sexta-feira, 29 de junho de 2012

A melhor estatueta de Eça

Por Humberto Pinho da Silva
humbertopinhosilva@sapo.pt



Quando entrevistei D. Emília Cabral, neta do autor dos Maias, fui recebido numa sombria salinha onde havia muitas fotos de família, livros empilhados e sobre mesa de roscas, em local de destaque, a estatueta de Gouveia, representando Eça de Queiroz.

A neta do escritor, reparando na minha curiosidade, declarou:

- Minha avó dizia: Se querem conhecer o avô, tal qual era, basta olhar a estatueta de Gouveia - e acrescentou: Conhece-a?!

- Perfeitamente, tenho um exemplar de gesso.

- Pois há poucas! - continuou D. Emília, - que eu saiba, existem quatro, (1) em Portugal: uma, é esta, outra a da minha mana, a Marquesa do Ficalho; há ainda a que se encontra na família da Duquesa de Palmela e a do Palácio de Belém, que pertencia a D. Carlos, julgo que se extraviou pelas caves, há muito…. (2)

A palestra prosseguiu enquanto mostrava velhas lembranças das famílias: Eça de Queiroz e Condes de Resende.

Por certo a maioria dos leitores nunca ouviu falar do escultor Francisco da Silva Gouveia, ilustre portuense, que os livros de arte registam, a Wikilusa menciona e o dicionário de Eça de Queiroz nomeia e dá-lhe merecido relevo.

Tentarei, por maior, esboçar brevíssima biografia do escultor que - segundo a esposa do romancista, Dona Emília de Castro Pamplona (Resende), - conseguiu a melhor representação plástica de Eça:

Nasceu no Porto a 12 de Agosto de 1872, na Rua dos Ingleses, filho de abastado comerciante da Rua de S. João, da mesma cidade.

O pai, João Maria de Gouveia Pereira, pretendia prepará-lo para administrar os negócios paternos, mas o rapaz inclinava-se para o desenho.

Certa vez o tio Caetano - irmão da mãe - vendo o pai repreender acerbamente a inclinação, acicatou-o a matriculá-lo na Escola de Belas Artes.

Concluídos os estudos na Academia Portuense, deslocou-se a Paris para prosseguir o ensino com reputados mestres da escultura europeia.

Em França foi discípulo de Rodin e Injalbert e recebeu aulas de Falguière, Pueche e Rolard, sendo admitido na Academia Julien e Calaron.

O jovem artista torna-se rapidamente conhecido em Paris, graças a tertúlias e às concorridas recepções que Eça de Queiroz organizava na embaixada.

Certa tarde do ano de 1890 estava Gouveia a trabalhar no atelier quando deslumbra, pela janela de guilhotina, graciosa menina, de tez clara e lhano meneios.

Abeirou-se da vidraça e verifica que a jovem trajava uniforme do Liceu Fenelon.

Era Claire Jeancourt, órfã, oriunda de Boult-aux-Bois. Gouveia ficou entusiasmado com a beleza, mas não se encorajou a declarar-lhe afeição.

Semanas mais tarde, conversando com amigos da precisão de aperfeiçoar o seu francês, pediu-lhes que indicassem professor. Qual não foi o assombro quando soube que a mestra era a menina por quem andava enamorado.

Meses depois casaram na Igreja de Notre Dame de Champs, apadrinhados pela Senhora Duquesa de Palmela.

Infortunadamente, em 1914, “Fran” - diminutivo carinhoso como a mulher o tratava, - adoeceu gravemente e regressa inopinadamente a Portugal.

Consultado o Dr. Manuel Correia de Barros, oftalmologista, avisaram-no que havia perigo de cegar.

Receoso, agasalha-se com a esposa no lar da Ordem do Carmo, no Porto, abandonando os tasselos e as matrizes de fundição.

 Nos anos quarenta era frequente vê-los passear pela baixa portuense. Ele, baixo, gordo, segurando guarda-chuva de paninho preto, quase sempre aberto; ela, muito branca, rosada nas faces, esquelética e de estatura elevada.

Gouveia iniciou em Portugal as exposições individuais - de inicio nos salões de casas fotográficas; - e foi agraciado pelo Rei D. Carlos, Cavaleiro de S. Tiago; reconhecimento pátrio do elevado valor artístico de sua obra.

Na Grande Exposição Universal de Paris do ano de 1900, obteve a medalha de prata e várias menções honrosas pelas obras expostas.

Ficou na memória dos que o conheceram a extrema dedicação da esposa. Conta-se que certa manhã de Primavera, Claire, já viúva, deixou tombar, por descuido, o retrato do marido. Curvou-se vertiginosamente e com os olhos azuis, azul miosóte, turvados de lágrimas, beijou-o com ternura e afectuosamente disse:

- “ Oh! Perdon, mon amour!

Das obras de Silva Gouveia destaca-se a célebre estatueta do escritor, considerada a melhor caricatura de Eça de Queiroz e talvez a estatueta mais notável de Portugal, segundo o parecer de reportados críticos de arte.

Exemplar da “Estatueta Célebre” - como foi conhecida na época, - foi adquirida pelo Rei D. Carlos. Até à data do regicídio permaneceu sobre a secretária do seu gabinete de trabalho.

Francisco da Silva Gouveia faleceu a 28 de Dezembro de 1951, no Porto, no Hospital dos Terceiros do Carmo.

Aqui tem, caro leitor, a breve biografia do artista que conseguiu prender, no bronze, a melhor representação do genial escritor.



(1) - Equivocou-se a neta do Eça. Deve haver dezenas, em colecções particulares, além das que foram adquiridas pela: Sociedade “Amigos da Arte” de Bordeux, Academia de Ciências de Lisboa, Museu de Arte Contemporânea, e a que se encontra em Tormes. No Rio de Janeiro, há também um exemplar, pertença de António do Nascimento Cottas. Existe, também, um excelente baixo relevo, de Gouveia, que em nada é inferior à estatueta. Esse sim, é raríssimo; assim como desenho a craião, que ilustra este artigo,do ano de 1927, feito pelo autor da "estatueta célebre".

(2) - A estatueta de bronze, que pertencia a Rei D. Carlos, foi adquirido, mais tarde, pelo Marquês de Ficalho , num antiquário lisbonense.








quarta-feira, 27 de junho de 2012

Encontro sobre poesia contemporânea e troca de livros

Com entrada gratuita e garantia de boa leitura, o "Livros na Mesa" é o evento mais buscado da Estação das Letras, desde sua estreia em 1996. Sempre no último sábado de cada mês, a Casa recebe um convidado para leitura e papo sobre um tema com troca de livros.

Neste sábado, dia 30, o encontro é com Luiz Turiba e a conversa sobre Poesia Contemporânea, a partir de 15h30, na Rua Marquês de Abrantes, 177, Flamengo, Rio.

Outras informações pelo telefone (21) 3237-3947.

Para chorar de alegria!

Regional Nacional se apresenta em Botafogo com repertório de chorões e sambas tradicionais

Regional Nacional por Gabriela Lopes

O Grupo Regional Nacional, com seu belo repertório de samba e choro, se apresenta no dia 29 de junho, às 19h30, na Biblioteca Popular de Botafogo. Composto por jovens músicos de talento reconhecido, o grupo se destaca pela originalidade do seu repertório e pelo tratamento diferenciado que dá às músicas.
     
O Regional Nacional já recebeu em seus shows Yamandu Costa, Marcos Sacramento, Nicolás Krassik, Áurea Martins, entre outros. O evento tem curadoria do próprioYamandu e acontece dentro da programação do projeto Estação Pensamento e Arte. A Biblioteca de Botafogo fica na Rua Farani, 53, Rio de Janeiro.

Serviço:
Show Regional Nacional
Biblioteca Popular de Botafogo
29/06 -sexta-feira, às 19h
Grátis

domingo, 24 de junho de 2012

A mania da doutorice

Por Humberto Pinho da Silva

Visitava a nossa casa, garotinha, filha de industrial, a fim de receber lições de desenho, que meu pai, que cursara Belas-Artes, administrava graciosamente.

A moça, bem nutrida de carnes, não era bonita nem feia, possuía, porém, dois belos olhos, cor de cinza, que refulgiam e fascinavam, de modo a muitos declararem-na formosa.

 Estando meu pai, certa tarde, a falar com a mamã da menina, endireitou-se a conversa para lhe ensinar “corte”, já que trabalhara, como modista, na juventude.

Arregaçou a mulher as finíssimas sobranceiras; esbugalhou os olhos de espanto, e replicou abespinhada: - Sr. Pinho: não quero que minha filha trabalhe… mas que seja doutora! …

Doutora, para ela, era sinónimo de vida folgada; viver do trabalho dos outros.

Trago este episódio a propósito da crónica de João Adelino, pivô e jornalista da RTP, publicada in: “Dinheiro Vivo”, suplemento do “JN” de 14/04/12.

Conta o cronista: “Faltava poucos minutos para iniciar mais um debate eleitoral televisivo. Um assessor fez-me saber que um dos convidados ameaçava não entrar no estúdio, porque não o tratei com respeito. E perante o meu espanto, esclareceu que eu era o único jornalista que não tratava o político por “ Senhor doutor”.

Como se sabe, em Portugal, ser “doutor” é imprescindível para quem deseje ser bem aceite. É praticamente título de nobreza, que abre portas à sociedade considerada elegante.

E prossegue o jornalista da RTP: “Não há convidado na televisão, que não seja apelidado, invariavelmente, de “ doutor” ou “ engenheiro”.

Recorro, agora, à memória, para narrar cena ocorrida com meu pai ao sair da missa dos “Congregados”:

Louvava-lhe conhecido advogado portuense as crónicas que publicava às sextas-feiras, taxando-as de excelentes; sua mulher, até perguntara-lhe que curso superior tinha o Pinho da Silva.

Como meu pai lhe dissera que não frequentara os bancos universitários, este respondeu: - “Continue…continue…porque para quem não é formado, tem muita habilidade! …”

Regressemos de novo à crónica de João Adelino: “É muito difícil explicar a um britânico, a um alemão, um espanhol ou qualquer estrangeiro, porque chamamos “doutor” e “engenheiro” a todos nossos políticos. Afinal fora das nossas fronteiras, respeito é chamar alguém simplesmente…Senhor.”

Por isso o Ministro da Economia de Portugal., notável professor universitário, no Canadá, ao desembarcar em Lisboa, disse aos jornalistas, que podiam tratá-lo apenas por “ Álvaro”. Declaração que muitos nunca mais lhe perdoaram.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Sem dinheiro


Por Vicentônio Silva
www.vicentonio.blogspot.com


- Pois é, disse o comerciante, agradecendo a cliente octogenária que levava duas cartelas de ovos amarradas cuidadosamente por longo barbante e acomodadas numa sacola biodegradável de cor azul, nome de concessionária de automóveis e de locadora de vídeos no campo dos patrocinadores. O passeio a João Pessoa foi excelente. Minha namorada e eu pegamos o vôo em Presidente Prudente. Meu amigo gastou menos de uma hora para nos deixar no aeroporto que ainda precisa de alguns ajustes: ampliar o estacionamento, melhorar a qualidade do condicionador de ar e, principalmente, disse uma passageira, maneira de desembarcarmos diretamente numa área coberta quando houver risco de chuva. Na verdade, eu acho que nem precisa disso tudo. Quem vai levar o passageiro, para o carro e já vai embora. Para que aumentar estacionamento? Quem vai viajar, fica pouco tempo. Para que mais condicionadores de ar?

Um menino de olhos mortos perguntou se tinha azeite de oliva. Diante da negativa, saiu apressado, mão no bolso, segurando a nota de cinqüenta reais.

- Arranjei uma namoradinha de vinte e oito anos, comprei um pacote para João Pessoa, semana inteira comendo do bom, bebendo do melhor, dormindo embaixo de coqueiro e estirando o corpo na rede do hotel. Você se lembra que a anterior, com quem passei vinte e cinco anos casado, quatro filhos e dívidas imensas nos bancos, desgastou-me muito. Já tinha esquecido como a vida é boa. Vida nova, mulher nova, viagem nova. Acredita que nunca tinha viajado de avião?

- Os novos pacotes facilitam a vida de muita gente e, da mesma forma, têm levado muitos desavisados à falência. A nova classe média comprometeu mais de sessenta por cento dos salários em dívidas a longo prazo e, acredito, desemprego involuntário ou queda do consumo para causar efeito dominó...

- O senhor tem caldo de mocotó enlatado? Homem de chapéu de palha cortava o discurso econômico do interlocutor do dono da mercearia que, sem se levantar da cadeira atrás do balcão, apontou a última estante do último corredor.

- Como eu estava dizendo, retomou o parceiro do dono da mercearia, muitas famílias endividaram-se até o pescoço. Algumas, com sacrifício, conseguem pagar as dívidas. A maioria jogou-se num abismo, não sabe o que fazer.

O homem de chapéu de palha retornou com o mocotó enlatado, duas garrafas de cachaça, goiabada, bananada, ervilhas, meio quilo de salame, meio quilo de presunto, meio quilo de queijo e meio quilo de tomate. Jogou a mercadoria no balcão, pagou em dinheiro vivo e, pensando alto sobre as diversões no fim de semana, saiu tropeçando num engradado de cerveja, esquecido do lado de fora do estabelecimento.

- E, retomou novamente o parceiro do dono da mercearia, visualizamos os efeitos devastadores. Sem me referir à capital, ao Rio de Janeiro ou Cuiabá. Vejo os problemas aqui mesmo em nossa região. Acredita que trinta e oito por cento de meus compradores estão me dando o cano? Comprando mais do que podem pagar? Adiando o pagamento porque compraram, sem necessidade, carros, casas, motos, imóveis na praia? Tem gente que até sítio comprou nesse oba-oba. E eu? Fico no prejuízo! Entreguei a mercadoria no prazo combinado, esperei o pagamento, adiei a data do vencimento, facilitei o valor total em cinco, sete e até doze vezes sem juros. Mesmo assim, tem gente que não paga de jeito nenhum.

- Um verdadeiro absurdo, interveio o dono da mercearia. Se compramos, devemos honrar nossos compromissos e pagar corretamente nossas contas! Detesto caloteiros!

- Eu também acho, disse o parceiro. Sabendo disso, continuou delicadamente, esperei vinte dias após seu retorno de viagem de descanso com a nova namorada na qual certamente gastou uns dois ou três mil reais...

- Na verdade, gastei R$ 5.897,89. O dono confirmou, sorridente.

- Esperei vinte dias, voltar à rotina para cobrar aqueles trezentos reais, que parcelei em seis vezes, já adiei o vencimento outras tantas. O senhor poderia me pagar hoje?

Sem perder a esportiva e o sorriso bonachão, o dono da mercearia:

- Sabe o que é? Sou mini-empresário. Acabei de entrar na nova classe média. A nova classe média com dívida até o pescoço, sem conseguir pagar as novas despesas... Que tal voltar daqui a dois meses?


*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 22 de junho de 2012.

O outro Van Gogh

De Mauricio Arruda Mendonça
Direção de Paulo de Moraes
Com Fernando Eiras

Eu sinto como se a natureza falasse comigo
(Vincent Van Gogh)

Estreia, no dia 29 de junho, no Teatro Poeira, o espetáculo O outro Van Gogh, com Fernando Eiras e direção de Paulo de Moraes, baseado nas famosas cartas trocadas entre Vincet Van Gogh e o seu irmão, Theo Van Gogh, no período entre 1872 e 1890. Com texto de Mauricio Arruda Mendonça, a peça se passa logo após a morte do famoso pintor, em uma narrativa repleta de emoções, onde Vincent e Theo, ambos interpretados por Eiras, se alternam em um diálogo que os entrelaça e redime como se fossem uma só pessoa.

O espetáculo, primeiro monólogo da carreira do ator e do diretor, localiza-se nos últimos dias da vida de Theo Van Gogh (1857-1891), irmão, confidente e mantenedor do grande pintor holandês Vincent Van Gogh (1853-1890). Internado numa casa de saúde, abalado pelo repentino suicídio de seu irmão mais velho, pelos pesados encargos de sustento de sua mulher, filho e de seus pais, e já sofrendo os mesmos sintomas radicais da doença mental dos Van Gogh, Theo repassa acontecimentos afetivamente importantes na sua relação com Vincent em sua luta por tornar-se um pintor. Recordando momentos intensos de vida, o refinado marchand Theo Van Gogh, busca amenizar seu sofrimento pela morte e o insucesso do irmão. Como num réquiem, o texto fala, sobretudo, do amor visceral que uniu e levou à morte esses dois irmãos. 

“Theo é lunar, Vincent é o sol. Theo é Debussy, Vincent é Strawinsky. Theo cuidou de Vincent durante toda a vida se dedicando inteiramente para que esse outro se tornasse possível, fazendo assim uma ponte entre Vincent e seus próprios desejos, compartilhando seus esforços para se tornar o pintor que queria ser e influenciar toda uma geração expressiva que viria depois. Mas Theo não era um artista, ele era marchand. Portanto, compartilhava todo o acontecimento artístico do lado de fora. Então resolvemos dar a ele um lugar no lado de dentro”, explica Fernando Eiras.

As 500 cartas são um registro de uma eterna conversa, onde a cumplicidade fazia par com a constante ironia de Theo, que só depois da morte do irmão, soube entender as suas inquietações quanto à pintura e o que, na verdade, ele queria pintar. Os temas fugiam aos que os artistas consagrados da época pintavam. Tempo para um saudoso Theo rememorar: “Em Auvers-sur-Oise, cidadezinha francesa onde viveu seus últimos momentos - conta para um grupo de pessoas que reuniu em Paris, em 1890, numa pequena sala de conferências - meu irmão passava seus dias olhando e retratando a gente do campo”. E me escrevia:Trata-se de ficar contente em ter o que beber, o que comer, onde dormir e com que se vestir”.

Fernando completa: “Maria Clara Machado, minha primeira professora de teatro, dizia com seus olhinhos brilhando que ‘teatro é lugar de gente’. Escolhemos Theo porque ele é o lugar do outro.”.

Mauricio fez uma pesquisa ampla em publicações e filmes sobre os irmãos Van Gogh. Entre o material constam os títulos: os volumes “Cartas a Theo”, de Vincent Van Gogh; Biografia de Vincent Van Gogh por sua cunhada Jo Van Gogh-Bonger, seguido de Cartas de Theo para Vincent e de Cartas de Vincent a Émile Bernard; “Van Gogh” (biografia), de David Haziot; “Sede de Viver - a vida trágica de Van Gogh” (biografia), de Irving Stone; além de filmes sobre a vida de Van Gogh e seu irmão Theo.

VAN GOGH, o pintor-personagem, que passou de louco em vida ao genial artista na posteridade é, em si, fascinante. O espetáculo é quase uma biografia do pintor holandês, tecida através da troca de cartas febris e dilaceradas com seu irmão Theo, em que os assuntos vinham diretamente do que corria em ritmo acelerado nas veias de uma cabeça em ebulição e de mãos que dominavam, firmes, os pincéis e as cores. É um texto que fala ao coração do homem contemporâneo, marcado por indiscutível atualidade e compaixão.

O holandês Vincent Van Gogh é um dos pintores mais admirados, respeitados e valorizados do mundo. Mas, nem sempre foi assim. A trajetória de Vincent foi tumultuada, oscilante e desesperada. Inquieto e sem destino certo, o artista buscou, inutilmente, paz em várias cidades da Europa.

Viveu doente, solitário, sem recursos e tendo vendido apenas um quadro durante sua vida: A vinha vermelha. No entanto, trabalhou sem parar: deixou cerca de 900 telas. Os quadros que ninguém quis continham uma revolução no mundo da pintura. Na manhã de 27 de julho, um domingo inacreditavelmente azul, Vincent saiu para o campo com um revólver na mão. Entre o amarelo do trigo e a solidão da paisagem, deu um tiro no peito. Pouco tempo depois, sua obra e talento começaram a ser reconhecidos.

Este espetáculo é patrocinado pelo fundo de apoio ao teatro – FATE/Secretaria de Cultura do Rio/Prefeitura do Rio. 



SERVIÇO
O outro Van Gogh
Estreia para convidados: 28 de junho
Estreia para público: 29 de junho
Local: Teatro Poeira (Rua São João Batista, 104 - Botafogo)
Informações: (21) 2537- 8053
Bilheteria: 2ª a 4ª. e domingo das 15 às 20h/ 5° a sábado das 15 às 21h
Horário: Quinta a Sábado, às 21h30/ Domingo, às 19h
Preço: Quinta e sexta, R$40,00/ Sábado e Domingo, R$60,00
Capacidade: 120 lugares
Gênero: Drama
Duração: 70 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Temporada: 29 de junho a 19 de agosto
Sinopse: o monólogo, baseado nas famosas cartas trocadas entre Vincent Van Gogh e o seu irmão Theo, apresenta acontecimentos importantes da relação dos dois irmãos. Recordando momentos intensos, o Theo busca amenizar seu sofrimento pela morte e o insucesso do irmão com um texto que fala, sobretudo, do amor e cumplicidade entre eles.


FICHA TÉCNICA
Texto: Mauricio Arruda de Mendonça
Direção: Paulo de Moraes
Elenco: Fernando Eiras
Idealização: Maria Amélia Mello e Maria Lucia Lima
Cenografia: Paulo de Moraes
Figurinos: Rita Murtinho
Iluminação: Maneco Quinderé
Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti
Vídeos: Ricco e Renato Valarouca
Trilha Sonora: Ricco Viana
Direção de Produção: Andréa Alves e Claudia Marques
Co-produção e Realização: Fábrica de Eventos e Sarau Agência de Cultura Brasileira

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Nos 150 anos do Amor de Perdição

                                                                                                                Por Humberto Pinho da Silva



Decorreram em Maio as comemorações dos 150 anos da publicação do célebre romance de Camilo Castelo Branco.

A obra é sobejamente conhecida, assim como o autor. António Feliciano de Castilho, em carta datada de 02/01/1866, considera-o Mestre - “Sim senhor! É mestre e cem vezes mestre e de todos os nossos clássicos nenhum há que eu leia com tamanho gosto e proveito.”

Vasco Botelho de Amaral, um dos nossos maiores linguistas, in: “Glossário Critico de Dificuldades da Língua Portuguesa”, regista: (…) a linguagem de Camilo é riquíssima de valores expressivos (…). Em todas as páginas revela o Mestre o diligente estudo a que se consagrou, auscultando os dizeres das bocas populares e investigando nos clássicos, documentos ignorados, mas de inestimáveis riquezas idiomáticas. Junte-se a isto o extraordinário génio verbal e estilístico do escritor, e como resultado se nos apresentará a admirável vernaculidade de linguagem de Camilo.”

Antes de versar, sumariamente, a célebre e popular obra de Camilo, vou tecer brevíssima biografia, do considerado, com inteira justiça, o maior escritor da língua portuguesa:

Nasceu em Lisboa, no Largo do Carmo, a 16 de Março de 1862. Ficou órfão muito cedo. Com a irmã vai para Vila Real. Após o casamento desta acompanha-a, e vive com ela, em Vilarinho da Samardâ.

Por essa época tinha Camilo 16 anos. Estuda latim e francês com o Padre António de Azevedo. Pensa seguir a carreira eclesiástica.

Indo a Ribeira de Pena, encanta-se por guapa moçoila, e casa com 19 anos. Fica viúvo e cursa medicina, no Porto. Desiste, e matricula-se na Universidade de Coimbra.

Parte para Vila Real e participa nas tropas do General Miguelista Macdonell.

De seguida entra no seminário, que abandona, passando a viver da escrita.

Apaixona-se, então, por Ana Plácido, esposa de Pinheiro Alves e é acusado de adultério. Preso e julgado, foi absolvido. Mais tarde casa com ela, num prédio da Rua de Santa Catarina, no Porto, atualmente a redação do jornal “A Ordem”.

Falemos, agora, do “Amor de Perdição”, obra que Unamuno, afirma: “ Es uno de los libros fundamentales de la literatura ibérica ( castellana, portuguesa y catalana) - “ Por Tierras de Portugal y España”.

O enredo da obra é apresentado como verídico. Todavia tem um pouco de ficção. Para não alongar a crónica, passo a transladar parte do parecer de Magalhães Basto, conhecidíssimo historiador portuense, apresentado em “Homens e Casos Duma Geração Notável”:

“Simão Botelho existiu: não há que duvidá-lo. Existiu, e esteve encarcerado na Cadeia da Relação do Porto desde 12 de Março de 1805 até 17 de Março de 10807. Era solteiro, estudava na Universidade de Coimbra, mas residia em Viseu quando foi preso.

(…) Qual o crime que merecera tão grave pena? O assassínio do pretendente de Teresa de Albuquerque - Primo Baltazar - como conta o romancista?

Pedro de Azevedo (…) erudito investigador, já falecido, no documentado estudo sobre os “ ANTEPASSADOS DE CAMILO”, dá uma resposta a esta pergunta. O crime de Simão, segundo o processo que aquele autor estudou, foi o do homicídio frustrado, cometido contra a pessoa dum criado de servir, e não contra um nobre Senhor de Castro Daire, como no romance. O crime foi praticado com clavina na Rua Direita de Viseu, em 3 de Agosto de 1804, um quarto de hora depois da meia noite Simão teve um cúmplice: não o ferrador João da Cruz, mas José Jerónimo de Loureiro e Seixas. No campo das hipóteses, parece-me absolutamente admissível que a causa do crime fosse uma mulher, embora se não chamasse Teresa, nem fosse filha de Tadeu de Albuquerque, que segundo parece, nunca existiu.

O “Amor de Perdição” foi sentido, foi “vivido” por Camilo como nenhuma outra sua obra. Pode ser contrariado por documentos. Mas que importa? (…) … hão-de crê-lo verdadeiro todas as pessoas que o lerem”.


Assim termino, recomendando veemente, ao leitor, que teve a paciência de me ler, que releia e saboreie, mais uma vez, esta obra-prima da literatura portuguesa, publicada há 150 anos.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Fastio

Por Vicentônio Silva
www.vicentonio.blogspot.com


Para dona Isaura



Mal entramos na cozinha e ela sentou-se na cadeira mais próxima ao fogão e à geladeira, esticando os olhos sobre os recipientes de feijão, arroz, macarrão e as travessas de salada, frango grelhado, carne de porco, fraldinha, lasanha, escondidinho de carne seca, farofa, lingüiça e bons pedaços de picanha. Os pratos aguardavam no meio de garfos e facas, atrás de dois copos – um de refrigerante ou vinho e o outro de água – e em cima de pequeno artefato comprado no mercado de artesanato de João Pessoa. O cheiro da comida bailava no ar e, até mesmo eu, que continuava sério ouvindo os comentários da dona da casa sobre os novos e barulhentos vizinhos, já me angustiava pela demora do marido que, sem que nem para que, inventara de tomar banho.

Conversei sobre as plantas do quintal, algumas delas trazidas de viagens ao Mato Grosso e ao Tocantins, discorri sobre as novas taxas de juros aplicadas à poupança, defendi o controle de ajuste fiscal pelo qual a Europa se esbofeteava, lembrei de alguns filmes passados na Espanha e na Inglaterra, comentei sobre o lançamento de concursos públicos federais cujos salários e tarefas, afirmavam os professores nos preparatórios, estavam nos sonhos de cinco em cada seis brasileiros, enalteci os fins medicinais de remédios produzidos em laboratórios de entidades sem fins lucrativos... Meu repertório – e minha paciência – chegava ao fim quando ela disparou sem cerimônia:

- Como é? Seu marido sai ou não sai desse banho? Talvez seja melhor a senhora verificar se ele não se afogou ou se não foi sugado pelo ralo.

Recriminei minha parceira pelas palavras indevidas enquanto a dona da casa entrava pelo corredor, subia os dois lances de escadas sem corrimão. Quase vinte minutos de banho e o anfitrião não se atentava de que esperávamos ansiosamente pela oportunidade de engolir o almoço?

Mais alguns minutos, a dona da casa apareceu sorridente, informando que o marido já saíra do banho e escolhia calças confortáveis que combinassem com a tarde refrescante, vento balançando as folhas do pé de jambo e entrando pelas janelas.

- Talvez fosse melhor a gente começar a comer e, quando seu marido chegar, disse minha parceira, ele entra no bonde em movimento. Antes tarde do que nunca.

Mal terminou de falar, escorregou a salada da travessa para seu prato, colocou o prato no centro da mesa, pegou a travessa para se servir, já colocou, nos primeiros movimentos, cinco colheres de arroz, quatro garfadas de macarrão, duas conchas de feijão e metade da salada que ocupava o prato inicialmente destinado a ela.

- Seu marido é um homem muito ocupado, fino, elegante, enfim, cheio das etiquetas, mas esperá-lo pode nos atrasar e, consequentemente, nos gerar embaraço nos compromissos da tarde. Se me permite, começarei a almoçar sem ele e, se não se movimentarem, sem vocês também. Meu médico receitou-me alimentação balanceada, mas acredito que não precisaria de recomendações, pois desde criança tenho um fastio danado e, agora, com oitenta e dois anos, continuo sem vontade de comer nada. Como apenas para me manter viva. Caso contrário, comida nunca me faria falta.

Jogou na travessa – que fazia as vezes de prato – cinco pedaços de frango grelhado, metade da lasanha, um terço do escondidinho de carne, cinco colheres de farofa, oito lingüiças e três medalhões de picanha. Obviamente feijão, arroz, macarrão e salada antecederam os demais itens da farta dieta e causaram tamanha admiração na anfitriã que a fizeram pensar em voz alta sobre a conveniência de cozinhar complementos.

- Não precisa complementar mais nada, disse minha parceira. Já estou satisfeita, entretanto, frutas, Coca-Cola e água bem geladinha me fariam muito bem. Levantou-se abruptamente, abriu a geladeira como se tivesse intimidade de longos anos, buscou duas bananas, um mamão e cinco laranjas na fruteira, sentou-se novamente e não esperou mais ninguém.

Constrangida e inquieta, a dona da casa convidou-me a sentar. Comemos bastante, falamos de amenidades e, quando o marido chegou, recipientes e travessas praticamente vazias ocupavam a mesa.

- A comida estava deliciosa. Convide-me sempre que quiser. Beijos. Minha parceira saiu delicadamente, roubando duas trufas.



*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 15 de junho de 2012.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Enter the void



Após ser traído pelo sócio e, numa armadilha num bar, ser assassinado pela polícia japonesa, um jovem traficante americano em Tóquio vê quando seu espírito abandona o próprio corpo. Ele irá então reviver todos os momentos de sua vida até a bala fatal, passando, a partir daí, a vagar no vazio acompanhando passivamente as vidas dos que lhe eram próximos.

Narrado inteiramente sob o ponto de vista do protagonista, ENTER THE VOID é uma ousada experiência visual dirigida por Gaspar Noé (diretor de "Irreversível"). Eu vi, e escrevi sobre ele aqui:
http://pt.shvoong.com/entertainment/movies/2295731-enter-void/


Maurício Limeira

http://pt.shvoong.com/writers/mauriciolimeira/
http://filmantes.blogspot.com
http://oadversario.blogspot.com

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Cinema de graça em Botafogo!

O Cineclube Plano Sequência, que acontece na Biblioteca de Botafogo, vai exibir no dia 18 de junho o filme “Um homem bom” (Good – 2008, Inglaterra, Alemanha, Hungria), de Vicente Amorim. Protagonizado por Viggo Mortensen, o longa narra a história de um professor que se vê envolvido com o regime nazista de Hitler durante a ascensão dele ao poder. Após a exibição, haverá debate com a presença do diretor Vicente Amorim. A curadoria é de Rodrigo Fonseca. Grátis. 19h.
   
A biblioteca fica na RuaFarani, 53, em Botafogo.

Um homem bom - divulgação

terça-feira, 12 de junho de 2012

Peça “Descobrimento” segue em junho com datas e horários alternativos

Na primeira quinzena do mês de junho, o Teatro Kleber Junqueira (Rua Platina, 1827, Calafate) e a Associação Móbile Cultural continuam com a apresentação do espetáculo “Descobrimento” em horários alternativos. No dia 12 de junho, as apresentações serão às 9h e às 14h30. Já no dia 14 de junho, a peça será apresentada apenas às 9h e no dia 15 de junho o espetáculo será exibido às 9h e às 14h30.  A peça que tem texto assinado por Kleber Junqueira ficará em cartaz até o dia 10 de julho. O enredo relata os mais de 40 dias que se passaram até a chegada de Pedro Álvares Cabral em solo brasileiro, destacando fatos como o sumiço da Nau de Vasco de Ataíde, os doldrums e as relações de poder dentro da caravela. A peça narra ainda a emoção do imperador no encontro com a nova terra e o batismo por Cabral como Ilha de Vera Cruz. Com 20 personagens, 16 atores em cena e figurinos fiéis ao da época, a peça encanta e chama atenção dos espectadores pela riqueza de detalhes, abordando em seu enredo o drama, humor e romance que permeiam esta envolvente história. Outro ponto que merece destaque é a grandeza do cenário, que tem como atração principal uma caravela com dez metros de comprimento e seis de altura. A caravela é utilizada como transporte pelos atores durante a encenação e, ao mesmo tempo, dá uma impressão de tridimensionalidade do navio, de tão real que é a reprodução deste cenário.

“Descobrimento”
Temporada até 10 de julho de 2012
Horários: 12/6 às 9h e às 14h30; 14/6 às 9h; 15/6 às 9h e às 14h30
Local: Teatro Kleber Junqueira (Rua Platina, 1827, Calafate, Belo Horizonte)Ingressos: Posto da Belotur: R$15,00; na bilheteria: R$16,00 (meia) e R$32,00 (inteira).
Informações: (31) 3332-5667 / 3332-9460 / 3371-3771
Classificação: livre

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Balé Folclórico da Bahia se apresentará no Rio de Janeiro

O premiado Balé Folclórico da Bahia aporta no Rio de Janeiro com o espetáculo “Herança Sagrada”

O Balé Folclórico da Bahia (BFB), única companhia profissional de dança folclórica do país em atividade, apresenta seu espetáculo “Herança Sagrada – ACôrte de Oxalá”, nos próximos dias 21, 22, 23 e 24 de junho, no Teatro Carlos Gomes, às 19h30. A temporada no Rio de Janeiro integra a turnê nacional do Balé, iniciada em janeiro, em Salvador, com patrocínio da Oi e apoio cultural do Oi Futuro. A turnê, que também inclui São Paulo, é um marco nos 24 anos de história do grupo, que possui uma intensa agenda no exterior e prestígio internacional, mas enfrentava dificuldade para percorrer o Brasil.

Após ser aplaudido nos Estados Unidos, Europa e Caribe, o espetáculo “Herança Sagrada – A Côrte de Oxalá” chega repaginado aos palcos brasileiros com 26 bailarinos, músicos e cantores, com movimentos vibrantes e sonoridade arrebatadora. Inspirado em rituais do Candomblé, o espetáculo circulou recentemente por 30 cidades americanas, em uma temporada de três meses, e foi visto por mais de 100 mil pessoas.

Com sede no Pelourinho, em Salvador, atualmente o BFB funciona em regime integral de seis horas de trabalho por dia. Os 40 integrantes da companhia – dançarinos, músicos e cantores – recebem preparação técnica para dança, música e teatro. Para preservar e divulgar as principais manifestações folclóricas da Bahia, o Balé desenvolveu uma linguagem cênica que parte dos aspectos populares e atinge questões contemporâneas. O Balé também possui um segundo corpo de baile, que realiza espetáculos diários no Teatro Miguel Santana, no Pelourinho, tendo como público, principalmente, turistas estrangeiros e de outros Estados do Brasil.


Serviço:

Espetáculo: Herança Sagrada – A Côrte de Oxalá - Balé Folclórico da Bahia
Local: Teatro Carlos Gomes (Rua Pedro I, nº 4, Praça Tiradentes, Centro, Rio de Janeiro, RJ)
Data:  21 a 24 de Junho
Horário: 19h30
Ingressos:
Quinta a sábado(dias 21, 22 e 23) - R$ 60,00 (plateia) e R$ 30,00 (balcão)
Domingo (dia 24) - R$ 1,00
Duração: 90 minutos
Classificação etária: 12anos
créditos: Vinícius Lima
créditos:Artur Ikishima



sexta-feira, 8 de junho de 2012

Carta para apaixonada doente ou carente integral

por Vicentônio Silva
www.vicentonio.blogspot.com


Perdoei mais de vinte vezes e inúmeras outras compreendi o nervosismo, a angústia, a energia das palavras. Uma hora a paciência acaba, o humor desaparece e descobre-se que, desde o início, a paixão não passa de carência construída na infantilidade.

O relacionamento entre as pessoas não é eterno, entretanto pode ser duradouro. A permanência depende estritamente da maturidade de constatar que o cotidiano não se constrói em viagens à Europa, na aquisição de automóveis de última linha, de acessórios inúteis da moda, de fotos tiradas com pessoas com quem raramente nos relacionamos ou por quem jamais tivemos admiração, de se achar criada à perfeição divina, mas de refletir sobre ovos.

Imagine-se carregando cem ovos – nas mãos e nos braços – de sua casa até a rodoviária, numa noite escura, sem luz da lua e sem energia elétrica. Quantos ovos chegariam à rodoviária? A paixão é a arte de carregar ovos. Cada ovo que cai não volta: a falta de dizer “obrigado”, de se desculpar, de compreender e se sentir feliz por ser adorada por alguém que não oferece nem viagens à Europa, nem carros, nem casas, nem futilidades da vida social, contudo pode enumerar milhares de qualidades e belezas que existem nos olhos apaixonados.

Se você não se sente adorada e desejada, seja inteligente: largue quem a maltrata ou a despreza. Procure nova paixão! À nova paixão, continue com o comportamento egoísta cujas forças concentram-se mais em magoar e ofender do que lançar palavras e gestos de carinho. O abraço afetuoso, o beijo puramente reconfortante – sem intenções eróticas – e o olhar amoroso de solidariedade, comunhão ou incentivo são mais eficazes do que falar ininterruptamente, considerando-se o centro da terra e ouvindo apenas suas palavras.

Apontar a falta de educação, de civilidade, de cortesia, de elegância e de delicadeza não é maneira de atacar, mas opção de largar hábitos desnecessários e melhorar as relações. Educação é muito mais do que cursar faculdades, construir carreira docente ou escrever livros. Educação não é nada mais nada menos do que reconhecer o esforço do outro, de admirar o desprendimento, de possuir alguém para ouvir suas reclamações e, diante das burrices e dos “jeitinhos” que só trazem ou trarão transtornos, exaltar seus cabelos, elogiar o conjunto de suas formas ou desejar abraçá-la até os braços se gastarem. Elegância é o gesto de atenção. Delicadeza é derrubar um tijolo na velocidade de avião com impactante intensidade de penas.

São muitas as exigências de mudança? Não mude sua maneira de pensar e de agir. Mude de parceiro! Procure alguém que seja igual a você ou que se submeta sem resistência ao número incansável de futilidades resgatadas dos mares do supérfluo. Lembre-se: não existem pessoas melhores ou piores, lindas ou feias, inteligentes ou burras, honestas ou ladras. Como leciona o filósofo Bertrand Russell, “somos nós quem criamos valor, e são nossos desejos que o conferem”.

O homem e a mulher que erram uma vez são despreparados ou ignorantes. O homem e a mulher que erram a segunda vez são desatenciosos e displicentes. O homem e a mulher que erram a terceira vez são compreensivos ou condescendentes. O homem e a mulher que erram a quarta, a quinta, a sexta e inúmeras vezes sucessivamente são estúpidos, desconhecem os valores da vida, afundam gradativamente em areias movediças à medida que se movimentam. Já fui despreparado e ignorante. Já me expus desatenciosa e displicentemente. Já lancei mão de compreensão e condescendência. Reservo-me uma vida sem desmazelos, longe das areias movediças, mergulhado em atos receosos, mas nunca perdido na estupidez.

Promessas são propostas que damos ou aceitamos. Se as damos, devemos cumpri-las. Se as aceitamos, precisamos exigir seu cumprimento. Quantas promessas de mudança? De que serviram? Platão diz que virtude e conhecimento integram-se à personalidade do indivíduo no momento em que o espírito entra no corpo. Quem tem facilidade de falar idiomas, de resolver problemas matemáticos ou de tocar instrumentos musicais nasceu com esse dom.

Numa linguagem mais popular, Platão diria que pau que nasce torto nunca se endireita ou que água e óleo não se misturam. O importante não é escolher entre água e óleo. O importante é escolher – ou água, ou óleo – e, depois da escolha, viver em êxtase ou com a água ou com o óleo.

Surge a promessa de amizade depois do encerramento abrupto da paixão, mas a experiência ensina que, na maioria das vezes, relacionamento constitui contrato ao fim do qual cada um toma seu rumo. O dono da casa procura novo morador para alugá-la e o antigo inquilino busca outro teto.

Despedidas se fazem de saudades, de mágoas ou de desgostos. Que tal alegria? Os caminhos pelos quais passamos são apenas o preparo para novos rumos.

Boa viagem.



*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 8 de junho de 2012.