segunda-feira, 19 de setembro de 2011

DO GRITO
-Milena Martins-

Matisse - Jazz Icarus

Porque há o direito ao grito.
Então eu grito
.”
(Clarice Lispector)

Eu tinha chorado quando ele veio.
Da primeira vez que eu o chamei, ele saiu rasgando as paredes da garganta. Bateu nas paredes de limo verdescurecido sobre as pedras lisas. Eu vi suas ondas reverberando no ar e morrendo em ecos tardios pelo escuro. Nenhuma luz acompanhava o som que ele trazia e que era a essência de sua chegada. Porque era tudo muito negro. E havia o escuro aqui e havia a luz meio azulada do desconhecido mostrando sua presença lá fora. E havia um feixe claro ao longe e havia o escuro aqui. O silêncio e o escuro. E a gota líquida que descia das frestas infiltradas pela água que rachava caminho no teto de pedra fazia seu bater ritmado no chão úmido de pedra. E cortava o silêncio como o desconhecido rompia o escuro. E era o silêncio. E era o esquecimento. E o esquecimento, o escuro e o silêncio. E depois do silêncio, ele voltou. Seus ecos tardios reverberando de novo. Agudos, cortantes, altos, prolongados. Ele voltou negro, sangrando, cravando seu desespero gris nos tijolos de pedra, o chão liso de pedra, pedra no teto e no chão, pedra nos olhos de pedra limosa, úmida, endurecida.
E havia o escuro aqui. Porque era tudo muito negro. Tudo o que eu via – a cela, as grades de ferro, as pedras, o tempo de minutos iguais, a gota luminosa surgindo na fresta do teto para despir-se em som desaparecendo no escuro. E caía. E era só escuro e silêncio. A cela – ar azulado do claustro. E ele ainda reverberava em ecos tardios como uma voz conhecida, porque eu o tinha chamado e ele tinha vindo e desaparecido e voltado e sumia, sumia, e sumia. E eu o queria de novo porque tinha gostado muito daquela presença de som e de esperança no escuro. E eu o queria encontrar de novo, porque estava perdida no escuro. E era tudo muito negro e muito azulado e era tudo de pedra e de claustro e de sonho e o sonho era mau e eu era só e o só era escuro. E eu o queria de novo. E sozinha de novo, de novo chamei.
Da segunda vez que ele veio, cuspi pedras. E as pedras se chocaram nas paredes de pedra. E eu vi seus estilhaços de pedra brilhando no escuro. Da segunda vez, as pedras saíram arrancando sangue das paredes da garganta e o sangue pintou as paredes, verdes de limo, de vermelho também. E o vermelho brilhou e sumiu. Da segunda vez que eu o chamei, ele veio também, e também gritou e também sumiu. E depois voltou também e também ecoou e também sumiu.
E no escuro eu lembrei. Enquanto ele gritava comigo nas paredes de pedra do escuro eu lembrei. Só então eu me lembrei. De lá de fora e das ruas e da fumaça azul dos dias grises e das manhãs cinzentas do meu mundo e do lixo e das moscas e do pavor e dos mortos e das noites sem estrelas e dos carros e dos morros escurecendo no horizonte e das nuvens pesadas enegrecendo os morros que escureciam no horizonte.
Só então eu me lembrei.
Daquela casa e da chuva que eu não queria que terminasse e do grito que não saía e do medo e do medo que era muito e ainda maior porque eu não sabia gritar. E quando ele veio eu me lembrei, lembrei que eu me escondia e que eu sabia que eu precisava me esconder e que eu trancava as portas e as janelas e que eu não conseguia respirar de medo e não comia de medo e não queria mais viver porque era tudo um grande medo mas tinha medo de não viver. E me lembrei que só queria dormir e que não podia dormir e me lembrei que mesmo assim eu me deitava na cama e me encobria com o lençol e enrolava a cabeça e apertava os pés contra a coberta e puxava e puxava e puxava muito e sentia relaxarem os músculos naquele esforço e sentia as pernas descansarem e sentia que eu queria dormir. E sentia, quando ele veio eu me lembrei que eu sentia, muita saudade do tempo em que eu podia deitar e descansar e dormir. Mas nunca lembrei, nem mesmo quando ele veio, o que era que fazia eu não poder mais dormir agora que tinha tanto medo e me escondia naquela casa de cantos sujos e corpos amontoados lá fora e moscas lá fora e chuva lá fora.
E quando ele veio eu me lembrei de tudo o que eu não tinha me forçado a esquecer e lembrei tanto e tanto e de tanto eu me lembrei quando ele veio que me lembrei que eu descansava esperando a dor e me escondia fugindo da dor. E essa lembrança doeu quando ele veio. Essa lembrança foi o que mais doeu quando ele veio.
E ele gritava comigo quanto mais eu lembrava e ele sabia e eu sabia que eu só me lembrava porque ele estava comigo. E quando ele veio e enquanto ele esteve comigo gritando e cuspindo pedras nas paredes de pedra do escuro, enquanto ele esteve comigo eu me lembrei. Que eu tinha feito todo mundo acreditar que eu era feliz. E do medo e da chuva e das moscas lá fora, voando por cima dos corpos.
E quando eu o chamei de novo e ele veio, quando ele veio de novo, reconheci que ele era uma voz conhecida, reconheci que era a voz de alguém e reconheci, quando ele veio eu reconheci, que ele era a minha voz que gritava no escuro. E ele gritava porque eu gritava e reverberava e ecoava e sumia e voltava e repetiarepetiarepetia e sumia e eu o chamava e ele voltava e eu queria gritar e ele vinha quando eu gritava porque ele era o meu grito. E eu me lembravamelembravamelembrava, tanto lembrava de tudo aquilo que não me forcei a esquecer, tanto lembrava e lembrava e lembrava que lembrei, quando ele veio eu me lembrei. Das batidas na porta de madeira podre da casa escura e suja e do meu desespero calado e que eu balbuciava alguma oração já esquecida e que eu talvez ainda soubesse na hora do medo. Eu lembrei que eu não queria que me achassem e que eu me escondi num canto escuro e o dia era escuro e chovia e eu gostava porque chovia porque eu gostava da chuva e eu queria que a chuva nunca parasse porque o medo nunca parava e eu sentia, ali, presa naquele canto escuro, calada do medo que nunca parava, eu sentia o corpo todo tremer e sentia o coração tremer em mim e sentia que tremia dentro de mim um grito contido tinha muitos anos, um grito que eu não conseguia soltar e que era o único capaz de me trazer liberdade. E eu lembrei que havia relâmpagos rompendo o escuro e havia o silêncio e o escuro. E então eu lembrei de um som e o som era a porta derrubada e o som era de passos e os passos vinham até mim e eu sabia que aqueles passos não podiam me achar e eu sabia que tinham me achado e que eu não queria isso e eles vinham e vinham e eles andavam rápido e eram fortes e repetidos e então pararam. E quando pararam era junto de mim.
E quando eu o chamei de novo e ele veio e eu vi que ele era um berro guardado e que era o meu berro e que me arrancava da garganta o sangue que as pedras que eu cuspia levavam no ar, quando eu vi que ele queria sair de mim como eu queria sair de mim, quando ele veio e eu me vi nele, só quando ele veio eu me lembrei.
Que havia braços, sim, braços sem corpos me carregando pelos braços. E que havia medo e corpos e moscas e lixo e carros e morros e horizontes e negro e que era escuro, era muito escuro, e que era frio e eu queria dormir. E quando ele veio eu me lembrei. Que eu senti meu corpo arrastado pela sujeira dos tapetes e depois pelas pedras duras e depois pelos corpos e depois pelas ruas e pela pedra lisa e pelo úmido e pelo frio da cela em que o meu grito vem me libertar.

Conto integrante do livro Promessa vazia (Multifoco, 2011). http://oraculosdosoculos.blogspot.com/2008/08/o-do-grito.html

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