quarta-feira, 10 de agosto de 2011


-Kátia Leite -


"Serena era assim desde pequena. Falava pouco e, por vezes, ficava irritada com a prolixidade alheia. O corpo franzininho, vergado, se esquivava das possibilidades de comunicação. Mantinha, no entanto, uma intrigante imponência no olhar que lhe garantia a irredutível fama de antipática.

Altiva aos olhos alheios, mais uma na multidão. Admirava o ar de santidade com que Frei José caminhava pela rua, todo bonachão. Quisera ao menos uma vez ter podido conversar com ele. Sentar à sombra de uma daquelas árvores redondas do jardim e conversar... horas a fio. Gostava do jeito como ele falava com as crianças, do arrastar de sua sandália franciscana a caminho da praça, da barba, da batina, de seu sotaque. Reverberação. 

Aprazia-lhe aquele primor em coerência de conduta. Pouco importava as questões propriamente religiosas, mas ficava encantada com o esmero do Frei ao tratar tudo o que era vida. As plantinhas ao redor da igreja pareciam sorrir quando ele vinha, cheio de doçura, com o balde d'água na mão. Até mesmo o astro-rei baixava a guarda naquela hora e Serena sentia uma brisa leve acariciar-lhe o rosto. As folhinhas das árvores bailando no magnífico espetáculo que anuncia o frescor da noite: ballet divino. Elevação.

Houve um dia, porém, em que o entardecer ficou chuvoso. E os olhos de Serena serenaram.  Curvaram-se humildes ante os infortúnios da vida.

Resignação."

Kátia Leite é autora do blog Furta-cor:   http://palavrafurtacor.blogspot.com/

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