segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Canto de contos curtos

Da série "cenas urbanas":  Dia de cidade grande (parte 1)

Logo bem cedo a padaria Triunfal é palco de agitada movimentação. Os sonolentos clientes estão sentados em banquinhos giratórios que se estendem à frente de um balcão repleto de xícaras e pães recheados com manteiga farta. O perfume do café torrado se difunde por todos os cantos do ambiente até chegar à saída, exatamente ali onde um homem, sozinho, gesticula e fala alto. Fosse em outra época era o bastante para que o julgassem louco, mas nos tempos atuais é bem natural que as pessoas sejam vistas a conversar animadamente por aí sem que necessariamente haja algum interlocutor por perto, e isso pelo simples fato de que foi inventado o telefone celular. Repentinamente, o homem se lança em direção à rua, ainda limpando os lábios com um guardanapo de papel. Seus passos acelerados desafiam os carros que avançam pela avenida. Já do outro lado, um dos braços se estende e se agita, e o que se ouve é um ruído agudo, longo e angustiante, anunciando os freios de um ônibus que para agressivamente. Sem desgrudar o celular da orelha e parecendo temer que o ônibus arranque sem o deixar entrar, sobe o homem apressado por uma porta, enquanto lá pela outra porta do ônibus desce uma mulher. Dos altos degraus até o chão, ela aterrissa seus sapatos de enormes saltos com inacreditável destreza, a mesma destreza com que passa a caminhar, exibindo pela calçada o equilíbrio de conduzir os pés tão espichados. Em uma das mãos segura uma bolsa e na outra um livro que ainda não está na bolsa provavelmente pela falta de tempo de ter sido guardado. É possível enxergar que na capa do livro está escrito “L. Tolstói”. Não seria devedor quem apostasse que as viagens diárias daquela mulher são longas. Mais adiante, Tolstói se faz muito útil, e não pela edificação que suas letras proporcionam, mas pela contusão provocada pela capa dura do livro aplicada no meio da testa do assaltante que havia erguido uma faca contra a mulher de saltos gigantescos. A mulher grita assustada. Os curiosos se aglomeram. Em seguida, dois policiais conduzem o sujeito ainda cambaleante que talvez tenha aprendido a lição de não se meter com a literatura de peso... (continua)

caos




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