terça-feira, 23 de abril de 2013

Penitência - Parte 2


por Rafael Castellar das Neves

Sabe? Aqui o tempo não passa, ele se arrasta e com muita má vontade. Tem um relógio pendurado na parede que tento ao máximo ignorá-lo, mas acho que por isso mesmo acabo sempre olhando para ele. Quando o tempo não passa olhar para um relógio é a pior coisa que se pode fazer, faz com que o tempo se arraste ainda mais lentamente e a irritação tome conta. Mas os olhos são muito traiçoeiros, nos denunciam aos outros e nos mostram aquilo que não queremos ver. Já até joguei a bandeja de comida nele para ver se eu conseguia quebrá-lo, mas é claro que a bandeja nem chegou perto e ganhei umas boas picadas e alguns dias de sono.

Tento um pouco de tudo para me distrair, mas quase nada é suficiente. É raro eu conseguir um jornal velho, uma revista esfarrapada ou uma cruzadinha antiga. Sempre peço, mas ninguém me escuta. Aliás, escutar escuta porque não é possível que todo mundo aqui seja surdo, mas se fazem de surdos. Às vezes o rapazinho esquisito me deixa alguma coisa e eu leio, releio, leio novamente sem me cansar – até cruzadinhas feitas eu já refiz. Sei que é estranho, mas me distrai um pouco e isso alivia o tempo. E o tempo insiste em ficar aqui comigo. Por mais que eu suplique para ele ir, ele fica. Isso vai me irritando, as dores vão contribuindo e aí, meu amigo, eu viro um bicho aqui, até que todo mundo fica de saco cheio e me apaga por alguns dias. Perco a noção do tempo, não desse que não passa, mas do dia da semana, do dia do mês. A gente fica meio zureta com essa falta de referência de calendário, mas por outro lado não me incomodo muito, não vou pra lugar nenhum mesmo...

O que ainda não perdi é a lucidez, eu acho. Me lembro de tudo da minha vida, me lembro de tudinho, desde menino até hoje. Isso quem garante é o tempo, não o do calendário, mas aquele que se arrasta. Quando ele vem e fica, ele conversa comigo, me conta tudo aquilo que já vivi. Do início ao fim, do fim ao início, do meio para o começo, de cabeça para baixo, de tudo quanto é jeito. Aí é inevitável, acabo me lembrando até de coisas que acho que nunca mais lembraria. Me lembro de quando eu era pequeno, bem menino, de quando eu era adolescente, de quando fiquei mais moço... Parece que sou o mesmo em todas estas fases, como se hoje eu ainda fosse o mesmo menino, no mesmo corpo. Mas as minhas mãos são as primeiras a me trair com suas rugas, com seus dedos tortos, com essas unhas amarelas e contorcidas. Fico aqui deitado revendo minha vida, imaginando as possibilidades, imaginando como seria se certas coisas fossem feitas, se outras fossem feitas de forma diferentes, são tantas coisas...

Escuta! Escuta! Está escutando? É... Um piano! Não sei de onde vem, deve ser de algum apartamento aqui por perto. Vem sempre nesta hora, no comecinho da noite; mas não todos os dias. Pelo jeito de tocar é alguém que está aprendendo ainda, algumas notas engasgam, outras saem do tom, percebeu? Mas para mim soa como um recital! Isso sim é algo que me dá prazer aqui neste lugar. Parece que o mundo para e se restringe a este espaço, nada mais existe e tudo fica em paz, só o piano, escuta!

Um comentário:

Rafael Castellar das Neves disse...

Espero que os amigos do Coruja Cultural goste desta continuação, mas principalmente da parte final! rs

Abraços!