sábado, 10 de dezembro de 2011

Os pedais e a orla

Flávio Sanso
www.reticencia.com
@flavio_sanso

Num desses momentos em que a vida exige mudança de rumo, Alvarenga foi morar no litoral. Por lá inaugurou um negócio tão simples quanto inovador. Passou a alugar bicicletas para passeios pela orla, com o preço estipulado por uma hora de pedalada. Tudo começou com três unidades. Passados quinze anos já eram quarenta bicicletas e quatro funcionários. Alvarenga adotava o curioso procedimento de nunca exigir alguma garantia pela devolução das bicicletas. Nem dinheiro antecipado, nem retenção de carteira de identidade. O lema era a confiança extrema em seus clientes, e nisso havia um indisfarçável orgulho. Por muito tempo não houve qualquer ocorrência de que alguém tivesse surrupiado alguma bicicleta. Certa vez Alvarenga viu se aproximar um homem de meia idade ostentando a aparência discreta de quem transmite apenas placidez. Após as tratativas de praxe, o homem saiu pedalando vagarosamente. Uma, duas, cinco horas se passaram e ele não voltou. Alvarenga não sentiu a raiva dos enganados, mas sim uma aguda sensação de decepção e fracasso. Mergulhou em profunda tristeza. Quando ainda tentava se recuperar do baque, leu a notícia de que um barco havia afundado a mais ou menos um quilômetro dali, e nenhum dos tripulantes havia sido encontrado. As engrenagens de sua mente logo imaginaram a possibilidade de que o homem-que-nunca-mais-voltou estivesse naquele barco, ele e a bicicleta. Alvarenga sorriu e resolveu zerar sua estatística. Nunca ninguém havia deixado de devolver uma bicicleta alugada.

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