terça-feira, 12 de novembro de 2013

Aquele que a todos domina

Flávio Sanso
@flavio_sanso

Você está sentado confortavelmente na poltrona do cinema, distraindo-se com o brilho da telona. Mas aí entra em ação o brilho concorrente de uma telinha menor, bem menor. Na mesma fileira em que você está sentado, uma mulher acende sua maquininha portátil dos infernos, na qual passa a deslizar seu ágil polegar. A condição vício-escravizante à qual está submetida não a faz perceber que sua atitude incomoda todos que estão à sua volta. E assim a prática inoportuna é repetida diversas vezes durante a exibição do filme.
Você entra em um táxi, que passa a percorrer a avenida engarrafada. O carro se move lentamente. Quando para, o motorista é ágil em acionar o freio de mão. Em seguida saca rapidamente o objeto hipnotizador que o atrai com o inconfundível sinal sonoro cuidadosamente projetado pela Apple: uma mensagem chegou. Sua ansiedade em responder prontamente a mensagem faz com que ele não perceba que o trânsito voltou a fluir. Alguns segundos depois o carro volta a parar, seguindo-se o frenético procedimento de réplica e tréplica, concomitantemente à prestação de um serviço, que, àquela altura, estava relegado ao segundo plano.
Você conversa animadamente com um amigo. O diálogo é bruscamente interrompido porque seu amigo precisa atender a uma chamada repentina. De interlocutor, você se torna testemunha dos assuntos longos e irrelevantes tratados entre seu amigo e a pessoa que o acionou através da caixinha portátil que a todos domina. Sabe-se que o identificador de chamadas foi inventado por um brasileiro. Mas essa engenhosa ferramenta não tem qualquer serventia quando, em detrimento ao contato pessoal, a prioridade absoluta é sempre concedida a quem está remotamente do outro lado da linha.    
Sou da última geração em que aquela transição entre infância e adolescência se deu sem a presença de celulares e internet. É daquele tempo que me vem a memória do prazer indizível que me tomava quando ouvia o berro dos meus amigos me chamando para jogar bola. 

Flávio Sanso é autor do livro A base do iceberg

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