terça-feira, 26 de novembro de 2013

Van Gogh não pintou seu fim

Flávio Sanso
@flavio_sanso

No dia 27 de julho de 1890, um domingo, após almoçar na Estalagem Ravoux, Vincent van Gogh, munido de tintas, cavalete e pincéis, envereda pelos campos de Auvers para mais uma sessão de pintura. Anoitece quando o pintor desponta com andar trôpego. Retorna sem cavalete, tintas e pincéis, trazendo um pequeno orifício sob as costelas. O que aconteceu de fato naquela tarde é um mistério e as explicações para tal lacuna socorrem-se apenas de versões.
Muito por causa da personalidade depressiva e transloucada do pintor, que inclusive em outros tempos já havia decepado parte de uma de suas orelhas, a versão que ganhou corpo ao longo dos anos é a de que Van Gogh teria cometido uma espécie de suicídio desastrado. Durante a sessão de pintura e enquanto usava a arma para espantar corvos, teria cometido o ato de atirar contra si. Mas a monumental obra biográfica “Van Gogh – a vida”, de Steven Naifeh e Gregory White Smith (Companhia das Letras) pretende confrontar veementemente a tão propalada versão de suicídio. Como se não bastasse a excelência do trabalho de pesquisa que percorre toda a vida do gênio holandês ao longo das mais de mil páginas, o livro já valeria a pena apenas pelo seu final, em que são esmiuçados todos os detalhes relacionados à tragédia, de modo a esclarecer, por exemplo, que o ferimento causado pelo tiro tinha pequenas dimensões e pouco sangramento, o que, associado ao fato de que a bala ficou alojada no corpo, indica que o tiro foi disparado à distância e não à queima-roupa como seria típico de um suicídio. Além disso, merece destaque a figura de René Secrétan, jovem de dezesseis anos que passava as férias em Auvers e que costumava se vestir com trajes de cowboy, incluindo o porte de uma pequena arma. Nesse contexto, levando-se em conta que René Secrétan tinha por hábito perturbar o pintor de modos extravagantes e que sumiu após o episódio (assim como também sumiram a arma e o material de pintura), é bem provável que Van Gogh tenha assumido a culpa e encoberto algum tipo de disparo provocado por brincadeira, acidente ou outro motivo qualquer que não estaria ligado à vontade do pintor, sobretudo diante de uma frase quase elucidativa dita em seu leito de morte: “não acusem ninguém.”
Enfim, após a leitura de “Van Gogh – a vida” é mesmo difícil abraçar a ideia de que Van Gogh tenha tirado deliberadamente a própria vida. Sua conturbada condição psíquica, ainda que parecesse invencível, não suplantou a obsessão em construir as bases de uma nova arte que dava sentido à sua vida. Quando morreu aos trinta e sete anos, estava no auge de sua produção, não parecendo justo que a Vincent van Gogh seja atribuída a responsabilidade incontestável de ter provocado a interrupção de um dos mais significativos patrimônios artísticos da humanidade.  

Flávio Sanso é autor do livro A base do iceberg



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