quarta-feira, 26 de março de 2014

O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam



Normalmente o cenário em que se amontoam alguns mendigos de uma cidade é visto como paisagem triste porém merecedora de, no mínimo, dois segundos de atenção que logo se evapora. Assim é que a miséria exposta nos cantos da praças e ruas é ignorada, ou em outra perspectiva, tida como parte componente da sorte que a cada um cabe.
Na obra “O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam”, de Evandro Affonso Ferreira, a um mendigo é concedida voz e a partir disso o mundo desses miseráveis destaca-se e recebe uma rajada de luz que os retira, pelo menos durante o período de cento e vinte e sete páginas, de sua insignificância. Diferente do que possa parecer, há sentimento e história em cada ser maltrapilho que se arrasta por entre as pessoas que não o enxergam ou que o desprezam ou que o temem.
Eis uma obra de arte em que o mendigo-narrador, abusando de raciocínios líricos, dramáticos e encantadores, demonstra que mesmo aos menos afortunados é permitido o direito de amar com sofisticação.


Flávio Sanso
www.reticencia.com

@flavio_sanso

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