domingo, 17 de agosto de 2014

Dispenso o hexa

por Flávio Sanso

O retrato que eu tenho da copa do mundo de 2014, exclusivamente quanto à seleção brasileira, é a imagem em que Thiago Silva, capitão do time, com corpo molengo de soldado ferido, é escorado aos prantos por Felipão depois do jogo contra o Chile nas oitavas de final. É o típico caso em que uma imagem vale mais que mil palavras.
Gosto de futebol e por isso me sinto à vontade para repetir as conclusões mais desanimadoras e nem por isso menos realistas: muito marketing e pouco futebol, muito sentimentalismo forçado e pouca emoção espontânea, muito individualismo e pouco coletivismo, muito choro e pouca alegria. E por aí vai.
Passado um mês da grande final, haverá quem diga que analisar copa do mundo nesta altura do campeonato é remexer discussão ultrapassada. Concordo. Mas então por que damos tanta importância a algo que, passado um mês, já é tido como tema desatualizado e que talvez já nem faça parte de nossos pensamentos diários? Este é o ponto: nesse terreno do futebol, somos doutrinados, assim como mulher de malandro, a dar valor exagerado àquilo que não merece muito mais que uma atenção passageira, um breve torpor, um suspiro de divertimento. Nesse aspecto, acho que o “sete a um” foi aquele tipo de remédio amargo que pode fazer melhorar a prepotência inútil que se reflete naquela frase batida: “somos o país do melhor futebol”. Os estrangeiros já não precisam mais responder, com ar blasé, “e daí?!”, porque depois do “sete a um”, a afirmação soa falsa, além de, agora, beirar o ridículo. Podíamos tentar ser melhores em alguma outra coisa mais importante.
O superdimensionamento que se deu à copa e que normalmente é dado às coisas ligadas ao nosso futebol bem poderia ser repetido agora que Artur Ávila, brasileiro, recebe a medalha Fields, o mais importante prêmio de matemática do mundo. É o que se tem denominado de Nobel da Matemática. O Brasil, que sempre se ressentiu de nunca ter conquistado prêmios máximos de ciência ou cultura, enfim pode se dar o luxo de comemorar a proeza. Temos aí um fato que merece os peculiares gritos de euforia de Galvão Bueno. Sim, é a vez de alardear um grande feito repetidas vezes, exaustivas vezes, em todos os meios de comunicação, valendo até aquelas campanhas publicitárias ufanistas que exaltam a condição de ser brasileiro com muito orgulho, com muito amor. Mas dessa vez a intenção não é encher o bolso das gigantescas empresas patrocinadoras do milionário mundo do futebol. Há a chance de difundir na cabeça das crianças o fato de que o estudo é meio de sucesso pessoal e profissional e que a satisfação não está somente na torcida pela vitória atlética de outras pessoas; também, e principalmente, está na capacidade de alcançar sua própria vitória. Obviamente que tudo isso não tem muito sentido sem que se melhorem as escolas e se valorizem os profissionais do ensino. Mas aí é questão de prioridade. Que a medalha Fields ajude o país a repensar o valor que ele dá às suas preferências.

Se eu, amante do futebol, trocaria a medalha Fields pelo hexa? Não, obrigado. 

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