quinta-feira, 23 de maio de 2013

Os olhos de Sancha

Flávio Sanso
@flavio_sanso


Em acréscimo ao muito do que já se discutiu sobre a verve psico-enigmática presente em Dom Casmurro, ouso expor minha particular percepção, sobre a qual é possível que alguém já tenha abordado, com melhores credencial e técnica. Seja como for desculpo-me antecipadamente caso não me faça original. 

Controlado pela genialidade machadiana, Bentinho, um dos mais intrigantes narradores da nossa literatura, captura e depois direciona a atenção do leitor para o que parece ser apenas o relato objetivo das memórias da sua vida. No entanto, lá pelos três quartos do livro instaura-se uma mudança que sacode toda a estrutura narrativa até então vigente. E é o próprio narrador que anuncia a tal mudança:

Tudo acaba, leitor; é um velho truísmo, a que se pode acrescentar que nem tudo o que dura dura muito tempo.   

Nesse aspecto, há uma cena que funciona como o divisor de águas da trama: Bentinho/Capitu e Escobar/Sancha – os casais inseparáveis – estão reunidos em mais um de seus corriqueiros encontros. Escobar aproxima-se de Bentinho e lhe promete anunciar, no dia seguinte, um projeto para os quatro. Logo em seguida é a vez de Sancha se aproximar de Bentinho. Pedindo segredo, ela lhe confidencia o que seu marido apenas deixara no ar. O projeto era a viagem em que os quatro iriam juntos à Europa. Deixemos a parte principal da cena a cargo do próprio narrador:

Sancha ergueu a cabeça e olhou para mim com tanto prazer que eu, graças às relações dela e Capitu, não se me daria beijá-la na testa. Entretanto, os olhos de Sancha não convidavam a expansões fraternais, pareciam quentes e intimidativos, diziam outra coisa, e não tardou que se afastassem da janela, onde eu fiquei olhando para o mar, pensativo. A noite era clara.
Dali mesmo busquei os olhos de Sancha, ao pé do piano; encontrei-os em caminho. Pararam os quatro e ficaram diante uns dos outros, uns esperando que os outros passassem, mas nenhuns passavam. Tal se dá na rua entre dois teimosos. A cautela desligou-nos; eu tornei a voltar-me para fora. E assim posto entrei a cavar na memória se alguma vez olhara para ela com a mesma expressão, e fiquei incerto. Tive uma certeza só, é que um dia pensei nela, como se pensa na bela desconhecida que passa; mas então dar-se-ia que ela adivinhando... Talvez o simples pensamento me transluzisse cá fora, e ela me fugisse outrora irritada ou acanhada, e agora por um movimento invencível... Invencível; esta palavra foi como uma bênção de padre à missa, que a gente recebe e repete em si mesma.        

A partir dessas reflexões abrem-se comportas que inundam o texto de uma subjetividade avassaladora. Bentinho descreve o modo como interpreta as atitudes de Sancha, conforme suas próprias conclusões, as quais certamente podem não corresponder à realidade dos fatos. O que temos é a versão do narrador, entre tantas outras possíveis. Caso fosse lhe dada a oportunidade do contraditório, Sancha bem poderia dizer que a troca de olhares foi ocasional, sem qualquer conotação que excedesse os limites da amizade existente entre os dois. Note-se que, logo depois, o próprio Bentinho reconsidera sua impressão inicial:

Tinha já comparado o gesto de Sancha na véspera e o desespero daquele dia; eram inconciliáveis. A viúva era realmente amantíssima. Assim se desvaneceu de todo a ilusão da minha vaidade.

O episódio mencionado acima é um componente importante do contexto em que começam a ganhar corpo as suspeitas de Bentinho quanto ao suposto caso extraconjugal entre sua mulher Capitu e seu melhor amigo Escobar. E é novamente um olhar que orienta as suas ilações. Um olhar que Capitu direciona a Escobar desencadeia uma série de angústias que evoluem desde a desconfiança até a mais inexorável das certezas, cujo símbolo é o fato de que Ezequiel, filho de Bentinho e Capitu, carrega consigo, à medida que cresce, a aparência de Escobar cada vez mais inequívoca e perturbadora. Chega-se então à inevitável pergunta: se Bentinho já havia se enganado antes, dando interpretação torta ao comportamento de Sancha, por que também não estaria errado em relação ao julgamento que aplica a Capitu, sobretudo se levado em conta o confesso ciúme que sempre o rodeou? 

De qualquer forma, teria sido magnífico se Machado de Assis pudesse dar voz a Capitu em um romance no qual prevalecesse a outra versão. Poderia servir para esclarecer nossas dúvidas. Ou então nos confundiria ainda mais.



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