terça-feira, 1 de abril de 2014

Sem destinatário

Carla Dias

Eu não sei quem você é. Você não sabe quem eu sou. Não sabemos se temos algo em comum: desejos, discos, comida, partido político. Não fazemos ideia se, dia desses, estaremos em um mesmo lugar, na mesma hora.

Por nada saber sobre você, eu imagino com a imaginação desenfreada. Lembra-se de quando pintávamos desenhos na escola? Era pato azul, margarida verde, pele laranja. O preceito desse meu sentimento em relação à imaginação é o mesmo. Trata-se da mesma liberdade daquela época, de quem ainda não decorou a verdade absoluta sobre isso e aquilo. De quem ainda não desaprendeu a desconfiar de qualquer verdade absoluta.

Absolutismo me dá preguiça. E pra você? No que dá?

Ah, sim, a vida urge e a telecomunicação anda muito mais rápida e rasteira do que no tempo dos classificados em revistas de novelas em quadrinhos, as velhas, porém interessantes, fotonovelas. Nelas, parecia que o tempo era mais largo, não? As pessoas conversavam sem pressa, e suas feições eram congeladas pelo sentimento transmitido em palavras flutuando em balõezinhos.

Eu não sei se você é cientista, bancário, catador de silêncios ou criador de caso. Qual é o signo, a sina, a rua onde mora, a infância que lhe batizou, e a bebida preferida. A minha é chá de camomila, mas disso você não sabe. Com algumas gotinhas de limão, para enfeitar o paladar.

Outro dia, eu lhe disse palavras escritas, em mensagem que mandei para mim mesma, por e-mail. Como aquelas pessoas que, necessitadas de serem escolhidas pela atenção de alguém, mandam buquês de flores a si mesmas, no trabalho, que é para que todos testemunhem o apreço, ainda que falseado.

Debaixo das pálpebras das tantas formas de comunicação de hoje em dia, descansa o desejo dos olhos nos olhos, que somos bichos que necessitam de espreitar, no decorrer do apaixonamento. E apesar de tentarmos o contrário, preferimos, ainda, conhecer pessoas a mergulharmos em perfis. Uma dose de tempo, outra de acaso.

Se o universo ainda não lhe contou, eu gosto de tomar chuva, de andar descalça pela casa, de escutar discos no último volume. Prefiro a noite, a exuberância das emoções fora do tom ao conluio das certezas. Saiba que, o que não cai bem no meu currículo, desfila bonito na minha vida. Sou nada profissional quando a conversa é fiada no sentimento.

Eu não conheço você, tampouco você sabe sobre mim, o que não lhe impede de pensar sobre mim, que a vida, com a diversidade de meios de nos comunicarmos, de nos achegarmos, ainda depende da aposta do destino. E o espírito, que renega amarras, viaja na velocidade desconhecida dos milagres. A geografia pode estar contra nós. A metafísica pode ser nossa aliada, assim como a aspereza pulcra que habita os poemas de Bukowski. O que não nos impede de chegar ali, naquele mesmo lugar, no momento: o mesmo.

Podemos ser crônica ou comicamente incompatíveis. Podemos, até, concordar com isso. Talvez sejamos a combinação exata dos ingredientes da imperfeição. Agora, é nos encontrar para ver... Aqui ou acolá, Porto Alegre ou Uberlândia. Londres ou New Orleans. Haiti ou Frankfurt. Seja lá onde for.

Texto originariamente publicado no endereço:
http://www.cronicadodia.com.br/2014/03/sem-destinatario-carla-dias.html

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