quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Canto de contos curtos:

Da série "cenas urbanas":  Dia de cidade grande (parte 2/continuação)

(...) Uma senhora simpática e muito rechonchuda esforça a visão para compreender o que se passa. Ela direciona seu olhar de incompreensão aos que estão ao seu lado e questiona o motivo da confusão. Nessas horas aqueles que assistem a qualquer cena inusitada costumam se gabar de suas condições privilegiadas de testemunha, sentindo-se orgulhosos em contar com detalhes como ocorreram os fatos, afinal são donos da lembrança do que só eles viram. Devidamente informada, a senhora se afasta do tumulto com os  passos curtos que suas pernas debilitadas lhe permitem dar. Sinal vermelho para os carros e sinal verde para os pedestres. É a vez de várias pessoas atravessarem de um lado para o outro aproveitando o domínio temporário do território disputado com os veículos. Entre elas está a senhora rechonchuda que, quando quase ao final da faixa de pedestres, olha para o lado e avista um carro de cor vermelha escura, quase vinho, dentro do qual está uma mulher que ajeita seus cabelos loiros através do espelho retrovisor. Os sinais se invertem, brilhando a luz verde para os motoristas que se agitam tal como  pilotos de corrida posicionados no ponto de largada. O carro não responde aos comandos da loira. Um, dois, três segundos para que a primeira buzina se manifeste enlouquecidamente, seguida de outras tantas igualmente alucinadas.  Atrás do carro vermelho já se forma uma sequência de carros e ônibus de cujos escapamentos é expelida a fumaça que denuncia fúria  por causa do fluxo interrompido. Com ar de quem a confiança foi traída, a loira exibe no rosto um filete de suor que desce vagarosamente até espocar na manga da blusa, formando uma pequena mancha quase perfeitamente redonda, que logo é acompanhada por outra mancha mais espalhada e menos redonda, formada a partir de outra corrente de suor paralela à primeira. O som das buzinas compõe uma orquestra do caos, chamando a atenção de um mendigo vestido em seus andrajos. Ele apenas observa vagamente a origem daquele barulho, pondo-se a seguir seu caminho aos tropeços, em uma espécie de dança própria, alheio a todos que o consideram um obstáculo do qual a multidão precisa desviar. Um dos braços envolve contra o peito uma lata de alumínio daquelas que um dia serviu para guardar leite em pó. A mão se projeta a esmo na captura de moedas. Algumas, bem poucas, passam da mão para a lata, tilintando com outras que já estão lá dentro. O mendigo balança a cabeça negativamente como quem não se vê satisfeito com suas economias, entra num bar, despeja algumas moedas sobre a vitrine de salgados gordurosos. Recebe em troca um copinho de líquido transparente que não demora a ser tragado. Ao sair, o mendigo avista no chão um chapéu virado, no qual sem hesitar despeja as moedas que ainda restavam na lata. O artista de rua que se faz de estátua percebe o gesto, mostra-se comovido e ensaia algum gesto de agradecimento, mas se contém imediatamente, pois é preciso manter o profissionalismo, e seu mérito está justamente em sustentar a inamovibilidade, custe o que custar (...) continua.

Um comentário:

Josane Mary disse...

Olá, Flavio!
Prazerosa a leitura do conto [em etapas! - interessante isso, nos deixa curiosos!].

Ainda o parabenizo pelo interesse em divulgar outros autores. Muito bacana! Fiz o envio do Press Release do meu livro "Mevrouw Jane" para o email que indica.
Será uma alegria que quiser visitar o meu cantinho virtual, e ler o prefácio do meu livro.

Grande abraço, daqui da Holanda,
Josane