quinta-feira, 8 de maio de 2014

Aves de Rapina

Por Humberto Pinho da Silva

Quando faleceu minha mãe, após meses de tremendo sofrimento, que a levou à cegueira – abandonada pelos médicos, ao verificarem que não havia cura, - meu pai foi recomendado, pela funerária, que pertencia a amigo de meu avô, a retirar objectos pequenos, das salas, que familiares e amigos teriam acesso.
Ajudei-o nessa ingrata tarefa, segurando com fino arame e fio do norte, pinturas e gravuras que se encontravam ao longo da escadaria.
O velho e íntimo amigo de meu avô era católico e monárquico, de sete costados, em época que era crime grave ser cristão e adepto do rei deposto. Atrevimento que, algumas vezes, pagava-se com a vida.
Foi igualmente aconselhado a depositar o corpo em capela. Era mais seguro - informaram, - livre de aves de rapina que habitualmente frequentam velórios.
Conselho que recusou. Faltou-lhe coragem de abandonar a mulher, em capela pública, cujas portas encerravam às primeiras horas da madrugada.
Deixou-a no leito, coberta com lençóis do enxoval; sem velas, sem flores, de janelas escancaradas, por onde luminoso sol entrava a rodos.
Amigos, conhecidos e curiosos, subiam as escadas. Penetravam, a medo, no quarto, e ficavam chocados ao verem-na “ dormindo”.
Decorridos minutos, espantados, declaravam: “Assim não impressiona tanto!…”
Agora devo dizer que não gosto de ir a funerais. Não gosto, porque neles encontra-se o pior que existe nos humanos: hipocrisia, bajulação, ganância, à mistura de frases feitas; e ainda que digam que sentem muito, a maioria não sente nada.
São aves de rapina que rondam carne morta, em busca de interesses.
Familiares existem que recebem a morte com alívio: ou porque o doente era um estorvo, ou porque finalmente vão receber bens, que muitas vezes não conseguiram obter com procurações e doações…

É a vida! Melhor: é a morte! …

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