terça-feira, 19 de novembro de 2013

O pangaré branco

Flávio Sanso
@flavio_sanso

Ao longo do caminho há um terreno baldio. O chão é revestido de mato rasteiro, circunstância em que não é de se espantar a visão, através da tela vazada, de um pangaré branco. Mas ele está indisposto. É velho. Senta-se com enfado e talvez tenha percebido que alguém o observa. Seu rosto pontudo vagueia antes de tombar no chão. Morreu? Imediatamente examino a barriga volumosa. Ela vai e vem; sobe e desce com pressa. Sinto um alívio inocente antes de seguir para o trabalho.
É outro dia e eu já nem me lembro do pangaré branco, pelo menos até olhar novamente para o terreno baldio. Lá está ele. As patas se equilibram no solo desnivelado, o rabo balança espanando o chão, as ferraduras cavoucam o barro, os beiços proeminentes flertam com o capim. Que a ressurreição dure o quanto puder!

O autor escreveu o livro A base do iceberg 

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