sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Sétima Arte: A agenda - por Maurício Limeira



Sinopse. Demitido depois de 11 anos de trabalho como consultor financeiro numa empresa conceituada, Vincent Renault age como se nada houvesse acontecido. À esposa Muriel e ao restante da família (os três filhos, o pai e a mãe) justifica os longos períodos de ausência em casa dizendo que conseguiu um novo e melhor emprego, como consultor da ONU em Genebra. No entanto, fora de casa Vincent se limita a dirigir a esmo pelas estradas, dormindo em bares ou dentro do próprio carro, e entrando em edifícios comerciais, circulando pelas salas e corredores como se fosse um funcionário. A mentira criada vai aumentando de proporções, à medida que Vincent passa a enganar tanto os amigos quanto o próprio pai, tomando-lhes dinheiro a título de um novo investimento em projetos da ONU na África, de que ele toma conhecimento a partir das leituras em hotéis e salas de espera de empresas.

Comentário. A sociedade é competitiva. Há sempre o outro por perto, e na melhor das hipóteses este outro está apenas observando o nosso desempenho. Vincent vivia de seu desempenho, até descobrir que parecer fazer pode ser tão importante e valioso quanto o fazer propriamente dito. A sociedade, competitiva, exige o sucesso. Não perdoa a diminuição do status. A família, os vizinhos, os colegas cobram diariamente o cumprimento desta meta. Uma inocente feira no colégio dos filhos pode tornar-se, assim, uma sabatina quanto ao novo e importante emprego (cujo anúncio, contra a vontade de Vincent, rapidamente se espalhou). Diante de tanta pressão, há quem prefira manter as aparências a admitir o fracasso.

A Agenda (L’Emploi du Temps, França, 2001) acompanha a mentira abraçada por Vincent, e sua opção pela manutenção das aparências. Com a história da ONU e com as vultosas quantias recebidas dos vários contatos, o protagonista não apenas aplaca a dor do fracasso, mas também aumenta a admiração de seus pares e ainda conquista tempo para um de seus maiores prazeres, o de dirigir sem destino e sem prazo. Prazer, aliás, compartilhado com o espectador em belas imagens da estrada à noite, iluminada apenas pelo farol do carro e emolduradas com o quase ronronar do motor e o chiado dos pneus passando pelo solo ora liso, ora pedregoso, sempre sob o ponto de vista de quem está ao volante.

O filme é narrado deste ponto de vista, o do protagonista. A direção de Laurent Cantet procura manter-se distante de julgamentos, e limita-se a acompanhar a trajetória da farsa no mundo das aparências. Não escapa, com isso, de tornar-se lenta, e fria como as paisagens geladas da Suíça, para onde Vincent leva a esposa Muriel – e onde, por instantes, em sequência simbólica, pensa tê-la perdido. Há um olhar detalhista na câmera de Cantet que, se funciona no princípio, em que estamos conhecendo o personagem e acompanhamos com curiosidade momentos como o de Vincent se misturando aos executivos de uma empresa para entrar no edifício com eles, termina por se tornar tedioso. O diretor opta por exibir cada silêncio solitário, cada tragada, lenta, no cigarro, cada diálogo vazio com a esposa (que sente que há um problema no ar, mas insiste em defender o marido) e os filhos, como se realizasse um documentário sobre Vincent Renault. Assim, assistimos as reuniões de negócios com os “investidores”, anotadas na agenda que dá o título em português ao filme, ouvimos diálogos técnicos sobre economia internacional, e testemunhamos os constrangimentos com seguranças de hotéis e de estacionamentos particulares (onde às vezes ele dorme, dentro do carro). Há até um princípio de remorso, na questão do amigo músico que se oferece para investir também, colocando todas as economias da família nas mãos de Vincent. Mesmo momentos de tensão, como os conflitos com o filho adolescente, ou a presença do colega do antigo emprego (de quem Vincent recusa uma nova oferta de trabalho, e exige que a demissão seja mantida em segredo) e o surgimento de um novo e misterioso personagem, que parece saber da farsa, parecem narrados sem maior comprometimento dramático, e da mesma maneira fria se desenvolvem.

Além da bela fotografia com tons esmaecidos, combinando com a frieza narrativa, a cargo de Pierre Milon, há que se destacar também a belíssima trilha sonora de Jocelyn Pook. Os inspirados acordes de violino que acompanham a solidão de Vincent e ilustram principalmente os momentos das viagens pelas estradas parecem lembrar ao diretor que ele não está sozinho acompanhando seu personagem, e que mais gente deveria interessar-se pela história. Finalmente, tem-se em Aurélien Recoing, o Vincent, o ator ideal para este personagem contido que, embora seus traços faciais pouco se modifiquem, deixa latente o combate entre a realidade e a ilusão da sua vida, escondendo o que quer que esteja sentindo, medo, repulsa, tensão, atrás de sorrisos afáveis e fumaças de cigarro.
Acompanhe os textos de de Maurício Limeira:

Um comentário:

Ana Andreolli disse...

valeeeeu pela boa dica!