quarta-feira, 30 de maio de 2012

John Mowat ministra curso "Teatro e Atuação" em São Paulo

Os cursos práticos de John Mowat são desenvolvidos para estudar e explorar TEATRO e ATUAÇÃO com foco nos aspectos físicos e visuais do ator e da cena. Oferecem também a oportunidade de olhar para variadas formas de criação, interpretação e adaptação do trabalho teatral.

Com jogos, exercícios e improvisações estimula a criatividade, partindo da análise do movimento para adescoberta do corpo, do espaço que ele ocupa, dos objetos que utiliza, dos sons que produz.

No início do trabalho, afasta-se da linguagem verbal para se concentrar na construção da intenção física e visual, estuda técnicas da mímica moderna, perpassando pela máscara neutra e pelas máscaras da comédia "dell'arte" que servem como ponto de partida para a exploração das personagens criadas para, em seguida, introduzir lentamente a linguagem verbal para integrar o visual com o texto.



"O meu ensino é baseado na criação de um ambiente onde se pode "estatelar no chão" e de seguida levantar-se e rir-se de si próprio. Um lugar para brincar, explorar, experimentar, fazer descobertas e continuar em aventuras. Eu ofereço conhecimento através da experiência". John Mowat.

John Mowat nasceu e cresceu em Londres. Sua carreira no teatro começou em 1980, quando atuou em seu primeiro solo e em 1994 tornou-se co-fundador da OddBodies Theatre Company em Londres. Como ator e diretor,  viajou por maios de 40 países com seu estilo de comédia altamente visual.
    
Desde 1992 desenvolve uma intensa relação com a Companhia do Chapitô, com a qual concebeu e dirigiu inúmeras peças como Don Quixote, O Grande Criador, A Tempestade, Cão que morre não ladra.

Datas: 10 a 12 de agosto (sexta a domingo)
Horário: 10/08 (sexta) 18h30 às 22h30 - 11 e 12/08 (sábado e domingo) das 10h às 19h
Local: ESPAÇO (Rua Alves Guimarães,1374 - Próx ao metrô Sumaré)
Carga Horária: 20h
Valor: R$ 400,00*
Vagas:26
Para maiores informações e inscrição acesse o site www.periplo.com.br.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Peixe e epistemologia

por Vicentônio Silva
www.vicentonio.blogspot

Uma de minhas alunas convidou-me a almoçar num domingo. Cheguei à chácara antes do meio-dia e conversei com o pai, a mãe, o tio, a avó, o irmão, o namorado, a cunhada, um sobrinho e alguns amigos quando a mãe, curiosa por saber mais da disciplina que lecionava, perguntou-me o nome dela.

- Epistemologia, respondi pausadamente.

- Psicologia? Perguntou-me a avó.

- Não, interveio o irmão, ou antropologia, ou sociologia.

- Também não, retrucou um dos amigos. Acho que ele disse filosofia.

Entre idas e vindas, esclareci que Epistemologia consistia numa matéria ampla que discute a construção do conhecimento. Se falamos de aviões, de economia, de jogos de vôlei, de turismo, de roupa ou de comida, de remédios ou de belezas arquitetônicas precisamos construir e consolidar o conhecimento. A construção e a consolidação do conhecimento nos impedem de dar voltas sobre determinado assunto de maneira que, uma vez descoberta a receita de filé de frango empanado, outro cozinheiro não precisará quebrar a cabeça para inventá-la.

Construído o conhecimento da receita de filé de frango empanado, os próximos a consolidarão e inventarão pratos a partir dos conhecimentos já existentes. Essa construção do conhecimento – organizado, testado, discutido e aprovado ou reprovado – é importante na descoberta de curas. Os remédios que controlam ou minimizam os efeitos do câncer ou da Aids são resultados da construção do conhecimento através de décadas. Se alguém vive atualmente muitos anos depois da constatação das doenças, estudiosos ou cientistas, décadas atrás, contribuíram para que estudiosos e cientistas de hoje avançassem em suas pesquisas.

Observei que minha explicação mais se aproximava de discurso pedagógico de que de conversa de almoço no fim de semana. Alguém começou a falar de futebol, um segundo ligou a televisão para ouvir os comentários esportivos, um terceiro perguntou dos cavalos. Senti um cheiro forte vindo da cozinha: peixe. Nada tenho contra peixe, mas o esforço de retirar o mínimo de carne das espinhas em longo tempo me faz perder a fome. Sempre evito comê-lo. Quando almoço ou janto na condição de convidado, salgadinho e Coca-Cola antecipam imprevistos como aqueles. Saindo meio apressado de casa, esqueci-me do detalhe.

Enquanto os homens concentravam-se na sala em busca de respostas satisfatórias do desempenho de seus times ao fim do campeonato estadual, as mulheres fecharam-se na cozinha procurando acertar no encantamento gastronômico. De repente, a avó sentou-se ao meu lado indagando um pouco mais sobre Epistemologia.

- Fazemos alguma coisa. Aqueles que vêm depois não precisam fazer. Aprendem com nossa experiência?

Respondi positivamente. Quais experiências transmitira aos filhos e aos netos? Quais experiências assimilara dos pais e dos amigos? Quais experiências admirara e rechaçara?

- Experiência da fome, respondeu-me tranquilamente.

Quando ela e o esposo chegaram àquelas terras, tomaram empréstimos em bancos, plantaram, ora colhendo abundantemente, ora perdendo sucessivamente o dinheiro investido em dezenas de alqueires que, no fim das contas, reduziram-se a seis ou sete. Viviam de doação de vizinhos e da igreja até que, depois de muito tempo, alguém deu a idéia de criarem peixes. O marido recusou a sugestão. Como criar peixe num fim de mundo seco? A explicação: tanques. Peixes criados em tanque com compradores certos. Depois de doze anos, construíram casa melhor – aconchegante, mas longe de ser confortável – e criaram filhos e netos conscientes de que se tinham boa vida – pelo menos não passam nem fome, nem sede, nem necessidades básicas como roupa, remédios e cobertores durante o frio – deveriam agradecer aos peixes.

Minha aluna colocou quatro travessas sobre a mesa, legumes e verduras, arroz com ervilha, ovo e milho, suco de acerola e de laranja. Diante de minha paciência, retirando lentamente as carnes da espinha, questionou-me:

- Não sabia que gostava tanto de peixe, professor.

- Nem eu, disse, piscando para a avó dela. Nem eu.





*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 25 de maio de 2012.

As leituras imperdíveis de Ronaldo Correia de Brito

O escritor e dramaturgo Ronaldo Correia de Brito é o convidado deste mês do encontro “Leituras imperdíveis”, realizado  na Biblioteca Popular de Botafogo. No dia 28 de maio, segunda-feira, o autor fará a leitura de trechos dos livros “Retratos Imorais” e “Crônicas para ler na escola”. Depois tem bate-papo com o público. Ronaldo Correia de Brito é autor, também, do aclamado livro “Galileia”.
    
O encontro acontece às 19h e faz parte do projeto "Estação Pensamento e Arte", de ocupação cultural da Biblioteca de Botafogo. Rua Farani, 53. 3235 – 3799. Grátis.

Ronaldo Correia

terça-feira, 22 de maio de 2012

Asquerosas caixas de papelão

por Rafael Castellar das Neves

Esta semana, meu amigo Tony me enviou a reportagem “Projeto pede fim da distribuição de caixas de papelão em supermercados de São Paulo”, publicada pelo UOL. Trata-se de um projeto que está tramitando na Câmara Municipal de São Paulo e que objetiva a proibição, sim, a proibição, do fornecimento de caixas de papelão, pelos supermercados, para acomodação dos produtos de seus consumidores.

Bom, achei que a fantástica proibição das “Abomináveis Sacolinhas de Plástico” seria suficiente, mas a minha ingenuidade não me permite enxergar, antecipadamente, que nunca há limites! Agora a desculpa, lógico que esfarrapada, é que as caixas de papelão, então principais substitutas das sacolinhas plásticas, possuem maior quantidade de bactérias, fungos e outros micro-organismos do que as saudosas antecessoras.

Bonita esta preocupação do legislativo para com a saúde e o bem-estar dos nossos concidadãos, não acham? Só que a minha ingenuidade sim tem limites. A verdade é que se instaura mais uma baboseira que convence a população de estarem fazendo uma boa ação sob a fachada de melhorias para o meio-ambiente e bem-estar público cumprindo seu dever de cidadão, enquanto, nos bastidores, são discutidas e distribuídas as conveniências próprias daqueles ilustres senhores que só fazem encher os próprios bolsos acima de qualquer coisa e qualquer um.

Ainda deixa claro que o “Procon-SP informou que o Código de Defesa do Consumidor não obriga a entrega de nenhuma alternativa sem custo para o consumidor levar suas compras”. Bom, se agora vamos nos basear única a exclusivamente na lei, estamos na roça, para não dizer outra coisa. Esta não é a mesma lei que permite ainda, com jeitinho, a cobrança dos valores das sacolinhas plásticas e que também permitirá a das caixas de papelão nos valores dos produtos por parte dos supermercados? A relação cliente-fornecedor que conhecíamos está cada vez mais perdida e baseada, por lei, única e exclusivamente na troca seca entre as partes com o benefício maior de uma sobre a outra. Havemos de lembrar também das maravilhas surreais de propostas de leis que nossos tão queridos e instruídos legisladores oferecem como fruto de uma recreativa e vazia masturbação cerebral (acho que agora achei o real foco de micro-organismos).

Acho que já deu e já podemos acordar para as verdades em torno destas papagaiadas e agirmos de verdade para ajudar nosso meio ambiente e nosso bem-estar comum. São várias as alternativas, várias as recomendações e pequenas as ações que fazem completamente a diferença.

Pobre do meu irmão infectado que tanto puxei brincando dentro destas caixas de papelão na sala de casa...

Um viva às prósperas indústrias de sacolas “ecológicas”!

Dois vivas ao nosso brilhante legislativo que tanto nos acode!


São Paulo, 27 de abril de 2012.

Rafael Castellar das Neves é autor do blog Desce Mais Uma!

domingo, 20 de maio de 2012

Apressado

por Vicentônio Silva
www.vicentonio.blogspot.com

O perito participara de audiência pública em Rancharia, entregara laudos em Paraguaçu Paulista, demorara-se quase duas horas em Assis e rumava a Londrina, segunda maior cidade do Paraná e quarta mais populosa da região Sul, quando, sem controlar os pedidos insistentes do estômago, avistou a placa indicativa de três quilômetros de distância de Florínea. O início do perímetro urbano apresentava transformações arquitetônicas: um centro de convivência do idoso e um prédio de recreação talhados em estilo arrojado e completamente espelhados.
Metros adiante, a inovação de calçadões intercalados com ruas pela metade despertou a curiosidade imediatamente sufocada por uma padaria de ares modernosos que, na ausência de restaurantes, churrascarias ou lanchonetes apresentáveis, assumia o papel de fornecedor oficial de comida. Vislumbrou opções de salgadinhos, doces, lanches, produtos industrializados e caseiros, escolheu um enroladinho de salsicha, um pastel de carne, um de frango e um de queijo, uma fatia de pizza, duas coxinhas, pedaço considerável de pudim e cinco brigadeiros aos quais alcançou uma Coca-Cola de seiscentos mililitros.
Engoliu a comida com a rapidez indispensável – precisava chegar ao centro comercial de Londrina em menos de uma hora – e direcionou-se ao caixa. A fila pequena – apenas três senhoras o antecediam – inspirou tranqüilidade. Os bons motivos de viver numa cidade pequena: os compromissos resolviam-se eficientemente. Buscou, ao fundo da padaria, dois pacotes de bolachas recheadas, um de suco de laranja e um de batatas fritas. As três mulheres continuavam imóveis. O relógio diagnosticava quatro minutos. Preocupado com o tempo, percebeu que o caixa – um homem de barba preta e cabelos cinematográficos – conversava com a cliente, respondendo sobre o período adequado de remédios de reumatismo.
A mulher do reumatismo saiu, a segunda cliente aproximou-se e, agora, depois de solicitar a soma dos produtos – cinco pães, uma caixa de leite e cem gramas de queijo – discorria sobre os vestidos de duas adolescentes que entraram no meio da missa de domingo, roubando a cena do padre, destoando olhares femininos e pensamentos masculinos. O homem assentiu, contou as moedas, perguntou se não gostaria de deixar pago o frango – a padaria também vendia frangos aos domingos – e satisfez-se com a negativa: receberia parentes no fim de semana e ela mesma providenciaria a refeição. Talvez a segunda mulher finalmente concluísse sua operação, entretanto, por ordem e desígnio da consciência incontrolável, detalhou as operações da coleta de mantimentos para cestas básicas distribuídas aos pobres. Aproveitou para falar de seu desapego das coisas materiais, de sua devoção aos santos e anjos, de seu compromisso inabalável do dízimo mensal – atrasava de vez em quando, é verdade – do comprometimento com as crianças da escola...
O perito consultara o relógio inúmeras vezes e, angustiado com a demora, pensou em pedir licença à terceira cliente e adiantar-se na fila, mas sua decisão encerrou-se ao convencer-se de que, finalmente, a segunda mulher pegava seu embrulho, conferia o troco e saía pela porta lateral parando, assim desceu o degrau, o primeiro transeunte. O que ele achava da reforma da casa da professora?
Quase dezesseis minutos transcorreram desde que entrara na fila de três pessoas. A terceira cliente pagava um refrigerante comprado fiado na véspera e, ao mesmo tempo, falava pausadamente a respeito dos problemas dos netos nas lições de matemática, obviamente culpando o professor da matéria que vinha de Sertanópolis numa moto empoeirada...
Deduzindo que a conversa alongar-se-ia ao máximo, calculou o valor total do consumo e dos produtos de mão, consultou novamente o relógio e jogou trinta reais sobre o balcão. Jogou os produtos no banco do carona, colocou o cinto, ligou o rádio, entrou na rua paralela e já alcançava a rotatória de acesso à rodovia quando a polícia, acendendo a luz vermelha giratória e o som característico de averiguação, mandou parar no acostamento.
O policial indagou de onde vinha, para onde ia, se entrara em algum estabelecimento comercial e, declarando o consumo na padaria, obteve resposta negativa ao pedido de liberação. Dez, dezessete, vinte e três minutos. Já perdera o compromisso e mentalizava o prejuízo. Trinta e dois minutos depois, o homem da padaria, guiando uma bicicleta, encostou:
- O senhor é muito apressado, moço. O dinheiro que deu estava errado.
O perito procurava uma nota de vinte reais na carteira quando o padeiro completou:
- Aqui está seu troco.
Quarenta e cinco centavos.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 18 de maio de 2012.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Totalmente Kubrick



Até pode parecer mentira.
Mas na década de 1990, em Londres, um sujeito chamado Alan Conway enganou boa parte da classe artística londrina, pequenos empresários e até jornalistas se fazendo passar pelo cineasta Stanley Kubrick.

De bebidas grátis, lugares privilegiados em restaurantes até uma viagem a Las Vegas, Conway fez a vida se aproveitando do culto à celebridade.
Esta bizarra situação virou um filme. TOTALMENTE KUBRICK foi dirigido por Brian W. Cook e protagonizado por John Malkovich. Escrevi sobre ele aqui:


http://pt.shvoong.com/entertainment/movies/2290156-totalmente-kubrick/



Maurício Limeira

http://pt.shvoong.com/writers/mauriciolimeira/
http://filmantes.blogspot.com
http://oadversario.blogspot.com

domingo, 13 de maio de 2012

Remendando a Bahia

A Outra Companhia circula pelo interior do estado em projeto que une arte e educação

Cores, música e as manifestações populares revisitadas: esses são os ingredientes do espetáculo infanto-juvenil Remendo Remendó, que será apresentado com entrada franca no dia 15 de maio, às 10 e às 15 horas, no Centro Culturalde Pojuca.

O espetáculo narra a história de uma pequena cidade do interior em que o prefeito resolve realizar um concurso de contadores de histórias.

Para tal feito, ele reúne as maiores mentes da região: seus filhos, a espevitada Porcia e o intelectual Corisco, o cego Firmino e o sábio Alexandre, todos contando seus melhores “causos” e histórias tentando ganhar a platéia e o prêmio.

Tudo isso costurado com muita música e ritmos nordestinos, como: frevo, maracatu, samba de roda, seresta, forró, e resgatando o bumba-meu-boi, burrinha, reizado -- manifestações da cultura popular que renderam à montagem indicações em duas categorias no Prêmio Braskem de Teatro 2011 (Revelação e Melhor Espetáculo Infantojuvenil).

Nona montagem d’A Outra Companhiade Teatro (Salvador – BA), a peça já passou por quatro Estados (Paraná, Piauí, Rio Grande do Sul e Espírito Santo) e chega a Pojuca através do projeto Remendando a Bahia, contemplado na Demanda Espontânea do Fundo de Cultura do Estado da Bahia, que além do espetáculo traz à cidade três oficinas (teatro, música e pintura/colagem) voltadas para estudantes e um workshop de arte-educação destinado a professores da rede pública de ensino.

Todas as atividades são gratuitas.

Remendo Remendó por Sidney Rocharte


SERVIÇO:

O que: EspetáculoRemendo Remendó, com A OutraCompanhia de Teatro (BA)
Onde: Centrode Cultura de Pojuca
Quando: 15 de maio, às 10 e às 15 horas
Quanto: Entrada franca
Informações:aoutra@gmail.com / (71) 8811-4081 Roquildes Junior

O que: Oficinasde teatro, musica e pintura/colagem com A Outra Companhia de Teatro (BA)
Onde: EscolaMunicipal Norma Guimarães Rêgo
Quando: 14 de maio, das 09 às 12 horas
Quanto: Gratuito
Informações:aoutra@gmail.com / (71) 8811-4081 Roquildes Junior

O que: Workshopde arte-educação com A Outra Companhia de Teatro (BA)
Onde: Escola Municipal Norma Guimarães Rêgo
Quando: 14 e 15 de maio, das 19 às 22 horas
Quanto: Gratuito
Informações:aoutra@gmail.com / (71) 8811-4081 Roquildes Junior

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Dupla personalidade

Por Vicentônio Silva
www.vicentonio.blogspot.com


O rapaz de cabelos empastelados percebeu largo sorriso vindo do outro lado da pista improvisada de dança. Bebeu dois ou três copos de mistura de gengibre, tomou fôlego, evidenciou a fivela de boiadeiro do tamanho de um prato, ajustou o chapéu, colocou o relógio de prata, expôs os grossos e chamativos cordões de ouro:

- A moça me daria o prazer da dança?

Dançaram boa parte da noite, tomaram refrigerante. Ele comeu duas porções de batatas fritas – tão transparentes quanto folhas de papel manteiga. Ela preferiu pamonha e dois milhos cozidos cujos caroços insistiam em se prender aos dentes. Atenciosa, cabelos pretos e lisos escorriam até os ombros e, à intensidade do vento, balançavam poeticamente, criando clima romântico.

Encontraram-se no segundo dia de festividades, voltaram a dançar, a conversar, a trocar telefones e endereços eletrônicos e, três semanas depois, entravam no cinema para assistir ao filme agraciado com prêmios de festivais nacionais. Os amigos dele já se acostumavam com o ar delicado, diplomático e elegante da moça que falava o essencial, distanciava-se de polêmicas e esquivava-se de conversas desinteressantes. Os pais, o irmão e o primo também se familiarizavam com o rapaz, primeiro a se servir da macarronada de domingo e voluntário na organização da cozinha após a refeição.

O relacionamento deslanchava ao ponto de, no sétimo mês, rendido aos encantos, pronunciar-se formalmente numa festa de fim de semana. A mãe se emocionou, o pai discursou, o irmão animou a bagunça. Uma prima aproveitou: - Tens certeza de que vais te casar com ela? O noivo espantou-se, mas, antes de qualquer palavra: - Podes escrever: vais aprender o que é bom para tosse...

Enquanto trabalhava e juntava dinheiro das festividades e da entrada substancial num apartamento popular, as palavras da prima ressoavam. Por que aprenderia o que era bom para tosse? Tentou captar deslizes do sogro, atrevimentos da sogra, atividades discutíveis do futuro cunhado e até o primo, que morava com a família, entrou na investigação.

A noiva desdobrava-se em carinhos e nos pratos preferidos, optava pelas decorações mais baratas, sonhava com uma viagem a Bonito, no Mato Grosso do Sul, caminhava no fim de tarde e, ao chegar em casa, trancava-se no quarto por quase uma hora praticando exercícios que enrijeciam o bumbum e proporcionavam firmeza aos seios. Silhueta e medidas perfeitas para o casamento.

Pouco mais de dois meses para a cerimônia quando, numa lanchonete de que eram fregueses, jogou-se de unhas e dentes sobre a garçonete que, por equívoco, trouxera mostarda no lugar de maionese. Uma hora depois, agia como se o incidente protagonizado por ela na frente de clientes perplexos e crianças extasiadas fosse algo comum.

Uma vez o irmão esqueceu-se de levá-la ao dentista e, em retribuição, destroçou o quarto e jogou as roupas dele numa imensa fogueira. O pai disse qualquer besteira e a coleção de vinhos – os mais raros, cento e doze anos – amanheceu esfacelada. O carteiro sugerira a ida ao correio a fim de procurar a conta do cartão de crédito e uma barra de ferro atingiu-lhe as costas. O entregador de pizza atrasara dez minutos e misteriosamente caiu da moto quando chegava à esquina. Um professor atribuíra-lhe nota menor do que nove e o carro anoiteceu riscado, vidros quebrados, pneus rasgados.

Adotava um comportamento na frente das pessoas, mas bastavam virar as costas para que colocasse os planos em ação. Mesmo advertido pelos amigos da tempestade em que viveria, o noivo convencera-se de que ela mudaria definitivamente. Faltava mais ou menos uma semana para o enlace quando, chegando à casa dela, percebeu o fraque embrulhado, estendido sobre a mesa.

- Vieram deixar à tarde, disse, orgulhosa. Vamos ver como ficou.

O noivo abriu, contudo percebeu o olhar fulminante:

- Pensei que tivesse recomendado a você uma gravata de nó Windsor e, pelo que vejo, desobedeceu-me. Escolheu um nó simples.

Sem nada acrescentar, ela entrou na cozinha, mexeu em alguns talheres. Quando voltou à sala, ele tinha desaparecido.


*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 11 de maio de 2012

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Os vingadores


Homem-de-Ferro, Capitão América, Thor e o Incrível Hulk. Reunir num único filme personagens tão poderosos, carismáticos e autossuficientes parecia uma tarefa arriscada, com o resultado correndo o risco de ser apenas mais um festival previsível e cansativo de ação ininterrupta, muitas explosões e vontade - no espectador - de dormir.

Pois o diretor Joss Whedon topou a parada, e convocou Robert Downey Jr., Chris Evans, Chris Hemsworth e Mark Ruffalo para (re)viverem os heróis. De quebra, ainda trouxe Scarlet Johansson e Jeremy Renner.

Fui conferir OS VINGADORES, e minha opinião está no link abaixo:

http://pt.shvoong.com/entertainment/movies/2288501-os-vingadores/


Maurício Limeira

http://pt.shvoong.com/writers/mauriciolimeira/
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sábado, 5 de maio de 2012

As aventuras de Júlia

Por Vicentônio Silva
www.vicentonio.blogspot.com.br

Uma menina que mora com os pais, estuda regularmente, desempenha suas atividades rotineiras, exterioriza os problemas da impaciência e instabilidade de temperamento, implica com o irmão mais novo e seu camundongo Rabico, diverte-se com as amigas, possui bom relacionamento com os vizinhos e admiração das crianças para as quais, segundo nos conta o narrador, criou inconscientemente a imagem de alguém que cura as enfermidades ou patologias infantis, adora seu gato Inácio...

Se transportada à vida cotidiana real, Júlia conviveria sem desconfianças na escola, na igreja, no clube, nas ruas, na vizinhança, nas festas, nas disputas esportivas ou nos leves trabalhos rurais. O temperamento explosivo com o irmão e seu rato de estimação, o amor pelo gato encontrado entre a vida e a morte no trajeto da escola, a conversa com o pai, a convivência com a secretária residencial e a curiosidade são rotinas nas casas das famílias que, com problemas e felicidades, vivem nas grandes ou pequenas cidades. Até a visita a um sítio, a exploração do lugar, a história de que mulher idosa, que vivia no imóvel rural, ter morrido e sido enterrada na capela em estado de abandono, o encontro de um caderno velho ou as indicações de Inácio sobre acontecimentos dentro da casa também nada possuem de novidade.

O que prende o leitor ao enredo de “Júlia e a parada do pen drive dourado”, de autoria de Maria Otília Iamarino Farto Pereira, são os telefonemas ou mensagens anônimas descrevendo o que ela está fazendo, aonde está indo, com quem está falando, compromissos ou afazeres que deixou de praticar. Inicialmente Júlia deduz que as mensagens e telefonemas sejam brincadeiras de amigas, de engraçadinhos da escola ou de integrantes do Clube do Livro.

Os mistérios sucedem-se. Inicialmente Jorginho, o irmão de Júlia, descobre um pen drive que poderia ser da irmã, mas não é. Em seguida, Júlia, seu gato, o irmão, os pais e duas crianças visitam um sítio, adquirido posteriormente pela família. Na hora de voltar, ela, o irmão e as crianças procuram o gato por quase uma hora e, sem sucesso, abandonam o bicho que teria de esperar a segunda parte da busca dias depois. Antes de retornarem ao sítio, o gato aparece cansado e faminto, enrolado numa pedra que poderia ser um pingente, usado pela menina como acessório de roupa. Jorginho descobre um duende em busca do pen drive que, para aguçar a curiosidade do menino e instigá-lo a procurar o eletrônico, diz que o aparelho está cheio de jogos. Apesar da posse, Jorginho garante que não viu nada e o introduz ao computador na primeira oportunidade. Sem conseguir acessar as diversões, cobra satisfações do duende que explica que os jogos conduzem ao outro mundo. Insatisfeito, Jorginho procura o vizinho na esperança de que desarme códigos de bloqueio para finalmente acessar as informações.

 A descoberta do responsável pelos telefonemas e pelo envio de mensagens é um dos pontos mais interessantes. Júlia, visitando novamente o sítio com os pais, o irmão e o amigo do irmão, recebe mais uma mensagem e constata que o duende, o mesmo que conversara com Jorginho, aprontava as travessuras. Deixa transparecer – pela irritação e pelas perguntas implacáveis – que já o conhecia e quase avança sobre ele ao detectar um celular que, jogado ao alto, transforma-se em aviãozinho. A criaturinha então convida a menina para visitar seu reino e conhecer sua rainha.

Desde quando Júlia conhecia o duende? Jorginho e seu amigo conseguiram realmente acessar as informações do pen drive? O que o duende queria com os dois irmãos? Quais os segredos do pen drive? Para que servia o pingente que Júlia encontrou amarrado a Inácio?

Essas e outras respostas poderão aparecer ao leitor – criança, adolescente, jovem ou adulto – que se, talvez por uma passagem secreta, se jogue no mundo de aventuras e descubra as peripécias de “Júlia e a parada do pen drive dourado”, livro bem construído, articulado e inteligente com que Maria Otília Imarino Farto Pereira nos contempla.



JÚLIA E A PARADA DO PEN DRIVE DOURADO

Maria Otília Iamarino Farto Pereira – Arte & Ciência Editora – 180 p. – R$ 35,00



*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 4 de maio de 2012.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Os percursos de AnnaBella Geiger

A escultora e pintora AnnaBella Geiger será a atração do encontro “Percursos Artísticos”, que acontece na Biblioteca de Botafogo na próxima terça-feira (8 de maio). Uma das expoentes das artes plásticas no Brasil, AnnaBella tem encontro marcado com o público para uma conversa informal sobre sua trajetória artística. Ela vai falar sobre os métodos de trabalho e influências, além de tratar das técnicas personalizadas que marcam sua obra.

crédito Nina Geiger

Anna Bella Geiger também é desenhista, gravadora e professora. Atualmente, seu trabalho está em exposiçãona Galeria Artur Fidalgo, com a coletiva “Nem mais, nem menos”. O “Percursos Artísticos” acontece a partir das 19h30. Como todos os eventos do projeto Estação Pensamento e Arte, a entrada é gratuita. A Biblioteca de Botafogo ficana Rua Farani, 53.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Um dia nas corridas



Um veterinário que se faz passar por médico para seduzir uma senhora da alta sociedade e salvar uma casa de repouso, em associação com um dos funcionários e um jóquei mudo. Parece o resumo de um filme muito doido. E é mesmo.

Trata-se de UM DIA NAS CORRIDAS, clássico que os Irmãos Marx (Groucho, Chico e Harpo) realizaram, sob a direção de Sam Wood, em 1937. O filme contém momentos antológicos, e escrevi sobre ele aqui:


Maurício Limeira

http://oadversario.blogspot.com