sábado, 27 de julho de 2013

Ator duplicado

por Flávio Sanso

Começa com o pulsar que é levemente mais rápido que o normal. Avança para um estado em que a frequência cardíaca é elevada ao nível máximo de batimentos. Ao final do percurso entre a coxia e o palco, meu coração é o alvoroçado rufar de um tambor que me foge o controle. Tem sido assim durante cada apresentação que compõe os dez anos de minha carreira teatral, e se no momento em que as cortinas se abrirem houver circunstância de me faltar tal sensação deixo de ser ator.

É bom que se diga que só se atua mediante monumental entrega. Que me perdoem os burocratas, mas, diferente das atividades exercidas por detrás das mesas de escritório, que muito costumeiramente admitem o convívio entre trabalho e desânimo ou produtividade e indisposição, o ofício de interpretar requer entusiasmo obrigatório, sem o qual não se está habilitado a frequentar o palco, um mundo que pelo intervalo de aproximadamente duas horas se afasta de tudo que o cerca, como se suspenso em outra dimensão. E é assim que ao final do espetáculo, desmanchando em suor, eu me sinto completamente exaurido, e isso porque deixo minha força e minha alma no palco. Só depois de um tempo consigo recuperá-las.

Todas essas reflexões me vêm, agora, enquanto vejo no espelho o reflexo do meu rosto maquiado. É natural que o artista interrogue a si mesmo sobre o sentido do seu trabalho. Em particular, ultimamente também tenho me perguntado quem sou eu. Soa o terceiro toque da campainha. O coração acelera aos poucos. É a vez de mais uma apresentação da peça em que atuo como um dos protagonistas.


Sou o renomado ator Francisco Riva e nos últimos tempos tenho contracenado com Verônica Luz, uma atriz de ascensão meteórica, daquelas cujo talento exuberante e irresistível abre todas as portas sem pedir licença. No início da temporada algo me incomodava. Durante as primeiras apresentações senti-me pressionado a impor a força da minha atuação como maneira de proteger o território ameaçado por uma quase novata. Nas cenas em que eu precisava encará-la bem de perto – olhos nos olhos negros que eram enquadrados por uma cascata de fios escuros e longos –, minha expressão facial se contorcia muito além do que a composição do meu papel exigia.  Passei a exagerar, e o exagero não há de ser confundido com a intensidade performática de um bom ator, pendendo a um incômodo artificialismo que comprometeu a minha atuação. Verônica não se intimidou. Ao contrário, pareceu reagir às minhas provocações com segurança. Bem, talvez ela nem tenha percebido minha tentativa de intimidá-la, o que representaria um tiro saído pela culatra, pois Verônica poderia ter assimilado o quão desqualificada era a atuação de quem a crítica cultuava como o “rei dos palcos”.

A derrocada da minha postura egocêntrica se deu exatamente na décima sétima apresentação. Uma das minhas falas consistia na declamação de um poema renascentista. Atravessava com desenvoltura cada um dos versos, até que em um deles troquei a ordem das palavras, o que foi suficiente para que eu me visse diante do pior inimigo de um ator: o “branco”. Pelo espaço de alguns segundos meu olhar percorreu a multidão de rostos que, confusos, estranhavam que eu tivesse me silenciado abruptamente. Para ganhar tempo, simulei uma dor no peito. A intenção era criar um disfarce em forma de cena inventada. O pequeno embuste fez o público acreditar que a comoção experimentada pelo personagem era parte da peça. Enquanto isso, assim como o asmático que busca o ar, eu vasculhava desesperadamente na memória as palavras fugidias. Só funcionaria se fosse rápido, mas o tempo avançava cruel e as palavras continuavam a me faltar. Via-se no centro do palco, envolto por uma ilha de luz, um ator e a sua iminente ruína. Mas, quando a caminho da desistência, já considerando minha carreira por um fio, uma voz feminina dominou as ações. Brado seguro e cortante: “É tudo quanto sinto, um desconcerto/ Da alma um fogo me sai, da vista um rio/ Agora espero, agora desconfio/ Agora desvario, agora acerto... É isso que temes me dizer?”. Além do seu próprio texto, Verônica dominava cada palavra da minha fala e, tendo a exata noção do meu apuro, lançou mão de um brilhante ato de improviso, recitando os versos que haviam me escapado. Imediatamente minha fala restituiu-se. O espetáculo prosseguiu. Verônica me salvou.

A partir de então passei a interpretar meu papel sem maiores extravagâncias. A verdade é que o modo como eu atuava deixou de ter importância, e foi como se eu me transformasse em uma espécie de espectador privilegiado. A mim interessava mais a oportunidade de presenciar, em minúcias, o magnetismo dos gestos, a vibração dos movimentos, a infalibilidade da dicção, elementos que compunham a magnitude artística de Verônica Luz. Lentamente me dei conta de que o meu prazer de interpretar cedeu espaço para o prazer de contracenar com Verônica. Pessoa e personagem confundiam-se em mim, a ponto de não se saber onde era o começo de um e o término do outro. Na trigésima terceira apresentação, enquanto aguardava minha deixa, tive uma ideia tão repentina quanto irresponsável. Adicionei à minha fala uma frase, uma mensagem intrusa e cifrada, que pretendia desafiar a perspicácia de Verônica. “Se é certo que ainda somos dois é porque ainda não sabemos que podemos ser um”. Nem sequer um engasgo ou alguma gagueira. Verônica era uma atriz completa até para fingir que nada diferente tivesse acontecido. Seguiu seu texto com naturalidade, impondo-me a condição de um idiota. Mas quase ao fim do espetáculo, quando então eu já havia abandonado a esperança de receber algum tipo de resposta velada, Verônica se manifestou do mesmo jeito que eu: através de uma mensagem escondida entre a sua corriqueira fala, um recado que me tragou ao mundo dos desiludidos. “Só somos um por força do ofício; fora dele, voltamos a ser dois.”


Sou Júlio Duarte. Enquanto observo meu rosto maquiado, vejo refletida ao fundo do espelho uma imagem reiterada. Beatriz esconde cuidadosamente os seus cabelos loiros debaixo da peruca que compõe a personagem Verônica Luz. O primeiro toque da campainha anuncia a iminência de mais uma apresentação. Ainda tenho tempo de me deixar entregue a reflexões sobre quem verdadeiramente tenho sido eu. De certa forma, interpretar Francisco Riva tem feito de mim um ator melhor, afinal ator que interpreta outro ator torna-se um ator duplicado. Mas nisso há o perigo de, às vezes, pessoa e personagem se verem atados em uma mistura indissociável. Sim, ainda haverá a oportunidade em que eu, através de uma frase incorporada à fala de Francisco Riva, desafie Beatriz a se manifestar sobre o que sente por mim.  

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