraria lisboeta e depara com Fernando Assis Pacheco, que lhe recomenda a leitura do livro: “ Jogos da Idade Tardia” de Luís Landero.

Ao folhear a obra, encontra passagens idênticas, muito semelhantes, ao que trazia, quase concluído, na memória.

Essas coincidências, ainda que não sejam vulgares, acontecem. A ideia uma vez lançada funciona como onda de rádio. Há sempre receptores que a acolhem.

O povo, que é grande mestre, costuma usar frase que explica tudo: “anda no ar”.

Andar no ar é uma espécie de boato mudo, que não se ouve, mas se sente.

Nova forma de plagiar é recorrer à Internet. Em segundos, alcança-se a matéria e “rouba-se” conhecimentos, quase sem esforço.

Teses, mestrados, doutoramentos, uma vez publicados na Net, são alvos de copianços e apresentados, após ligeira maquilhagem, como originais, fruto de aturado trabalho.

Para combater a fraude, existem programas informáticos, que detectam o copianço. Entre outros, encontram-se o “ Turnitin” e o “Ferrit”.

Mais difícil de descobrir são teses feitas por encomenda a antigos licenciados, apreços que podem atingir os 25 mil euros.

Famosos escritores foram acusados de plágio. Entre eles: Gabriel d'Annunzio, Moliere, Virgílio e até o nosso Eça de Queiroz.

Plágios, que certamente não passaram de acasos ou resultado de leituras antigas.

O escritor é fruto de muitas leituras e de muitas conversas e estudos, acumulados desde a infância; não se erra, se dissermos, que todos nós repetimos o que pensaram e escreveram os que nos antecederam.

Se escrevo esta crónica, deve-se ao trabalho dos que publicaram artigos e obras que trataram o tema. Apenas coube-me o papel de abelhinha: “roubando” mel, de flor em flor.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Penitência - parte 3 de 3

por Rafael Castellar das Neves 


Fico analisando minha vida, tentando definir se tive uma boa vida, se fui uma pessoa boa. Fico em dúvida algumas vezes. Na juventude somos explosivos e acabamos fazendo coisas que neste ponto da vida podem ser facilmente questionadas. Penso, analiso, imagino, mas nunca consigo concluir o que foi minha vida. Nestas lembranças, que são tão fortes, chego a sentir de verdade como eu me senti no momento em que elas realmente aconteceram; só que com alguns novos sentimentos que não existiam naquele tempo. Devem ser da idade, a gente fica mais velho e fica mais cuidadoso, ou mais medroso, sei lá. Sei que fico aqui, revendo meus arrependimentos, meus amores, minhas saudades, minhas decepções, minhas alegrias, minhas tristezas e me perguntando: e agora? Não me orgulho de muita coisa que fiz na vida, mas acho que repetiria a maioria delas. Não sou hipócrita e sei que no momento em que estas coisas aconteceram, eu tinha motivos suficientes que me levaram a elas e hoje seria inocência de mais da minha parte querer julgá-las. Tive meus momentos ruins, mas também tive muitos momentos bons e tento manter estes vivos em mim; só que o mal, meu amigo, ele é persistente e insiste em se fazer presente. Às vezes penso, de verdade mesmo, que estou pagando as coisas ruins que fiz. Fora a idade, não tenho outros motivos para estar aqui deste jeito, sempre tive uma saúde de cavalo. Por isso acho que pago algo, ou tudo. Talvez muitas outras coisas que não vejo como ruins podem ter sido ruins a outras pessoas, não sei... Sei que acho que tudo isso aqui é uma penitência, um acerto de contas antes de ir para o outro lado. Sempre me disseram, e agora assino embaixo, que o que aqui se faz e aqui se paga. Nada fica para ser acertado do outro lado.

Digo que isso é algum tipo de acerto de contas não só por estar entrevado aqui, mas por estar entrevado aqui sozinho. Da minha ex-mulher não tenho notícias há muito tempo. Sinto falta da minha filha, ela não vem mais me ver já faz muito tempo também. Sempre tivemos nossas diferenças, mas nunca deixei de amá-la, mas ela nunca mais veio... Quase nunca conversamos de verdade, sempre discutimos e isso é ruim, dó, sabe? Me lembro de quando ela era menininha, bem novinha, vestidinha para o primeiro dia de aula, com uma carinha de dúvida e medo. Parecia um anjinho com medo. A levei até a porta da sala de aula, ela me abraçou forte como se não fosse mais me largar e eu disse que tudo ficaria bem e que logo eu voltaria para buscá-la. Ela me deu o sorriso mais lindo que já vi em toda minha vida. É este sorriso, esta imagem que fica na minha cabeça. Queria que ela entrasse por aquela porta. Acho que é isso que fico esperando aqui. Toda vez que entra alguma enfermeira, no primeiro momento, meus olhos me enganam me mostrando a minha filha. Acho que esta frustração é uma das coisas que mais me deixa irritado... É... Não é fácil... Queria que ela entrasse por aquela porta com minha netinha para eu poder vê-las mais uma vez. Tenho tanta saudade!

Olha! Os olhos chegam até a molhar... Se ao menos aquele palerma do meu genro resolvesse alguma coisa, mas só servi pra ele enquanto eu dava dinheiro e não problemas.

É isso, a vida em comum é uma troca constante, cada um tem que levar alguma coisa; quando uma parte não tem mais o que oferecer, a outra se vai. Pode até ser que dinheiro não traga felicidade, mas é ele quem a mantém. Quando perdi o que tinha, perdi também minha mulher que levou minha filha e a envenenou contra mim. Agora nem o palerma vem me ver, ninguém vem me ver.

Estou abandonado e não esquecido, pois alguém está pagando a conta desta espelunca, senão já teriam me jogado na sarjeta. Esquecido, meu amigo, é melhor do que abandonado. Esquecer é involuntário; abandonar é caso pensado, sem se esquecer. Às vezes penso que até Deus já me abandonou, se negando a atender meus pedidos de mandar logo aquela desgraçada de preto vir me buscar.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Nas horas mortas: a vida noturna no centro do Rio de Janeiro (1920-1929)

Na década de 1920 as obras do prefeito Pereira Passos já haviam alterado a geografia física e social da cidade do Rio de Janeiro. A modernidade baseada no modelo francês consolidara a burguesia como classe dominante, e a sociedade, econômica e culturalmente, a ela se adaptava.

Para o cidadão médio, atravessado pela mudança de uma economia agrária para uma economia industrial, as mudanças em sua vida seriam profundas, e as relações com o outro (o vizinho, a esposa, o colega, o patrão, o Estado) também sofreriam tais mudanças. Da mesma maneira, mudava o Estado e mudavam as formas de controle sobre a população, visando tanto a submissão como a produtividade. Estabelece-se toda uma intrincada rede de relações a fim de atender estes objetivos, onde a maior liberdade em certos espaços complementa a repressão e o condicionamento em outros.

A fim de fugir deste condicionamento, do rigor de horários e de obediências, da submissão, o cidadão médio tinha a noite. Era nela que ele se refugiava, se divertia, e cometia os atos que o Estado proibia. A noite era o lugar da transgressão. E é deste espaço que trata NAS HORAS MORTAS: A VIDA NOTURNA NO CENTRO DO RIO DE JANEIRO (1920-1929), obra que Maurício Limeira apresentou como monografia de final de curso na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde cursou História, e agora lança, como livro independente, pela Bookess Editora.

NAS HORAS MORTAS procura analisar, baseado principalmente na leitura de jornais da época, o funcionamento destes espaços dedicados à transgressão, à fuga da opressão do Estado. Dividido em duas partes, A Noite Iluminada (onde aborda a vida noturna autorizada pelo Estado, com as festas populares, o teatro e o cinema) e A Noite Obscura (em que trata das formas ilegais de transgressão, como o jogo, a prostituição e as drogas), o livro apresenta diversas curiosidades. 

Seja acompanhando de perto os passos de autores como João do Rio, Benjamin Costallat e Ribeiro Couto, ou de anônimos das páginas do jornal Correio da Manhã, NAS HORAS MORTAS atravessa blocos de carnaval, entra nos espetáculos teatrais da Praça Tiradentes, acompanha a ação dos bolinas na nascente Cinelândia. Indo além, mergulha no funcionamento do jogo do bicho, dos clubes noturnos, dos prostíbulos e cabarés, das casas de ópio. Descreve com minúcias o variado comércio noturno e suas atividades de sedução, fornece endereços, reproduz diálogos e vocabulários, analisa a ação (ou a vista grossa) da polícia, e aproxima o contexto da época com o atual.

NAS HORAS MORTAS está disponível em http://www.bookess.com/read/15739-nas-horas-mortas-a-vida-noturna-no-centro-do-rio-de-janeiro-1920-1929/, nas versões impressa e digital.



quinta-feira, 23 de maio de 2013

Os olhos de Sancha


Em acréscimo ao muito do que já se discutiu sobre a verve psico-enigmática presente em Dom Casmurro, ouso expor minha particular percepção, sobre a qual é possível que alguém já tenha abordado, com melhores credencial e técnica. Seja como for desculpo-me antecipadamente caso não me faça original. 

Controlado pela genialidade machadiana, Bentinho, um dos mais intrigantes narradores da nossa literatura, captura e depois direciona a atenção do leitor para o que parece ser apenas o relato objetivo das memórias da sua vida. No entanto, lá pelos três quartos do livro instaura-se uma mudança que sacode toda a estrutura narrativa até então vigente. E é o próprio narrador que anuncia a tal mudança:

Tudo acaba, leitor; é um velho truísmo, a que se pode acrescentar que nem tudo o que dura dura muito tempo.   

Nesse aspecto, há uma cena que funciona como o divisor de águas da trama: Bentinho/Capitu e Escobar/Sancha – os casais inseparáveis – estão reunidos em mais um de seus corriqueiros encontros. Escobar aproxima-se de Bentinho e lhe promete anunciar, no dia seguinte, um projeto para os quatro. Logo em seguida é a vez de Sancha se aproximar de Bentinho. Pedindo segredo, ela lhe confidencia o que seu marido apenas deixara no ar. O projeto era a viagem em que os quatro iriam juntos à Europa. Deixemos a parte principal da cena a cargo do próprio narrador:

Sancha ergueu a cabeça e olhou para mim com tanto prazer que eu, graças às relações dela e Capitu, não se me daria beijá-la na testa. Entretanto, os olhos de Sancha não convidavam a expansões fraternais, pareciam quentes e intimidativos, diziam outra coisa, e não tardou que se afastassem da janela, onde eu fiquei olhando para o mar, pensativo. A noite era clara.
Dali mesmo busquei os olhos de Sancha, ao pé do piano; encontrei-os em caminho. Pararam os quatro e ficaram diante uns dos outros, uns esperando que os outros passassem, mas nenhuns passavam. Tal se dá na rua entre dois teimosos. A cautela desligou-nos; eu tornei a voltar-me para fora. E assim posto entrei a cavar na memória se alguma vez olhara para ela com a mesma expressão, e fiquei incerto. Tive uma certeza só, é que um dia pensei nela, como se pensa na bela desconhecida que passa; mas então dar-se-ia que ela adivinhando... Talvez o simples pensamento me transluzisse cá fora, e ela me fugisse outrora irritada ou acanhada, e agora por um movimento invencível... Invencível; esta palavra foi como uma bênção de padre à missa, que a gente recebe e repete em si mesma.        

A partir dessas reflexões abrem-se comportas que inundam o texto de uma subjetividade avassaladora. Bentinho descreve o modo como interpreta as atitudes de Sancha, conforme suas próprias conclusões, as quais certamente podem não corresponder à realidade dos fatos. O que temos é a versão do narrador, entre tantas outras possíveis. Caso fosse lhe dada a oportunidade do contraditório, Sancha bem poderia dizer que a troca de olhares foi ocasional, sem qualquer conotação que excedesse os limites da amizade existente entre os dois. Note-se que, logo depois, o próprio Bentinho reconsidera sua impressão inicial:

Tinha já comparado o gesto de Sancha na véspera e o desespero daquele dia; eram inconciliáveis. A viúva era realmente amantíssima. Assim se desvaneceu de todo a ilusão da minha vaidade.

O episódio mencionado acima é um componente importante do contexto em que começam a ganhar corpo as suspeitas de Bentinho quanto ao suposto caso extraconjugal entre sua mulher Capitu e seu melhor amigo Escobar. E é novamente um olhar que orienta as suas ilações. Um olhar que Capitu direciona a Escobar desencadeia uma série de angústias que evoluem desde a desconfiança até a mais inexorável das certezas, cujo símbolo é o fato de que Ezequiel, filho de Bentinho e Capitu, carrega consigo, à medida que cresce, a aparência de Escobar cada vez mais inequívoca e perturbadora. Chega-se então à inevitável pergunta: se Bentinho já havia se enganado antes, dando interpretação torta ao comportamento de Sancha, por que também não estaria errado em relação ao julgamento que aplica a Capitu, sobretudo se levado em conta o confesso ciúme que sempre o rodeou? 

De qualquer forma, teria sido magnífico se Machado de Assis pudesse dar voz a Capitu em um romance no qual prevalecesse a outra versão. Poderia servir para esclarecer nossas dúvidas. Ou então nos confundiria ainda mais.

Flávio Sanso
@flavio_sanso

terça-feira, 14 de maio de 2013

Programação Estação das Letras Junho

A crônica e seus processos; Imagens do Rio de Janeiro na prosa de Arthur Azevedo, João do Rio e José Lins do Rego; Como se faz um livro-reportagem; Ficção televisiva; e Empreendedorismo editorial são os títulos dos cursos que Estação das Letras programou para o mês de junho. Desde mestre da literatura, como Roberto Rodrigues, para falar da história e utilização da crônica, passando por pesquisadores e doutores em Ciências Sociais, nas figuras de Bernardo Borges Buarque de Hollanda, Julia Gali O’Donnell e Tatiana Oliveira Siciliano para reviver a prosa de Azevedo, os jornalistas e escritores Guilherme Fiúza, Heloisa Seixas e Mauro Ventura, percorrendo os caminhos dos escritores para transformar o real/histórico em livros-reportagem/ficção e a especialista Lilian Fontes, fazendo um paralelo entre TV aberta e a TV por assinatura e falando de novelas, minisséries, seriados e sitcoms comparando o universo nacional com o internacional das produções, além da mestre em livros Elisângela Alves abordan o papel do novo livreiro/editor, do comércio de livros impressos e digitais, os tipos de negócios e canais de comercialização, eBooks, ePub, Interactive Books prometem movimentar a Casa de Suzana Vargas, que fica na Marquês de Abrantes, 177, no Flamengo, a partir de 8 de junho. As inscrições estão abertas pelo 21 3237-3947 e www.estacaodasletras.com.br.
 
Segue abaixo programação completa.
 
INICIANDO EM JUNHO

Imagens do Rio de Janeiro na prosa de Arthur Azevedo, João do Rio e José Lins do Rego
 
Três pesquisadores – duas antropólogas e um historiador – descortinam a geografia do Rio de Janeiro da primeira metade do século XX, à luz das obras de três prolíficos cronistas: Arthur Azevedo, João do Rio e José Lins do Rego. Renovando a interface literatura/cidade, o objetivo do curso é entender como os autores constroem, reconstroem e desconstroem o imaginário urbano do Rio. Cada um deles lega, assim, seus instantâneos escritos, com a descrição de “lugares, seres e coisas” da cidade.
Prof. Bernardo Borges Buarque de Hollanda – pesquisador do CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil), da Fundação Getúlio Vargas, e professor da Escola Superior de Ciências Sociais (FGV–Rio). Doutor em História pela PUC-Rio e pós-doutor pela Maison des sciences de l’homme (MSH-Paris). Autor dos livros O descobrimento do futebol: modernismo, regionalismo e paixão esportiva em José Lins do Rego e O clube como vontade e representação: o jornalismo esportivo e a formação das torcidas organizadas de futebol do Rio de Janeiro.
Prof.ª Julia Gali O’Donnell – pesquisadora do CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil), da Fundação Getúlio Vargas, e professora da Escola Superior de Ciências Sociais (FGV – Rio). Doutora e mestre em Antropologia pelo Museu Nacional-UFRJ. Graduada em História pela Universidade de São Paulo (USP). Autora do livro De ollho na rua - A cidade de João do Rio.
Prof.ª Tatiana Oliveira Siciliano – doutora em Antropologia Social pelo Museu Nacional-UFRJ com a tese “O Rio que passa por Arthur Azevedo: Cotidiano e vida urbana na Capital Federal da alvorada do século XX. Atualmente, está no pós-doutorado em Sociologia da Cultura no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ/ IFCS. Lecionou na PUC/Rio e Fundação Getúlio Vargas–RJ, respectivamente, as cadeiras “Cultura Brasileira” e “Intérpretes do Brasil”.
Dias 04, 11, 18 e 25/06 (3.as feiras) das 17h às 18h30 Carga horária: 6h/aula
R$ 300,00
 
Como se faz um livro-reportagem
Os caminhos que os escritores percorrem para transformar o real/histórico em livros-reportagem/ficção.
06/06 – Guilherme Fiúza – Jornalista, autor da biografia de Reynaldo Gianecchini, Giane: Vida, Arte e Luta (Ed. Sextante), além de outras biografias como Meu nome não é Johnny (Record) e Bussunda – A Vida do Casseta (Objetiva).
13/06 – Heloisa Seixas – Autora do livro sobre o mal de Alzheimer, O lugar escuro (Ed. Objetiva), além de romances e contos.
20/06 – Mauro Ventura – autor do livro sobre a maior tragédia circense da história, O Espetáculo mais triste da terra – O incêndio do Gran Circo Norte-Americano (Cia. das Letras).
(5.as feiras) das 19h às 21h Carga horária: 06h/aula | R$ 350,00
 
Ficção Televisiva
O curso se propõe a fazer um trajeto abordando o universo televisivo com enfoque nas narrativas ficcionais e seus diferentes formatos – telenovela, minisséries, sitcoms e seriados – apresentado as características inerentes a cada um e sua importância como marca de identidade brasileira, num ambiente onde a indústria norte-americana ainda é hegemônica.
Ao final, serão traçadas diretrizes quanto à prática de roteiros para televisão.
 
Programa:
  • A televisão: a recepção televisiva; a história da TV por assinatura no Brasil; o mercado televisivo
  • Paralelo entre TV aberta e a TV por assinatura
  • A ficção televisiva: a narrativa ficcional televisiva; a narrativa serializada, tipos de serialização.
  • As telenovelas, minisséries, seriados, e sitcoms: estrutura, temas e estética visual.
  • As produções brasileiras: Mandrake, Filhos do Carnaval, Alice.
  • Seriados policiais, tradição e penetração no universo televisivo: o argumento policial; as produções norte-americanas; as produções brasileiras.
 
Profa. Lilian Fontes – Escritora, arquiteta, autora de ficção, biografias, ensaios, publicou entre outras obras, Escrita Fina, Espantalhos, Santo Dia e De olhos bem abertos, esses últimos lançados pela Editora Record. Com Doutorado em Comunicação e Cultura, pela UFRJ, desenvolve pesquisa sobre Ficção Televisiva, com apoio da Faperj. Participou de algumas oficinas de roteiro, tendo colaborado com Rubem Fonseca na adaptação para o roteiro do conto O Cobrador.
 
Dias 11, 18, 25/06 e 02/07 (3.as feiras) das 18h45 às 20h45 – Carga-horária: 8h/aula
R$ 350,00 (à vista) ou 2x R$ 200,00
 
Empreendedorismo Editorial
O novo livreiro/editor - Como comercializar livros impressos e digitais; Tipos de negócios e canais de comercialização; eBooks, ePub, Interactive Books.
Prof.ª Elisângela Alves – Mestre em Livro, Leitura e Novas Mídias pela PUC-Rio, especialista em Literatura e Mercado. Atua no mercado há 16 anos, como consultora editorial e docente na área de negócio do livro, pesquisando as transformações da economia do impresso e a produção de conteúdo para novas mídias.
Dias 08, 15 e 22/06 (sábados) das 10h às 14h Carga horária: 12h/aula
R$ 550,00 (à vista) ou 2x R$ 300,00
 
 
PROCESSOS CRIATIVOS
 
Trata - se de diversos cursos oferecidos em nove módulos independentes e complementares. O propósito é familiarizar o aluno com as diversas técnicas da escrita, tendo seu foco voltado para o processo criativo e ficcional. Cada um dos cursos tem duração de quatro aulas (12hs).
As matérias que abrangem o curso de Processos Criativos seguem a seguinte ordenação:
 
Módulo 4 – A crônica e seus processos
Origem da crônica: O mito e a palavra. Discutindo o gênero. O uso do termo no Brasil do descobrimento. A crônica como gênero jornalístico, passando pelos século XIX e XX. Os limites do gênero: um gênero indefinível. Praticando o gênero.
Prof. Roberto Rodrigues – Mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ. Foi professor de Produção Textual e Oficina de leitura da Universidade Estácio de Sá. Atualmente ensina Literatura Brasileira e coordena a área de Linguagens e Códigos do Colégio Palas.
De 08/06 a 29/06

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Tatiana Medeiros & Banda em “Soul da Bossa & Jazz”


Dia 16 de maio (quinta-feira), às 20h30, no Teatro Café Pequeno

No dia 16 de maioTatiana Medeiros e sua banda se apresentam no Teatro Café Pequeno com o show “Soul da Bossa & Jazz”. A cantora carioca traz o melhor de suas raízes e influências musicais numa fantástica viagem nas harmonias jazzísticas, navegando também nas melodias da bossa nova com muita elegância e swing.

Com desenvoltura, a artista resgata a melodia revolucionária da charmosa música parisiense, embala no jazz de Etta James Ella Fitzgerald, passa pela música de Gal e Caetano, entra no som enigmático e cosmopolita da cantora Céu, misturado ao charme de Nina Simone e Sade, passa pelo neo soul de Alicia Keys com uma pitada de Marina Lima e Chico Buarque. Uma proposta original, com a intenção de aproximar artistas de diferentes estilos aonde  a cantora Tatiana Medeiros mostra  toda a sua musicalidade.


SERVIÇODia 16 de maio (quinta-feira) às 20h30
Local: Teatro Municipal Café Pequeno (Av. Ataulfo de Paiva, 269 – Leblon)Telefone: (21) 2294-4480Horáriosquinta-feira, às 20h30Ingressos: R$30,00 (inteira)/ R$15,00 (meia)Capacidade: 100 lugaresClassificação indicativa: 18 anosDuração: 70 minutos

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Programação de cursos do Estação das Letras


O fantástico, a ficção científica e as narrativas maravilhosas
02/05 – Ficção Científica, fenômeno mundial: uma introdução, por Bráulio Tavares –escritor, colunista do Jornal da Paraíba, estudou cinema e é pesquisador de literatura fantástica. Autor do romance A máquina voadora (Ed. Rocco).
09/05 – A carpintaria da Ficção Científica, por Muniz Sodré – escritor, jornalista, e professor da UFRJ. Dirigiu a TV Educativa. Publicou A Ficção do Tempo: Análise da narrativa de Ficção Científica. (Ed. Vozes) e O Bicho que chegou à feira (Ed. Francisco Alves).
16/05 – Ficção Científica no cinema, por Eduardo Souza Lima – cineasta, jornalista, crítico e editor da revista online Zé Pereira.
(5.as feiras) das 19h às 21h Carga horária: 06h/aula | R$ 350,00

O texto monográfico: função, estrutura, produção.
A natureza do texto monográfico. Construção do problema e da hipótese. A estrutura de uma monografia. Produção do texto monográfico: requisitos, desafios, etapas. Discussão de projetos individuais dos alunos.
Prof.ª Ana Lucia Soutto Mayor – Docente do Setor de Língua Portuguesa do CAp/UFRJ. Doutora em Literatura Comparada/UFF. Coordenou, em 2010/2011, o Curso de Especialização "Saberes e Práticas na Educação Básica", (Faculdade de Educação/CAp/UFRJ) na área de Língua Portuguesa, ministrando as disciplinas "Seminário de Monografia" e "Ensino de Literatura", além da orientação de monografias de especialização. 
De 03/05 a 28/06 (6.as feiras) das 17h às 18h30  Carga horária: 12h/aula
2x R$ 300,00 / Tx. de matrícula: R$ 30,00



Processos Criativos -Módulo 3 – O conto e suas técnicas           
Leitura e estudo de contos que representem diferentes tendências; discussão das possibilidades oferecidas pelo gênero; estímulo da produção entre os alunos; leitura e análise desta produção
Prof.   João Paulo Vaz - Autor de 3 livros de contos, recebeu, entre outros, os prêmios Mario Quintana em 2004, Josué Guimarães em 2005 e Off-Flip em 2010
Dias 11, 18/05 e  01/06(sábados) | das 10h às 14h | Carga horária: 12h/aula


A programação completa está no www.estacaodasletras.com.br e as inscrições podem ser feitas pelo site ou pelo 21 3237-3947.
 
O endereço da Casa é Rua Marquês de Abrantes, 177, no Flamengo.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Penitência - Parte 2


por Rafael Castellar das Neves

Sabe? Aqui o tempo não passa, ele se arrasta e com muita má vontade. Tem um relógio pendurado na parede que tento ao máximo ignorá-lo, mas acho que por isso mesmo acabo sempre olhando para ele. Quando o tempo não passa olhar para um relógio é a pior coisa que se pode fazer, faz com que o tempo se arraste ainda mais lentamente e a irritação tome conta. Mas os olhos são muito traiçoeiros, nos denunciam aos outros e nos mostram aquilo que não queremos ver. Já até joguei a bandeja de comida nele para ver se eu conseguia quebrá-lo, mas é claro que a bandeja nem chegou perto e ganhei umas boas picadas e alguns dias de sono.

Tento um pouco de tudo para me distrair, mas quase nada é suficiente. É raro eu conseguir um jornal velho, uma revista esfarrapada ou uma cruzadinha antiga. Sempre peço, mas ninguém me escuta. Aliás, escutar escuta porque não é possível que todo mundo aqui seja surdo, mas se fazem de surdos. Às vezes o rapazinho esquisito me deixa alguma coisa e eu leio, releio, leio novamente sem me cansar – até cruzadinhas feitas eu já refiz. Sei que é estranho, mas me distrai um pouco e isso alivia o tempo. E o tempo insiste em ficar aqui comigo. Por mais que eu suplique para ele ir, ele fica. Isso vai me irritando, as dores vão contribuindo e aí, meu amigo, eu viro um bicho aqui, até que todo mundo fica de saco cheio e me apaga por alguns dias. Perco a noção do tempo, não desse que não passa, mas do dia da semana, do dia do mês. A gente fica meio zureta com essa falta de referência de calendário, mas por outro lado não me incomodo muito, não vou pra lugar nenhum mesmo...

O que ainda não perdi é a lucidez, eu acho. Me lembro de tudo da minha vida, me lembro de tudinho, desde menino até hoje. Isso quem garante é o tempo, não o do calendário, mas aquele que se arrasta. Quando ele vem e fica, ele conversa comigo, me conta tudo aquilo que já vivi. Do início ao fim, do fim ao início, do meio para o começo, de cabeça para baixo, de tudo quanto é jeito. Aí é inevitável, acabo me lembrando até de coisas que acho que nunca mais lembraria. Me lembro de quando eu era pequeno, bem menino, de quando eu era adolescente, de quando fiquei mais moço... Parece que sou o mesmo em todas estas fases, como se hoje eu ainda fosse o mesmo menino, no mesmo corpo. Mas as minhas mãos são as primeiras a me trair com suas rugas, com seus dedos tortos, com essas unhas amarelas e contorcidas. Fico aqui deitado revendo minha vida, imaginando as possibilidades, imaginando como seria se certas coisas fossem feitas, se outras fossem feitas de forma diferentes, são tantas coisas...

Escuta! Escuta! Está escutando? É... Um piano! Não sei de onde vem, deve ser de algum apartamento aqui por perto. Vem sempre nesta hora, no comecinho da noite; mas não todos os dias. Pelo jeito de tocar é alguém que está aprendendo ainda, algumas notas engasgam, outras saem do tom, percebeu? Mas para mim soa como um recital! Isso sim é algo que me dá prazer aqui neste lugar. Parece que o mundo para e se restringe a este espaço, nada mais existe e tudo fica em paz, só o piano, escuta!