segunda-feira, 4 de junho de 2012

As músicas da Legião Urbana são amigas

Flávio Sanso
www.reticencia.com
@Flavio_Sanso

As músicas da Legião Urbana são amigas.

Quem usou essa definição foi o próprio Renato Russo ao explicar por que tantos jovens se sentiam apaixonadamente atraídos pelas composições da banda que se tornou símbolo de idolatria no cenário do pop rock nacional.

E isso pode ser medido pelo fato de que, mesmo depois de tanto tempo, os jovens da geração dos anos 80, e até mesmo muitos jovens de gerações posteriores, são capazes de retirar das gavetas da mente os clássicos da Legião Urbana, cantarolando de cor as letras que ficaram gravadas na memória, como se o tempo não houvesse passado. Aliás, basta que ressoe o som daquela guitarrinha peculiar da introdução de Tempo Perdido, para sermos inconscientemente compelidos a começar a cantar "todos os dias quando acordo..."

O fato de que as letras dessas músicas continuem desafiando o esquecimento tem exatamente a ver com a profundidade sentimental que só artistas geniais são capazes de expressar. Quem por acaso analisar cada frase da música "Teatro dos Vampiros" saberá do que estou falando. E aí está o que Renato Russo quis dizer. As músicas da Legião Urbana criaram uma relação de identificação com a juventude, porque expressavam perfeitamente a complexidade de se lidar com os sentimentos nessa fase da vida. Elas entendiam os jovens. Elas eram o consolo para quem quer tentar entender o mundo e a si próprio. Daí poder dizer que os jovens não nutriam o simples sentimento de gostar das letras e melodias da Legião Urbana. Eles sentiam paixão por tudo que essas músicas representavam e por tudo que as envolvia.

A força dessa paixão despertou e se manifestou nesta semana.

Vágner Moura, que agora parece ter desencarnado de vez o figurino da farda preta, foi alvo de muitas críticas e desaforos por causa da sua iniciativa de fazer um show com músicas da Legião Urbana. Qualquer análise racional enxergou a iniciativa como uma justa e bem intencionada homenagem, que trazia consigo todos os naturais desdobramentos comerciais. Mas a paixão na maioria das vezes atropela a racionalidade, e munidos pelo ciúme inerente a essa paixão, inúmeros fãs da Legião Urbana visualizaram uma tentativa de substituir Renato Russo, e, pior, de apropriação da interpretação das músicas que se tornaram patrimônio juvenil, sobretudo também porque estavam no palco Bonfá e Vilalobos, remanecentes da banda. Vágner Moura também é fã, conhece o lado passional da idolatria e certamente saberá relevar as críticas que recebeu. Se a mesma iniciativa fosse liderada por Dinho do Capital ou por Herbert Viana, cantores contemporâneos à Legião Urbana, as reclamações viriam do mesmo modo, pelo simples fato de que, para a visão apaixonada dos fãs, será sempre estranho ouvir as músicas da Legião Urbana por outra voz que não seja a de Renato Russo. O terreno da idolatria é um campo minado, pelo qual não se atravessa ileso. Já do ponto de vista racional, o evento merece elogios, pois é bem vinda qualquer homenagem à obra de um dos principais artistas deste país.

Certa vez alguém disse que não ouvia as músicas da Legião Urbana porque elas eram tristes. Mas creio que triste é a geração de jovens que não tem as letras da Legião Urbanas para lhe fazerem companhia.



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