sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A sétima arte: Maurício Limeira



Sinopse. Ficção científica que reinicia a série originada em 1968 com O Planeta dos Macacos. As experiências no tratamento do Mal de Alzheimer (de que seu pai é vítima) levaram o cientista Will Rodman a desenvolver em laboratório o A112, substância que se espalha como vírus no organismo a fim de recuperar a atividade cognitiva do paciente. Testado em chimpanzés, o vírus aparentemente é um sucesso, pois sua principal cobaia, “Olhos Brilhantes”, apresenta impressionante aumento de QI. Na reunião para apresentar resultados e defender o uso do A112 em humanos, no entanto, “Olhos Brilhantes” torna-se agressiva e violenta, terminando por ser abatida pela segurança e fazendo com que o projeto de Rodman seja encerrado. A espécime, no entanto, deixou um filhote, César, que o cientista levará para casa, adotando-o em segredo e descobrindo que ele herdou a inteligência da mãe. César crescerá feliz junto a Rodman e o pai deste, até um incidente com os vizinhos obrigar seu dono a colocá-lo num abrigo junto a outros primatas, onde o até então afável César tomará conhecimento dos maus tratos que os humanos infligem aos macacos e utilizará sua inteligência para promover uma rebelião.

Comentário. A série original (formada por cinco filmes, sem contar a infeliz refilmagem dirigida por Tim Burton em 2001) tinha por foco o destino trágico do ser humano, que, apesar de toda a inteligência, foi capaz de destruir a própria espécie. Neste Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of the Planet of the Apes, EUA, 2011) o mesmo tema faz-se presente, apenas substituindo a ameaça nuclear da época pela visão mercadológica e aética da ciência. Os fins justificam os meios, e por isso espécies animais – no caso, os chimpanzés – são submetidas a todo tipo de experimento, sem levar em conta as consequências, e geralmente sacrificadas ao final.

Tem-se então o segundo foco da série: o conflito do indivíduo por um lugar num mundo que lhe é hostil, a sensação de deslocamento e a busca pelos pares. Aqui, à medida que cresce, César percebe que é um estranho entre os homens. Por mais que receba amor de Will, de Charlie (o pai com Alzheimer) e de Caroline (a veterinária que se torna namorada de Will), sua rotina é o isolamento dentro de casa, e a coleira ao sair ao ar livre. O contato com outros primatas, então, será um choque, ao ser colocado dentro de uma jaula e submetido à crueldade dos humanos e à selvageria dos outros chimpanzés. Situação que não tem como acabar bem.

Para satisfazer à trama, o roteiro se permite deslizes como a exagerada crueldade dos tratadores do abrigo e a displicência de Will, ao deixar César num lugar como aquele. Exageros também caracterizam a direção de Rupert Wyatt, cuja movimentação vertiginosa da câmera muitas vezes se mostra desnecessária, e, se agrada ao público adolescente, termina sufocando o realismo de determinadas cenas. A necessidade de agradar um público específico, mais atento à ação do que ao drama, também é vista na falta de cuidado com os diálogos e com os personagens coadjuvantes (o caricato dono do abrigo e a namorada, por exemplo), principalmente em sequências dramáticas como a final, onde a pobreza do texto revela o desleixo na realização.

O resultado, apesar disso, é positivo. Não há como não ficar perplexo com a expressividade de César, o grande destaque do filme. Pela primeira vez na franquia utilizando a tecnologia de captura de movimentos no lugar de pessoas fantasiadas de macacos, e chamando o especialista Andy Serkis (que já havia sido o Gollum de O Senhor dos Anéis, além de um outro primata famoso, o King Kong, ambos filmes de Peter Jackson) para interpretar o chimpanzé líder da rebelião, este A Origem cria momentos antológicos. Todo o dilema do protagonista, todo o sentimento de desajuste ao mundo a que pertence, é retratado com caretas, grunhidos e gestos que surpreendem e comovem, até a chegada da revolta, em que as feições – e, principalmente, o olhar – de César/Serkis fica carregado de tons sombrios. Pena que sua atuação não encontre par no protagonista humano, já que James Franco parece repetir aqui a má vontade com que apresentou a entrega do Oscar, quase arruinando a despedida final. Apenas John Lithgow, como o pai doente, dá um pouco de brilho à capacidade de interpretação de nossa espécie, protagonizando dois belos momentos com César, a cena do garfo e o abraço no meio da rua.

O filme acompanha então a via crucis de César num crescendo, principalmente durante a passagem pelo abrigo. Aqui, alterna-se momentos comoventes e dolorosos (a janela desenhada – e depois apagada – na parede, por exemplo), até que a fragilidade e o pasmo se convertam em aprendizado e agressividade, à medida que César se relaciona com os outros macacos, principalmente com um orangotango de circo. Exageros e forçadas de barra à parte, o espectador vai acompanhando com interesse o desenrolar da história até seu clímax, com a batalha na ponte. Ao final, recomenda-se que o espectador não se levante da cadeira. Há mais uma cena após os créditos – um gancho que tanto pode servir para uma possível continuação, quanto para formar um elo com o filme original (repare nas notícias sobre o lançamento de uma nave que aparecem durante o filme, primeiro na TV e na primeira página de um jornal).

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