terça-feira, 29 de novembro de 2011

A poesia, em bom português

 A Biblioteca Popular de Botafogo está com inscrições abertas para o curso  “Vertentesda poesia portuguesa e brasileira contemporânea”. A ideia é passar conceitos sobre a produção atual dos dois países tendo a produção poética como pano de fundo. O curso, ministrado pelo escritor português Luis Serguilha, é gratuito e busca conceitos diferenciados para a chamada “nova poética”. As aulas são uma boa oportunidade de aperfeiçoamento para professores, alunos de graduação e pós-graduação, especialistas em língua portuguesa e afins.

    Luis Serguilha é autor de várias obras de poesia e ensaio. Tem textos publicados em revistas de Literatura no Brasil, Espanha e em Portugal. Já foi traduzido para o espanhol, inglês, francês, italiano, alemão, catalão e finlandês. Foi também o curador do Encontro Internacional de Literatura e Arte, realizado este ano em Portugal. As aulas acontecem nos dias 1º e 2 de dezembro, das 19h às 21h. São oferecidas 40 vagas. Mais detalhes e inscrições no site www.bibliotecapopular.com.br

Escritor Luis Serguilha estará no comando dos dois dias de curso

domingo, 27 de novembro de 2011

Sonhos e ilusões


Vicentônio Silva
(www.vicentoniosilva.blogspot)

Pelo menos uma vez na vida ouviremos ou falaremos sobre sonhos e ilusões. Alguém menospreza o interesse pela Literatura e nos alerta: - Por que você não para de sonhar e vai procurar alguma coisa mais séria como advogar, fazer imposto de renda, negociar na bolsa de valores ou no mercado de imóveis? Vez por outra, alertamos que não se precisa de tanto dinheiro para viver e que, já que se tem dinheiro de sobra, por que não viajar o mundo, trocar experiências, amadurecer idéias, planejar sonhos?

Sonhos são sempre bem-vindos em todos os lugares, em todas as situações, em todas as idades. O menino sem dinheiro que gostaria de uma bola de futebol é um sonhador. O pai que deseja que os filhos ganhem excelentes salários é um sonhador. O jovem que acredita na justiça é um sonhador. A namorada que defende a fidelidade do namorado é uma sonhadora. Sonhadores também são os que vislumbram as mensagens que tremeluzem na rotina, os que desejam a transformação social, os que acreditam na salvação do mundo ou os que mantêm a fé na libertação do homem.

Os sonhos são sempre bons. As ilusões são os percalços dos sonhos. O sonho impulsiona a vida; a ilusão nos joga ao ridículo. O sonho fortalece a maturidade; a ilusão facilita o desequilíbrio. O sonho constrói caminhos diferentes, desconhecidos, mas seguros; a ilusão apresenta uma estrada pavimentada e, ao mesmo tempo, repleta de segredos que podem nos custar a vida.

Concluir a graduação de filosofia é um sonho. Imaginar-se um pensador indispensável é ilusão. Formar-se médico é um sonho – sonho de boa parte das pessoas que não gostam de estudar e se preocupam mais com status e oníricos benefícios financeiros do que com a saúde alheia. Autodenominar-se cientista é uma ilusão. Entrar numa sala de aula na condição de professor é um sonho; atribuir-se a qualidade de Educador sem nenhum esforço teórico ou prático é uma ilusão.

Precisamos manter intermitente a possibilidade de sonhar. Jamais poderemos barrar os sonhos, por mais mirabolantes e incríveis, mas necessitamos impedir que os sonhos se convertam em ilusão. Se o sonho se disfarça em ilusão, assumimos a falta de maturidade, de perspectivas e de capacidade de enfrentar desafios.

O casamento duradouro é um sonho – que atinge os devaneios de quem se aventura no convívio a dois – mas achar que se tem um poder especial de dar um jeitinho para evitar a deterioração dos laços é uma ilusão. O sonho é forte se preparadas estratégias que vão minimizar os impactos inevitáveis. A frequência e a qualidade sexual diminuem depois do quinto ano. Acreditar que, com você, unicamente com você, a relação será diferente é uma ilusão; apostar suas fichas no amor, na ternura e no diálogo, criando e reforçando os sentimentos de cooperação é um sonho.

O tratamento com os filhos também pode desembocar em sonhos e ilusões. Desejar um filho saudável, culto e feliz é um sonho. Acreditar que atravessaremos pacificamente a adolescência – sem violência, sem gritos, sem frustrações, sem alterações nos nervos, sem choros, sem contrariedades – é uma ilusão. O sonho consiste no domínio das rajadas que virão contra nós. Perseverar, esperar, acreditar, fomentar a paciência e adquirir conhecimentos para essa nova situação é sonho. Tratar os filhos de onze ou treze anos – que ensaiam os primeiros passos na seara adulta – da mesma maneira de quando tinham seis ou oito anos é ilusão.

Os sonhos permitiram a descoberta da vacina contra a gripe, incentivaram as pesquisas contra a tuberculose e a pneumonia e, um dia, talvez em breve, permitirão que milhões livrem-se da Aids e do câncer. Os sonhos permitiram a um gago, feio e sem curso superior ocupar o lugar de maior escritor brasileiro de todos os tempos. Os sonhos, só em sonhos, um alemãozinho surdo e medonho ganharia lugar de destaque na história da música clássica universal.

Sonhos e ilusões, ilusões e sonhos. Sonhamos com beijos apaixonados, o resgate de sentimentos, a compreensão dos pais ou a compaixão dos filhos, a tranquilidade da aposentadoria ou o reconhecimento profissional. Sonhamos com um dia de sol nas férias, chocolates nos intervalos das refeições, Coca-Cola gelada esperando depois do treino, dinheiro na conta. Sonhamos com o estado imutável de felicidade, a viagem no fim de ano, um olhar de desejo. Nos iludimos com tantas coisas. Com que você se ilude?

*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 25 de novembro de 2011.

sábado, 26 de novembro de 2011

Aldo Moraes

Para o bem da memória cultural do Brasil, o baixo custo das novas tecnologias tem possibilitado uma enorme quantidade de filmes e documentários sobre as mais diversas personalidades e movimentos do país. Pela qualidade e grande circulação destes filmes, alguns como "Coração Vagabundo" (que ilustra um momento de Caetano Veloso); "O pequeno burguês, Filosofia de Vida" (sobre Martinho da Vila) e "Herbert (Vianna) de perto" ganharam dimensão de produtos culturais com grande visibilidade no mercado.

Há também o docu-drama Poeta da Vila sobre os 27 anos de vida e as obras primas de Noel Rosa. Isto faz um bem enorme para nossa cultura. E há os filmes sobre artes plásticas, teatro e literatura.

Assisti esta semana "Rock Brasília, a era de ouro", dirigido pelo competente Wladimir Carvalho, que sabiamente mescla depoimentos antigos e recentes com imagens de arquivo sobre as bandas de Brasília, sem esquecer do contexto geral em que se deu o rock nacional dos anos 80. Todos esses trabalhos recentes, que vão da música erudita de João Carlos Martins e Nelson Freire ao coco nordestino, passando pela MPB e rock e que em outras áreas envolvem Bispo do Rosário e Vik Muniz, por exemplo, são fundamentais para nossa reflexão histórica e cultural e para que a juventude tenha acesso à memória através de produções qualificadas.

Aldo Moraes é músico

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Ezequiel Fernandes lança livro sobre tema polêmico


Esta obra tem por escopo levar ao leitor algumas considerações sobre as políticas públicas e privadas intituladas de “ações afirmativas”, em especial no que se refere à modalidade chamada de “reserva de cotas para negros nas universidades”, e isso em face da recente vigência da Lei n.° 12.888 de 20 de julho de 2010, aqual instituiu o Estatuto da Igualdade Racial. Para tanto, faz-se uma incursão inicial no conceito de igualdade, definindo-a, explicitando seu alcance e suas nuances, a fim de extrair seu verdadeiro significado nos moldes da Constituição Federal de 1988 e do Estado Democrático de Direito, cotejando os limites da atuação do Estado na incessante busca pela igualdade real. Destaca-se no ensaio em apreço a vertente histórica das referidas políticas de ações afirmativas, assim como a discussão terminológica que envolve a matéria e seu âmbito de alcance, além da gradativa influência do instituto na elaboração da legislação pátria, findando o tópico com o exame sobre a legalidade e a legitimidade da temática em voga.         
Apresenta-se, ainda, a característica sui generis do racismo brasileiro, perfilando-se de forma pontual e fragmentária os mais distintos argumentos comumente esboçados pelos adeptos e, também, pelos contrários à política de cotas. Por derradeiro, o estudo incursiona em questões polêmicas, elenca fundamentos históricos, sociais e jurídicos, e seu desfecho encaminha-se para a possibilidade de aplicação da reserva de cotas desde que seus destinatários façam jus a elas, pois, em não sendo assim, tal forma de ingresso nas universidades será escoltada pela mácula da inconstitucionalidade.


Às vésperas de receber os filhos e a nora em sua mansão para os festejos de seu aniversário de 78 anos , o viúvo escritor Charles Langham sofre uma noite de dores, insônia, culpa e solidão. Por isso escreve. Em seu novo romance, no qual trabalhará toda a noite, transforma seus dois filhos, a nora e até a falecida esposa em personagens, os quais pode manipular, perverter, transformar e corrigir à vontade, até radicalmente, misturando em sua cabeça e despejando no papel suas lembranças, vontades, frustrações e desejos.

Alain Resnais, o cineasta da memória, adepto de narrativas não lineares e pouco ortodoxas, realizou este PROVIDENCE em 1977, com Sir John Gielgud, Dirk Bogarde, música de Miklós Rosza e figurino de Yves-Saint Laurent. Escrevi sobre ele no site Shvoong, resenha disponível aqui:

Maurício Limeira

Outros textos do autor:



quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Humberto Giancristofaro lança seu livro "Persona non grata"

No dia 30 de novembro, o escritor Humberto Giancristofaro lançará seu primeiro livro de contos, Persona non Grata, no Teatro Gláucio Gill. Para a abertura do evento, o autor escreveu e dirige a performance Há nela qualquer coisa de triste, título homônimo ao primeiro conto de seu livro. A performance começará as 20h e será feita pelo ator João Victor Cavalcante.

Trecho do livro:

“Num ato de soberba demonstração de supremacia e volição da minha independência, borrifo o máximo que posso o meu repelente sobre toda extensão de existência das formigas que posso encontrar em meu caminho, da lata do lixo ao buraco de escape na parede. Aperto o spray como quem quer exterminar uma espécie inteira, derramando sobre sua memória os pesares de um convívio que não deu certo pela intolerância à diversidade e partilhado poder.”

Sinopse:

Cinco contos, cinco dias quaisquer na vida de um silencioso intelectual acostumado com o mundo dos livros, confrontado com situações cotidianas que parecem ultrapassar sua capacidade de racionalização.

Numa cidade onde vivem os operários de uma grande indústria, o personagem principal ignora, em seu dia-a-dia, a rotina do lugar. A vida levada pelos demais habitantes da cidade destoa daquela de um intelectual. O café que ele frequenta quase automaticamente, num exercício de monotonia diário, mostra a distância entre esses dois mundos. A convivência com a “mundaneidade” da vida de um operário dá um nó na cabeça do filósofo. Seu mundo sempre racional, sempre certo, se confunde com o daquelas pessoas e não resiste a algo que é maior que ele: a evidência da vida em toda a sua complexidade.

 A realidade ultrapassa a ficção que cria todos os dias no escritório de uma revista de filosofia. Ele passa a ver a resistência da vida no sentido das coisas, e ele mesmo não resiste. Começa a desenvolver sintomas de descrença, a duvidar do que vê, do que ouve, do que sente. E cai cada vez mais fundo, com suas antigas convicções, em novas obsessões, aflições, neuroses que já não sabe como, nem se devem ser combatidas.

Humberto Giancristofaro
Curriculum:

Humberto Giancristofaro é escritor e roteirista. Mestrando em Filosofia no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, pesquisador das teorias francesas de Estética contemporânea. Formado em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, completou seus estudos em Filosofia da Arte na Universidade Vicennes-Saints-Denis Paris VIII. É sócio-colaborador da Questão de Crítica revista de críticas e estudos teatrais. Autor do livro Corpo sem órgãos: Estética da crueldade em Deleuze.

Serviço
Teatro Gláucio Gill
Praça Cardeal Arcoverde s/n - Copacabana, Rio de Janeiro
Dia: 30 de novembro
Horário: 20 horas
Entrada gratuita

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

As leituras imperdíveis de Ana Maria Machado

A escritora Ana Maria Machado é a convidada do encontro “Leituras Imperdíveis” que acontece na próxima segunda-feira (28 de novembro) na Biblioteca Popular de Botafogo. Autora de mais de cem livros e dona de vários prêmios importantes de literatura, ela vai conversar com o público sobre sua obra e ler trechos de seu mais recente livro, “Infâmia”, lançado em 2011. Jornalista e escritora com 40 anos de carreira, Ana Maria Machado já foi publicada em mais de 18 países, somando cerca de 19 milhões de livros vendidos, muitos deles dedicados ao público infantil.  O evento, como todos que fazem parte do projeto “Estação Pensamento e Arte”, é gratuito. Mais informações pelo site www.bibliotecapopular.com.br

Biblioteca Popular Municipal de Botafogo
Rua Farani, 53 – Botafogo, Rio de Janeiro, RJ
 Tel: (21) 3235-3799
 
Ana Maria Machado

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Entre luzes vermelhas, amarelas e cor de abóbora

                  Ao lado de i pads, i pods e smartphones, outro símbolo da sociedade contemporânea são as praças de alimentação.
As praças que já foram do condor e do povo, hoje recebem a estranha alcunha de praças de alimentação. O cenário parece ser sempre o mesmo: cadeiras e mesas padronizadas muito perto uma das outras formam uma ilha envolta por restaurantes e lanchonetes do estilo fast food de onde saem bandejas de comida preparada a toque de caixa, e em cima dos quais se revelam letreiros coloridos, prevalecendo os tons em vermelho, amarelo e cor de abóbora. Aliás, ouso dizer – só por palpite – que há por trás da combinação dessas três cores algum estudo conclusivo sobre a maior capacidade que elas têm de atrair a atenção do consumidor faminto e sedento.
Por ali se propaga uma forma sonora muito particular. A mistura de vozes provoca um burburinho poderoso e incessante que não admite sotaques. Nos shoppings cariocas, paulistas, maranhenses, o burburinho é sempre o mesmo, talvez com alguma variação de volume em decorrência da acústica local.
Uma criança se opõe à aproximação do garfo que sua mãe pacientemente ostenta no ar. Faz pirraça, chora, balança a cabeça, mas depois de algum tempo recolhe do prato uma batata frita, colocando-a na boca sorrateiramente. Uma família abandona a mesa que tão logo passa a ser ocupada por outra família que não consegue achar espaço para as compras que carrega. Há uma sincronia entre as pessoas que fazem as refeições sem companhia. Abaixam a cabeça e se concentram em acabar a refeição rapidamente.
Quem se dispuser a observar o que acontece em volta talvez seja o único a fazê-lo, e por isso passará despercebido como se estivesse invisível. O exercício da contemplação combina melhor com a praça do condor, com a praça do povo.

Flávio de Sousa

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A polêmica vida do amor


Cesar Cardoso é um dos 20 contistas presentes na antologia A polêmica vida do amor, o novo projeto da Editora Oito e Meio, organizado por Flávia Iriarte e Daniel Russel Ribas, e que busca elaborar literariamente os diversos significados do Amor, numa visão plural do mais antigo dos temas humanos, em contos que falam das relações imaginadas, das meramente sexuais, das que terminam em tragédia e daquelas que vivem em segredo.

O lançamento é dia 24 de novembro, quinta-feira, a partir das 20 horas, no espaço da Editora Oito e Meio, Travessa dos Tamoios, 32 C, Flamengo, Rio de Janeiro.


A polêmica vida do amor
Editora Oito e Meio, R$ 35, 184 págs.
Ficção nacional / contos / amor e erotismo
Organização: Flávia Iriarte e Daniel Russell Ribas
Autores: Antônio LaCarne, Joana Souza, Anna Beatriz Mattos, Cesar Cardoso, João Lima, Paula Cajaty, Roberto Pedretti, Roberto Robalinho, Rodrigo Vrech, Thiago Poggio Pádua, Valentina Silva Ferreira, Viviane Roux, Luciano Prado da Silva, Rafael Rodrigues, Aline Miranda, Jonas Arrabal, Paulo Vitor Grossi, Beatriz Castanheira, Marcelo Asth, Sidiney Breguêdo.

domingo, 20 de novembro de 2011

Não é bom eu existir?

por Vicentônio Silva

Três anos atrás larguei as experiências culinárias para me dedicar às atividades menos nobres: escrever, ler, dormir, arrumar livros, fazer caminhadas. Até que, no último fim de semana, procurei revistas de frangos e de arroz que eu comprava a preços módicos em bancas de jornal.
As receitas pareciam muito fáceis. Escolhi três tipos de arroz de forno dos quais elegi dois: um para o sábado, outro para o domingo. Minha namorada questionou-me: por que, depois de tanto tempo, voltara a cozinhar? Amaciava o terreno para notícias bombásticas? Minha filha Natália escarneceu a iniciativa, mas, no dia seguinte, por volta das dez e meia, azucrinou-me até desligar o computador. Já preparara metade dos ingredientes quando entrei na cozinha: desfiara o frango, cortara as azeitonas obviamente excluindo os caroços, picara os tomates, ralara o queijo, separara a noz moscada.
Derretíamos a manteiga e acrescentávamos alguns produtos na elaboração do molho:
- Não é bom eu existir? Se eu não existisse, você teria de picar, lavar a louça, desfiar o frango.
Disse-lhe que era sempre bom ela existir. Nunca quis ter filhos – Natália, minha filha de onze anos, sabe que não sou seu pai biológico – entretanto tive a sorte de encontrar uma filha perfeita que é Natália. Perfeita? É a versão feminina do tempo verbal: mais do que perfeita!
Perfeita porque assistimos juntos aos filmes de terror, de suspense, de desenhos, de comédia e de romances. Perfeita porque dá trabalho à sua mãe que, nos momentos de nervosismo enfrentados no diálogo com a adolescente, chora, se desespera, entretanto sente-se indiscutivelmente feliz de tê-la alojado por nove meses. Perfeita porque aprendeu a mentir tão bem quanto eu: nem completou doze anos e enrola a avó materna com histórias mirabolantes. Perfeita por perdoar minhas irritações quando, por motivos estúpidos, explodo em iras, berros e pressas, especialmente nas viagens. Perfeita porque sai na cacetada comigo para disputar o controle remoto: eu, querendo assistir ao “Pânico na TV”; ela, “Silvio Santos”.
Quando sua mãe faz brigadeiros, precisa dividir a bandeja em partes iguais: metade minha, metade dela. E, até nisso, é perfeita: mesmo me enfrentando para que eu não a roube, abre mão de sua quantidade. Também é perfeita porque faz companhia à minha mãe nas viagens a São Paulo, João Pessoa ou Vitória. Perfeita, ainda não sabe responder à minha pergunta: “Por que te amo tanto?” Talvez, no dia em que souber me responder, deixe de ser perfeita, pois terá se transformado numa mulher. Adulta, descobrirá o mundo dos conceitos, dos preconceitos, dos esquecimentos e das lembranças. Daí para frente, nem brigadeiros, nem confrontos pelo controle da televisão, nem filmes, nem viagens criarão mágicas. As mágicas criadas devem ser criadas agora! As amizades estabelecidas precisam ser fortalecidas agora! As cumplicidades sonhadas precisam de compartilhamento agora!
Amizades e cumplicidades são conceitos aterrorizantes. Lembro-me de sua mãe confidenciando a paixão por um pirralho da escola. Fiz o discurso de padrasto moderno. À hora de dormir, revirei-me na cama a noite inteira angustiado por saber que minha filha está se apaixonando. Nietzsche propaga a idéia do eterno retorno. Ressalta que se o universo tivesse alguma finalidade, essa finalidade já teria sido alcançada. Ele não está errado. Outros pais, mesmo considerados modernos, certamente descabelam-se pensando nesses últimos momentos que ficam guardados nas lembranças, na memória, no coração.
Não sei se continuaremos pai e filha por muitos anos. Ela pode escolher outro pai e concluir que é muito melhor do que eu. Outro pai certamente possuirá qualidades ilimitadas, paciência e responsabilidades, virtudes que não tenho. Uma coisa é certa: décadas podem transcorrer, ela pode escolher outro pai ou morarmos em lugares distantes. Aconteça o que acontecer, lembre-se que estarei diariamente recitando Shakespeare, reforçando que barreiras de pedra não podem deter o amor.
Se é bom você existir? Não é bom! É formidável, fascinante e único. Talvez Deus quisesse mostrar-me o lado divino da criação. Ele escreveu em seu bloco de notas: você vai ser pai de Natália, mesmo que por pouco tempo.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 18 de novembro de 2011.

sábado, 19 de novembro de 2011

Homenagem da vez: Clarice Lispector


Clarice Lispector é a nova homenageada da galeria dos imortais.

A escritora, desde o início da enquete, esteve à frente de outros dois nomes de peso: Machado de Assis e Guimarães Rosa.

Resultado final:

1º Clarice Lispector: 41%
2º Machado de Assis: 35%
3º Guimarães Rosa: 23%

Aproveite e vote na próxima enquete:

Qual destes pintores geniais deve ser o próximo homenageado da Galeria dos Imortais?

Claude Monet
Van Gogh
Auguste Renoir

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Pode morrer de tanto amor?


O Educador e Escritor Márcio Alexandre da Silva lançará a novela “Pode morrer de tanto amor?” na sexta-feira, 25 de novembro, a partir das 20h, no salão paroquial da Igreja Nossa Senhora de Fátima.

A obra, que marca a estréia do autor no mundo literário, aborda as nuances de felicidade, as angústias provocadas pelo amor e o redimensionamento da esperança.

Marcio Alexandre da Silva, que é professor de filosofia da rede estadual de ensino de São Paulo e palestrante, tem vasta e intensa colaboração nos principais veículos de comunicação de Assis, Presidente Prudente, Bauru, Marília e Ourinhos, destacando-se por suas críticas e reflexões filosóficas sobre as atividades cotidianas.

Além de performances artísticas, o evento contará com a participação do crítico literário Vicentônio Silva que explanará brevemente sobre os temas pontuais da obra. Exemplares do livro serão comercializados no local.

O quê?
Lançamento do livro “Pode morrer de tanto amor?”
Autor: Márcio Alexandre da Silva

Onde?
Salão Paroquial da Igreja Nossa Senhora de Fátima
Rua Nivaldo Neres Gusmão – 96
Vila Prudenciana
Assis/SP.

Quando?
Sexta-feira – 25 de novembro

Horário
20 horas

Entrada Franca.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O pé de maracujá

Uma planta que luta
Que procura subir na vida
Uma planta que não aceita o chão rasteiro
Mesmo se cortarem até a raiz, volta a nascer
Mesmo se não tiver muita terra
O pé de maracujá
Tem muitos tentáculos
Que o ajudam a vencer a gravidade
Nem o vento o pode derrubar
Enquanto as outras plantas dormem
O pé de maracujá parece pensar
Sabe onde se agarrar
Com muita garra
Poucas pessoas prestaram atenção em um pé de maracujá
Ele é o mais atacado pelas lagartas
Que as vezes conseguem destruí-lo
Mas os que ainda sobram conseguem escalar
As duras barreiras que a vida lhe impôs

Mauro Bandeiras

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O preço do amanhã


Num futuro próximo, modificações genéticas fizeram com que o ser humano parasse de envelhecer aos 25 anos. Após esta idade, no entanto, o indivíduo tem apenas mais um ano de vida, a menos que pague (ou herde, ou roube) por cada período a mais de prorrogação. Assim, se você não tem dinheiro, morre antes. Se tem muito, vive para sempre.

O PREÇO DO AMANHÃ, novo filme de Andrew Niccol (Gattaca, O Senhor das Armas, O Show de Truman), parte desta excelente premissa, e está em cartaz nos cinemas com Justin Timberlake e Amanda Seyfried.

Eu vi, e escrevi sobre ele aqui:
http://pt.shvoong.com/entertainment/movies/2228296-pre%C3%A7o-amanh%C3%A3/

Trailer no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=XUSt9oZUTrs

Acompanhe os textos de Maurício Limeira:
http://pt.shvoong.com/writers/mauriciolimeira/
http://filmantes.blogspot.com/
http://oadversario.blogstpot.com/

domingo, 13 de novembro de 2011

Aliança de compromisso

Por Vicentônio Silva

Entrei apressadamente no correio para despachar alguns documentos a serem enviados antes das dezesseis horas. Segundo o grande aviso afixado, dezesseis horas o limite para entrega de correspondências que subiriam no caminhão naquele dia. A funcionária indagou se as mandaria de forma simples, registrada ou por sedex. Se possível, incluiria a correspondência na categoria de cartas sociais – aquela espécie de carta para a qual desembolsamos um centavo na sua viagem país afora. Continuou verificando as taxas no computador. Meus olhos pousaram sobre as mãos pequenas e, na direita, aliança de prata quase embaçada simbolizava o compromisso.


O sistema ainda lento e a falta de proximidade com a funcionária levaram-me ao silêncio, mas em minhas fabulações reconstruía a cena dos argumentos para o uso da aliança de compromisso. A aliança de compromisso tem duas finalidades práticas: medo e propriedade. Quando a mulher possui charme natural ou artificial, elegância peculiar ou dotes pessoais capazes de inspirar poetas de porta de bar, o namorado, com medo de sua desvantagem, lasca-lhe uma aliança para que os outros interessados eventualmente recuem em suas ofensivas. Nem sempre o resultado é garantido. Antes se iludir do que perder o sono. Já a segunda alternativa acontece quando o homem, desejando demonstrar sua força de macho e de mandatário, mete uma aliança de prata na namorada a fim de demarcar belicamente sua “propriedade”.


Em muitos casos, as mulheres são convencidas a aceitarem as alianças como símbolo de propriedade do namorado e, nem por isso, nem pela informação de que integram os domínios de posse de alguém, se acham injustiçadas ou se revoltam. Na declaração de imposto de renda, o namorado especifica os bens adquiridos no ano anterior: uma casa, uma moto, uma bicicleta, uma esteira, uma adega de leilão de produtos apreendidos pela Polícia Federal e vendidos legalmente para beneficiar instituições de caridade, cinco vacas, doze éguas e uma namorada, sendo esta última o bem mais barato, mais prático de manter e mais fácil de substituir.


A resposta da namorada a um elogio é a melhor maneira de constatar se a aliança repousa no dedo por questões de medo ou de propriedade. Se eventualmente reconhecer o cheiro suave da mulher numa tarde quente, adorar suas roupas ou informá-la de que de sua franja emanam eflúvios eróticos, preste atenção na resposta. Se ela disser que “meu namorado também acha”, não tenha dúvida, você está diante da propriedade de alguém. Cuide-se! Na primeira oportunidade, tomando conhecimento de sua ação, o “dono” pode reclamar na justiça não apenas direitos sobre as vacas, as éguas ou as galinhas, mas igualmente da “namorada”.


Algumas namoradas são mais espertas. Conheço três mulheres perspicazes que, até hoje, manipulam parceiros com tamanha perícia que os respectivos patetas defendem as idéias delas, como se fossem deles, com unhas e dentes. O detalhe mais interessante talvez seja a infidelidade. Enquanto os três patetas defendem com unhas e dentes as namoradas, propagando idéias delas como se fossem suas, elas simplesmente flanam, dançam e se envolvem com exemplares masculinos muito mais interessantes.


-Vinte e três reais e noventa centavos.


Despertei de meu devaneio, puxei cinco cédulas de cinco reais da carteira, frisei bem as faces da atendente sem definir se ela se enquadrava no domínio dos namorados “medrosos” ou no dos “proprietários”. Os trejeitos tão desencontrados denunciavam que a aliança de compromisso escondia os desejos de mulher mal amada, descartada sistematicamente pelo parceiro.


Olhares mais apurados denunciam as insatisfações: se você – que é mulher, mas não se sente uma – foi trocada pelo jogo de futebol na televisão ou com os amigos, pelo churrasco ou pela cerveja no bar, a demonstração entre a inteligência e a estupidez está na sua reação.


O compromisso entre duas pessoas não se estabelece em alianças, documentos de casamento ou atestados de união estável. O compromisso entre duas pessoas acontece de várias formas. Já descobriu uma delas?


*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 11 de novembro de 2011.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

11/11/11

A sexta-feira próxima é um prato cheio para quem gosta de símbolos. Dia 11/11/11 só acontece uma vez. Nada demais se considerarmos que qualquer dia só acontece uma vez. Mas essa repetição de números numa mesma data está com os dias contados. Levando em conta que não existe o mês 13, a última oportunidade de vivenciarmos uma ocorrência de tal natureza será no dia doze de dezembro no ano que vem. E se a predileção for por números ímpares o dia 11/11/11 é ainda mais especial. Sempre tive mais simpatia pelos números ímpares e por isso prefiro o 11/11/11 ao 12/12/12.

Qual a importância disso? No futuro vai ser mais fácil lembrar o aniversário de alguma coisa que aconteceu no 11/11/11. Há quem um dia dirá "comecei uma vida nova no dia 11/11/11".


Flávio de Sousa é autor do blog o rinoceronte:
http://www.orinoceronte.com/

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Rumos da arte no Século XXI

 “A arte no horizonte do século 21”. Este será o instigante tema do seminário realizado em novembro pela Biblioteca Popular de Botafogo. Na mira de pesquisadores, professores e dos participantes em geral, está uma ampla discussão para tentar entender melhor os caminhos de vários segmentos artísticos na atualidade. Os debates,que acontecem nos dias 14, 16, 17 e 18 deste mês, terão entrada gratuita e contarão com especialistas de destaque em sua área.
   
O seminário foi dividido em quatro partes, com mesas direcionadas aos seguintes segmentos: Cinema, com a participação do roteirista Braulio Tavares;  Artes visuais, com o crítico de arte Frederico Moraes; Literatura, com o escritor e crítico literário Marcelo Backes; e Música, com a pesquisadora Santuza Cambraia. Tudo no sentido de questionar e buscar respostas sobre a arte do século 21.
  
O evento é uma boa oportunidade de aprendizagem e atualização para alunos de graduação e pós-graduação, professores, profissionais das áreas abordadas e especialistas. A Biblioteca Popular de Botafogo fica na Rua Farani, 53, Rio de Janeiro. Mais informações pelo telefone  21 3235 – 3799 ou no site http://www.bibliotecapopular.com.br/

Braulio Tavares falará sobre cinema na Biblioteca Popular de Botafogo

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Amor Confesso

crédito: Silvana Marques

Dia 11 de novembro estreia, no Centro Cultural Correios, o espetáculo Amor Confesso, adaptação de contos de Arthur Azevedo para os palcos. Com direção de Inez Viana (“As Conchambranças de Quaderna”, de Ariano Suassuna), o espetáculo, da cia.falácia, dá continuidade à investigação sobre a linguagem narrativa e sobre as questões humanas, iniciada em “A igreja do Diabo”, de Machado de Assis (2008). No elenco, Alexandre Dantas e Claudia Ventura, que dividem o palco com o pianista Roberto Bahal, pretendem provar que o amor é o mais antigo, universal e intraduzível sentimento que une homens e mulheres.
 
A interseção entre a literatura e o teatro é o objeto de pesquisa da cia.falácia. Através da linguagem narrativa, transitando entre a contação e a vivência da própria história, são criados espetáculos que estabelecem uma relação direta com o espectador, transformando-o em um espectador ativo, cúmplice da cena, além de atrair leitores - mergulhados num mundo repleto de apelos visuais – para a literatura “em ação”. 

Em Amor Confesso, além da linguagem narrativa, os atores usam a música e diferentes gêneros teatrais como melodrama, farsa, comédia musical, para darem voz aos diversos personagens dos contos de Arthur Azevedo, cuja obra é marcada pela relação direta com o leitor, através de um olhar arguto, crítico e bem humorado.

Local: Centro Cultural Correios (Rua Visconde de Itaboraí, 20 – Centro - Rio)
Informações: 2253-1580
Bilheteria: 2219-5165.
De quarta a domingo, das 14h às 19h
Valor: R$20,00
Horário do espetáculo: Quinta a Domingo, às 19h
Capacidade: 200 lugares
Duração: 90 minutos
Classificação etária: 12 anos
Gênero: Comédia
Temporada: 11 de novembro de 2011 a 15 de janeiro de 2012

domingo, 6 de novembro de 2011

TV TRAMA APRESENTA: FAKE NUMBER, THIS GRACE FOUND, CROCODILLA E LEPTOSPIROSE




A Trama, através de uma parceria com o maior site de compartilhamento de vídeos no mundo, o Youtube, disponibiliza toda a programação da TV Trama, inclusive o programa Radiola, em tempo real. Para a empresa é extremamente importante usar esta ferramenta, visto que a mesma busca sempre soluções inovadoras e criativas para o mercado.

Criado pela Trama, o canal da web, traz as novidades da cena musical em apresentações exibidas diretamente dos estúdios Trama das 16 às 18h, diariamente. Com conteúdo gratuito, o canal de música na internet possui dois formatos para exibição: Ao Vivo (onde o artista é entrevistado antes do show) ou Ensaio (o artista ensaia e responde as perguntas enviadas pelos internautas entre as músicas).

Com a alta tecnologia dos estúdios Trama, os visitantes da Tv Trama tem a oportunidade de assistir aos musicais e vivenciar a experiência online de fazer parte do espetáculo. Todo o áudio transmitido pelo canal passa pela mesa de som Neve (uma das melhores do mundo, com apenas 15 exemplares fabricados com exclusividade para BBC de Londres e Luke Skywalker Studios de George Lucas, entre outros). Ao final de cada transmissão, o artista ganha a sessão com todo material que gravou no estúdio.

 Reconhecida como uma das empresas pioneiras em abrir espaço para artistas iniciantes, a Trama, com essa TV online investe em um acervo de música contemporânea que tem como principal objetivo a propagação da cultura brasileira.


Para assistir a TV Trama acesse:

http://tramavirtual.uol.com.br/

Programação da semana:
   
08/11 terça -   Fake Number
09/11 quarta-  This Grace Found
10/11 quinta- Crocodilla
11/11 sexta-  Leptospirose

sábado, 5 de novembro de 2011

Bibliotecas

por Vicentônio Silva
(acesse o blog do autor: www.vicentonio.blogspot.com)

A ida à biblioteca pública – ou, quem sabe, com muita sorte, privada? – deveria se tornar evento simpático, distante da solenidade que exterioriza o tédio, a aversão e o descontentamento. Na falta de bibliotecárias competentes e graduadas em boas instituições de ensino superior, jogam entre os amontoados de livros pessoas de todas as qualidades, mas duas espécies se sobressaem: as mal-amadas e as que detestam ler.

Cada biblioteca deveria se dividir em quatro ou cinco espaços destinados aos leitores específicos. Por exemplo, na biblioteca das crianças, grade de atividades, de festejos, de músicas, de vídeos, de brincadeiras e de brinquedos. Mesa repleta de doces, refrigerantes e salgadinhos. Frutas, legumes, verduras, sucos e assemelhados naturais seriam obrigação dos pais que, além do trabalho de desentupir os pimpolhos dessas bobagens, se incumbiriam de enchê-los de computador ou televisão, fomentando a vida sedentária. Afixaria placa bem colorida à porta com a seguinte informação em letras grandes: ENTRE SEM FAZER SILÊNCIO! Poderíamos entrar gritando, batendo palmas, pulando, tocando instrumentos, sambando nas mesas, afastando cadeiras...

Os adolescentes e jovens compartilhariam o mesmo espaço. Adolescentes gostam de conviver no ambiente dos que consideram uma meta a se atingir e os jovens, especialmente os imaturos, sempre gostam de servir de modelo para alguém, contando experiências ou inventando situações que demonstrem ou comprovem sua superioridade. Para eles, ambiente com música, dezenas de filmes, de revistas de moda, de fofoca e de interesses específicos como viagens, depoimentos de vitoriosos que enriqueceram da noite para o dia desenvolvendo jogos de informática, de maneira de melhorar a atividade sexual ou de conquistar com mais eficácia, mais economia e mais rapidez. Uma mesa de jogos de salão poderia ser instalada justamente no meio do prédio de modo que, numa folheada entre um Moacyr Scliar e um Marquês de Sade, possam aproveitar o tempo acertando a bola no gol adversário, manipulando cansativamente os homenzinhos quase imóveis, divididos em dois grupos de cores opostas.

Os universitários formam grupo especial entre os jovens. Uma biblioteca se constituiria para facilitar a vida desse agrupamento de estudantes que se consideram superiores. Para eles, seguindo a sugestão de um discente de matemática que confessou a fuga da biblioteca por não encontrar nada de interessante lá, as atendentes precisariam trajar-se inspiradoramente: espartilhos e chicotes. Poucos se importariam no sofrimento corporal e, uma conclusão é pacífica, seriam apontados nas ruas como estudiosos, leitores ou pesquisadores pelas marcas expostas.

Os adultos – formados ou em formação – procurassem sugestões de acordo com seus interesses pragmáticos, entretanto os integrantes da melhor idade mereceriam ambiente peculiar. Pensei muito nas opções de cadeiras de balanço, de recantos silenciosos regados a músicas clássicas, especialmente aquelas vinculadas à venda de botijões de gás, de ambientes angelicais. Um senhor – senhor? Claro que não! Um espirituoso, ele me corrigiria – de oitenta e três anos perguntou-me se gostaria de criar ambiente aprazível ou cemitério. Boquiaberto, arregalei os olhos sem dizer palavra.

Segundo esse leitor, a idéia perfeita de biblioteca para a melhor idade consistiria num amplo espaço de baile, churrascos, músicas dançantes, dezenas de espécies de bebidas – das mais fracas a que derrubariam o degustador com apenas um dedo do líquido fatal – oportunidades fáceis de quatro horas diárias de trabalho para os interessados e, sem dúvida, viagens mensais aos lugares mais desejados. Leriam Neruda para embarcar a Santiago; Borges, Arlt e Cortázar, Buenos Aires; Carlos Fuentes, México; José Lins do Rego, Rinaldo de Fernandes ou José Américo de Almeida, Paraíba; Caio Fernando Abreu, João Gilberto Noll ou Valesca de Assis, Rio Grande do Sul; Jorge Amado ou Castro Alves, Bahia. Deonísio da Silva ou Edla Van Steen, Santa Catarina. Precisaria enumerar os escritores que nasceram ou se fixaram no Rio de Janeiro?

Leitores iniciantes, profissionais ou em potencial? Temos aos milhões. Precisamos nos dedicar a montar bibliotecas para acomodá-los.


*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 4 de novembro de 2011.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Mulheres Sonharam Cavalos

crédito: Dalton Valério

Premiado texto do dramaturgo argentino estreia, pela primeira vez, no Rio de Janeiro

Estreia, no dia 04 de novembro, no Teatro Poeirinha, “Mulheres Sonharam Cavalos”, premiado texto do dramaturgo argentino Daniel Veronese, montado pela primeira vez no Rio de Janeiro.

Com direção de Ivan Sugahara e tradução de Letícia Isnard, o espetáculo apresenta a história de três irmãos e suas esposas e os ressentimentos, desconfianças, segredos e desejos reprimidos presentes em torno dessa família.

No elenco, Analu Prestes, Elisa Pinheiro, Isaac Bernat, José Karini, Letícia Isnard e Saulo Rodrigues.“A peça de Daniel Veronese impressiona pela força que ele consegue extrair de uma situação dramática simples”, afirma Ivan Sugahara. Sobre o espetáculo: “Colocar o público em contato consigo mesmo, procurar levá-lo a se chocar com a sua condição, mas também a rir dela e buscar, conosco, a simbologia do cavalo, não como poder, repressão e embrutecimento, mas como liberdade e afetividade” (Ivan Sugahara)

Seis personagens atuam em um pequeno ambiente - a sala de um apartamento – deixando entrever um recorte de suas vidas, onde surgem mais fios soltos do que explicações e respostas. As peças deste tabuleiro, no qual todos se converterão em perdedores, são três mulheres casadas com três irmãos. O que desencadeia o conflito é o encerramento de um negócio familiar, a cargo de um dos irmãos. Com a intenção de transmitir esse fato ao resto da família, um almoço foi marcado. Como resultado, revelações devastadoras acabam desestruturando completamente a família, chegando-se a um inesperado final.  Em um primeiro momento, de modo ainda civilizado, com os personagens tentando manter um ambiente minimamente sociável. Mas aos poucos ressentimentos, histórias mal contadas, desconfianças, segredos obscuros, desejos reprimidos começam a vir à tona. Com o acúmulo, as discussões vão tomando grandes proporções e arruínam qualquer possibilidade de se ter uma convivência familiar saudável. O projeto é da atriz Letícia Isnard, também responsável também pela tradução do texto.   “A peça fala sobre nosso recente processo histórico, como as ditaduras militares do cone sul, através de um texto que não é datado, e sobre o legado que foi deixado para as gerações seguintes. Ao falar desses temas, a montagem desta peça – que estende minha parceria com Ivan Sugahara para além do nosso trabalho na cia. Os dezequilibrados – concretiza um sonho antigo de juntar ao meu trabalho de atriz, minha prática acadêmica”, afirma a atriz. Encantada com a quantidade e qualidade dos textos produzidos pelos autores argentinos, Letícia acabou se envolvendo como tradutora, produtora e atriz de três peças contemporâneas. Além de ‘Mulheres Sonharam Cavalos’, montou dois textos de Rafael Spregelburd: ‘A Estupidez’, que encenou este ano com a cia. Os dezequilibrados e pelo qual está indicada ao Prêmio Shell de Melhor Atriz; e ‘A Modéstia’, traduzida por ela, Isabel Cavalcanti e Pedro Brício, que vai dirigir a montagem, com estréia prevista para março de 2012. “Essas montagens visam estreitar o diálogo intercultural com o teatro argentino. Se a circulação de textos de autores latino-americanos se dá de forma precária nos países de língua espanhola, a barreira do idioma agrava ainda mais o isolamento e a falta de intercâmbio cultural entre o Brasil e seus vizinhos. Portanto, acredito ser preciso incentivar e estimular a interlocução entre as produções desses países, viabilizando o diálogo e a reflexão do que nos diferencia e também das questões que temos em comum”, explica Letícia Isnard.

Serviço:
Estreia para convidados: dia 04 de novembro
Estreia para público: dia 05 de novembro
Local: Teatro Poeirinha (Rua São João Batista, 108 - Botafogo)
Bilheteria: (21) 2537-8053. De 3ª a sábado das 15h às 21h e domingo das 15h às 20h30
Horários: Sexta e sábado, às 21h30 e domingo, às 20h
Ingressos: R$ 20,00
Classificação: 14 anos
Duração: 90 minutos
Capacidade: 60 lugares
Gênero: Drama
Temporada: 05 de novembro a 18 de dezembro



Considerado a grande esperança em tratamentos psiquiátricos, por permitir a conexão mais profunda com o paciente, o DC Mini é um sistema que permite a gravação e a intervenção em sonhos. Em mãos erradas, no entanto, o aparelho pode não apenas misturar sonhos de pessoas diferentes, mas também sonho e realidade, tornando a vítima incapaz de distinguir um do outro. Quando uma série de suicídios aparentemente provocados por alucinações começam a ocorrer, tem início a pior das previsões: o DC Mini foi roubado e seu poder escapou do controle dos próprios ladrões, pondo toda a realidade em perigo.

Animação japonesa alucinada, delirante e provocadora, dirigida por Satoshi Kon, PAPRIKA toca no mesmo tema (e de forma muito mais interessante) do recente A Origem.

Escrevi sobre ele aqui:

http://pt.shvoong.com/entertainment/movies/2224095-paprika/

Link para o trailer no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=-ZKXXNCkrf4&feature=related

Maurício Limeira