quinta-feira, 17 de julho de 2014

Sobre a vida e a morte, para crianças

Por Alessandra Carvalho


A morte e a finitude da vida costumam ser temas complicados de entender – que dirá de explicar. E se são difíceis para nós, adultos, imagine para as crianças.
Em seu primeiro livro voltado ao público infantojuvenil, Folhas de Castanheira, o escritor David Rocha pincela com beleza e delicadeza um tema que costuma ser denso e complicado: a passagem do tempo, a morte, o fim.
A obra conta a história de um menino e de sua velha tia, que o acompanha em suas brincadeiras apenas o observando e o protegendo de longe, como se fosse uma sombra. A tia não interage e nem participa diretamente da história, apesar de sua presença se fazer constante em todas as 31 páginas do livro.
As folhas de castanheira do título do livro são uma referência ao espaço onde se desenrola a narrativa: aos pés de uma castanheira, onde o menino pode sentir o vento e brincar despreocupadamente. Porém, as folhas representam também as mudanças de estações, a passagem das horas, dos dias e do tempo, que irremediavelmente chega ao fim.
David Rocha conseguiu, com uma sutileza e um cuidado ímpar, contar uma história sobre a vida e a morte voltada especificamente para o público infantil – eis seu maior mérito. O desenrolar da narrativa é leve e poético, talvez até melódico, e apesar de tratar de um tema que costumeiramente é desconfortável e triste, ainda cultiva a beleza e a poesia em todos os seus detalhes.
As ilustrações, de autoria de Juliermes de Souza, assim como o projeto gráfico, de Lisa Poubel, casaram harmoniosamente com os objetivos do autor, somando simplicidade à obra. Os desenhos não são minuciosamente definidos, e nem produzidos por programas de computador perfeccionistas. São delicados, porém intensos, cheios de detalhes e pequenas imprecisões, que dão ao traço verossimilhança e credibilidade. Como diz o autor, os desenhos são ‘brincantes’. E são mesmo.
Além do mais, os traços e as cores utilizadas conversam entre si e com os leitores de forma natural e legítima. Aos pequenos, atrai pela mistura de tons e de efeitos; aos adultos, por que remete a um tempo que passou, e onde tudo era mais simples e vibrante. Transporta-nos para uma viagem nostálgica e bela; uma percepção ilustrada e colorida da passagem do tempo. Levando-nos de volta para uma época em que a liberdade possuía outro significado, bem mais ingênuo e bonito, e nossas preocupações se limitavam a realçar o mundo com nossas tonalidades preferidas.
Assim, os desenhos, as cores e o projeto gráfico estão em total harmonia com o texto e a história, dando a impressão de que um único autor trabalhou todos estes pormenores, tamanha a unidade da obra. Não há como separar desenho, cor e texto sem tirar da narrativa sua beleza e sua personalidade, uma vez que as ilustrações e as cores contam tanto quanto a própria história em si.
Folhas de Castanheira é um livro de poucas páginas e muitos tons; de textos curtos, mas de reflexões duradouras. Tratando de assuntos delicados, e até mesmo subjetivos, como a vida, o tempo, a ausência, a saudade e a finitude humana, foi claramente inspirado na canção O Trenzinho do Caipira, de Heitor Villa Lobos.
Um livro que olha para trás, para o passado, recriando o momento que escapou, o riso que não percebemos, e a inocência de uma criança que observa o mundo com os olhos de dentro – ainda sem vícios, sem prejulgamentos e preconceitos.
É possível ouvir o tempo? – pergunta o autor, David Rocha. E eu respondo, após a leitura de sua obra: sim, é possível.
Mas apenas se nos permitirmos retornar para a pureza e para a poesia que somente conhecemos e entendemos quando somos crianças.
Folhas de Castanheira pode ser adquirido na Livraria Logos (www.logoslivraria.com.br) e na Livraria Cordis (www.livrariacordis.com.br), e também através do e-mail david.rdr@bol.com.br, diretamente com o autor, por R$12.
Um livro para os pais e para os filhos, que trata de vida, de beleza, de movimento e do fim.




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