sexta-feira, 5 de abril de 2013

Penitência - Parte 1


Rafael Castellar das Neves

Já faz algum tempo que estou entrevado nesta maca. É maca sim, cama de hospital não passa de uma maca. Não tem posição que alivie as dores nas costas ou que me dê um pouco de conforto na paciência. Na verdade não faz algum tempo, faz tempo pra caralho! Tanto tempo que nem sei dizer.

Entra dia, sai noite e eu continuo aqui, na mesma situação. Esperando sei lá o quê. Um problema no estômago me jogou aqui, era pra ser temporário, mas sabe como é, a idade ajuda a pesar o corpo e uma coisa leva a outra, um problema some, dois aparecem e por aí vai, estou todo fodido. São tantas coisas que eu passo a ter e deixo de ter que nem sei mais qual é o meu problema atual. Os médicos já não falam mais o pouco que falavam. Se dirigem a mim como se eu fosse um cachorro velho. Vêm, mexem, fuçam, cutucam, viram, apertam, enfiam, espiam, bocejam, anotam e se vão, sem dizer nada. Não me cumprimentam, não me explicam, no máximo um sorrisinho e um tapinha na perna doente. Ou já sarou? Ah, sei lá, não lembro e não importa, tudo dói mesmo. Sei que eles fazem assim comigo, acho que já se acostumaram comigo aqui como se eu fosse parte desta decoração de mau gosto. Eita, povinho pra ter mau gosto! Também não me importo mais em perguntar. Cansei de implorar para conseguir alguma resposta deles. E quando eles resolviam dizer alguma coisa, falavam comigo como se eu fosse um médico. Não entendo merda nenhuma do que eles falam. Então a coisa vai ficando assim: eles vêm, não falam, eu não pergunto e tudo fica bem. Bom, bem para eles que podem ir embora e ter a vidinha deles...

Com os enfermeiros a coisa não é diferente. Só um rapaz baixinho, meio esquisito, que ainda conversa um pouco comigo, às vezes até chega animado com sorriso no rosto e faz alguma piada sem graça, mas que é de boa vontade então eu forço um riso amarelo. Outras vezes ele aproveita e fica um tempo aqui, não comigo, fica no celular dele falando com não sei quem, mas já é uma distração pra mim, sabe? Não pergunto nada sobre a ligação e ele também não diz nada. Fico como se não estivesse ouvindo, mas estou e me divirto um bocado, confesso. Os outros enfermeiros são uns imbecis. Além de não falarem comigo, como os médicos, são grossos e estúpidos na lida. Dão um banho sem-vergonha a cada dois dias, trocam os lençóis uma vez por semana, demoram a trocar meu papagaio, não respondem quando chamo ou quando berro. Quando não consigo segurar, me cago todo na cama, que situação! Demoram pra trazer aquela porcaria de comida e sou obrigado a engoli-la fria, é uma droga. Me regaçam todo, vão embora, não perguntam nem se dói alguma coisa ou se preciso de alguma outra. Meus braços parecem peneiras, estão todos roxos, todos cheios de feridas, pareço um viciado. Esses filhos da puta não conseguem acertar uma merda veia? Só fazem isso, porra!

Ainda tem o meu colega de quarto. Na verdade já se passaram vários por aqui, mas para mim são todos iguais: gemem, vomitam, fedem, reclamam, se curam e se vão. Procuro não conversar muito e nem dar muita atenção. Alguns ficam aqui jogados também, outros têm família que os vem visitar, mas não me importo. Como sempre tem um, então trato como meu colega de quarto e pronto.

Teve um que passou muito mal numa madrugada dessas. Sorte que eu estava meio acordado e fiz um escândalo aqui até aparecer alguém para acudir. Ele não podia falar, não lembro porque, acho que era porque tinha uns tubos enfiados na goela. Mas acho que ele ia bater as botas se eu estivesse dormindo. O pobre infeliz começou a se debater, espumar, virar as bolas dos olhos, tremer, se contorcer... Uma coisa bem feia de se ver... Mas no fim foi embora, então deve ter ficado bem.

Um comentário:

Rafael Castellar das Neves disse...

Obrigado, Flavião! Espero que o pessoal goste!

Abraços...