por Vicentônio Silva
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Uma
de minhas alunas convidou-me a almoçar num domingo. Cheguei à chácara antes do
meio-dia e conversei com o pai, a mãe, o tio, a avó, o irmão, o namorado, a
cunhada, um sobrinho e alguns amigos quando a mãe, curiosa por saber mais da
disciplina que lecionava, perguntou-me o nome dela.
-
Epistemologia, respondi pausadamente.
-
Psicologia? Perguntou-me a avó.
-
Não, interveio o irmão, ou antropologia, ou sociologia.
-
Também não, retrucou um dos amigos. Acho que ele disse filosofia.
Entre
idas e vindas, esclareci que Epistemologia consistia numa matéria ampla que
discute a construção do conhecimento. Se falamos de aviões, de economia, de
jogos de vôlei, de turismo, de roupa ou de comida, de remédios ou de belezas
arquitetônicas precisamos construir e consolidar o conhecimento. A construção e
a consolidação do conhecimento nos impedem de dar voltas sobre determinado
assunto de maneira que, uma vez descoberta a receita de filé de frango
empanado, outro cozinheiro não precisará quebrar a cabeça para inventá-la.
Construído
o conhecimento da receita de filé de frango empanado, os próximos a
consolidarão e inventarão pratos a partir dos conhecimentos já existentes. Essa
construção do conhecimento – organizado, testado, discutido e aprovado ou
reprovado – é importante na descoberta de curas. Os remédios que controlam ou
minimizam os efeitos do câncer ou da Aids são resultados da construção do
conhecimento através de décadas. Se alguém vive atualmente muitos anos depois
da constatação das doenças, estudiosos ou cientistas, décadas atrás,
contribuíram para que estudiosos e cientistas de hoje avançassem em suas
pesquisas.
Observei
que minha explicação mais se aproximava de discurso pedagógico de que de
conversa de almoço no fim de semana. Alguém começou a falar de futebol, um
segundo ligou a televisão para ouvir os comentários esportivos, um terceiro
perguntou dos cavalos. Senti um cheiro forte vindo da cozinha: peixe. Nada
tenho contra peixe, mas o esforço de retirar o mínimo de carne das espinhas em
longo tempo me faz perder a fome. Sempre evito comê-lo. Quando almoço ou janto
na condição de convidado, salgadinho e Coca-Cola antecipam imprevistos como
aqueles. Saindo meio apressado de casa, esqueci-me do detalhe.
Enquanto
os homens concentravam-se na sala em busca de respostas satisfatórias do
desempenho de seus times ao fim do campeonato estadual, as mulheres fecharam-se
na cozinha procurando acertar no encantamento gastronômico. De repente, a avó
sentou-se ao meu lado indagando um pouco mais sobre Epistemologia.
-
Fazemos alguma coisa. Aqueles que vêm depois não precisam fazer. Aprendem com
nossa experiência?
Respondi
positivamente. Quais experiências transmitira aos filhos e aos netos? Quais
experiências assimilara dos pais e dos amigos? Quais experiências admirara e
rechaçara?
-
Experiência da fome, respondeu-me tranquilamente.
Quando
ela e o esposo chegaram àquelas terras, tomaram empréstimos em bancos,
plantaram, ora colhendo abundantemente, ora perdendo sucessivamente o dinheiro
investido em dezenas de alqueires que, no fim das contas, reduziram-se a seis
ou sete. Viviam de doação de vizinhos e da igreja até que, depois de muito
tempo, alguém deu a idéia de criarem peixes. O marido recusou a sugestão. Como
criar peixe num fim de mundo seco? A explicação: tanques. Peixes criados em
tanque com compradores certos. Depois de doze anos, construíram casa melhor –
aconchegante, mas longe de ser confortável – e criaram filhos e netos
conscientes de que se tinham boa vida – pelo menos não passam nem fome, nem
sede, nem necessidades básicas como roupa, remédios e cobertores durante o frio
– deveriam agradecer aos peixes.
Minha
aluna colocou quatro travessas sobre a mesa, legumes e verduras, arroz com
ervilha, ovo e milho, suco de acerola e de laranja. Diante de minha paciência,
retirando lentamente as carnes da espinha, questionou-me:
-
Não sabia que gostava tanto de peixe, professor.
-
Nem eu, disse, piscando para a avó dela. Nem eu.
*Publicado
originalmente na coluna Ficções,
Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 25 de maio de 2012.