terça-feira, 22 de novembro de 2011

Entre luzes vermelhas, amarelas e cor de abóbora

  Flávio Sanso
@flavio_sanso

Ao lado de i pads, i pods e smartphones, outro símbolo da sociedade contemporânea são as praças de alimentação.
As praças que já foram do condor e do povo, hoje recebem a estranha alcunha de praças de alimentação. O cenário parece ser sempre o mesmo: cadeiras e mesas padronizadas muito perto uma das outras formam uma ilha envolta por restaurantes e lanchonetes do estilo fast food de onde saem bandejas de comida preparada a toque de caixa, e em cima dos quais se revelam letreiros coloridos, prevalecendo os tons em vermelho, amarelo e cor de abóbora. Aliás, ouso dizer – só por palpite – que há por trás da combinação dessas três cores algum estudo conclusivo sobre a maior capacidade que elas têm de atrair a atenção do consumidor faminto e sedento.
Por ali se propaga uma forma sonora muito particular. A mistura de vozes provoca um burburinho poderoso e incessante que não admite sotaques. Nos shoppings cariocas, paulistas, maranhenses, o burburinho é sempre o mesmo, talvez com alguma variação de volume em decorrência da acústica local.
Uma criança se opõe à aproximação do garfo que sua mãe pacientemente ostenta no ar. Faz pirraça, chora, balança a cabeça, mas depois de algum tempo recolhe do prato uma batata frita, colocando-a na boca sorrateiramente. Uma família abandona a mesa que tão logo passa a ser ocupada por outra família que não consegue achar espaço para as compras que carrega. Há uma sincronia entre as pessoas que fazem as refeições sem companhia. Abaixam a cabeça e se concentram em acabar a refeição rapidamente.
Quem se dispuser a observar o que acontece em volta talvez seja o único a fazê-lo, e por isso passará despercebido como se estivesse invisível. O exercício da contemplação combina melhor com a praça do condor, com a praça do povo.
                


Nenhum comentário: