quinta-feira, 21 de julho de 2011

Canto de contos curtos: almencardida

Olhou fixamente para o espelho que refletia um rosto perfeitamente barbeado. Era dia de mais uma reunião daquelas em que são fechados grandes negócios. O esquema era de tal maneira sofisticado e complexo que poderia ser considerado um acinte alguém alegar que aquilo era corrupção. Não era dado a questionar seus atos, mas naquele dia estava um pouco mais pensativo: “o que faço não é corrupção, muito menos crime. É preciso talento, inteligência e articulação para ganhar dinheiro do jeito que ganho. Meu pai e meu avô já faziam assim. Aprendi com eles. Os que me cercam também agem assim. O que chamam de corrupção é o dinheiro que se paga para não ser prejudicado, é ganhar vantagem sem trabalhar, e eu trabalho, trabalho muito, faço as coisas acontecerem.” Ao término da reunião, a sensação de sucesso. Durante a noite mais uma vez foi assaltado por reflexões estranhas. Por alguns segundos sentiu um grande vazio e uma forte necessidade de questionar o sentido de tudo aquilo. Logo em seguida começou a se ocupar com os pensamentos que faziam menção à viagem de férias que faria com a mulher e os filhos. Deitou a cabeça no travesseiro e dormiu suavemente.

2 comentários:

BLoG do CHARQuE disse...

Isso se chama vida e ela n é justa!


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Bruna Bosco disse...

Ééé verdade! O caráter o chama, mas os prazeres do poder e dinheiro parece que o chama mais alto. Boa percepção seguida de colocação.