terça-feira, 5 de agosto de 2014

Meus vizinhos são os ossos

por Flávio Sanso
extraído do site www.reticencia.com

Às vezes tento formar no pensamento o rosto da minha mãe. O nariz fica grande demais, os olhos não se alinham, a boca tem os lábios entumecidos. Fico aborrecido quando só o que consigo imaginar é um borrão desforme, pardo e emoldurado com os cabelos dela. A figura perfeita do rosto vem quando quer, e não quando eu quero. Me pega de surpresa. O rosto aparece do nada, nos momentos em que estou distraído. É muito rápido. Tento lutar com minha própria memória para que ele não se dissolva. É inútil. O rosto da minha mãe é como o desenho da nuvem que se deforma muito rápido. Já a voz dela não me vem quando quero e nem em qualquer outro momento. Está apagada para sempre desde o último suspiro. Às vezes gosto de me enganar. Quando o vento faz barulho, penso ser a voz da minha mãe. Algumas vezes ela me chama, algumas vezes ela me grita.
O sopro do vento é minha única e talvez última companhia. Estou só. Por todo meu redor não há ninguém. O sol esturrica tudo e faz o chão queimar. A terra secou e a água só faz visita nas poucas vezes de chuva. A sobrevivência por aqui é quase aberração. Minha mãe deixou de comer para não faltar comida aos filhos. Quase nada adiantou morrer de fome. Meus irmãos morreram um tantinho depois. Nunca precisei de muito para o sustento. A minha pessoa foi a única que restou. Mas talvez permanecer vivo neste lugar seja o castigo que eu mereça. A penitência que carrego é a lembrança diária do que eu fiz.
“Se arruma”, ordenava minha mãe. “Se arruma rápido”, insistia minha mãe. Queria que eu ficasse pronto para ir à escolinha. Achava que eu encontraria a chave que me libertaria da miséria. Eu berrava, me debatia no chão, fazia a pior das pirraças. Agarrei-me à perna da minha mãe com uma força desconhecida. Chorava e dizia que não queria me afastar dela. O braço da minha mãe se levantou o mais alto que podia, deixou-se cair e quando caiu levei uma bofetada que me fez calar. Ao sentir o rosto em ardência, desejei que minha mãe morresse. Aí está a maldição que me acompanha feito sombra. Não adiantou arrependimento. O meu intento já havia escapado e vagava livre no ar. No princípio imaginei que só teria minha própria consciência como testemunha. Mas é óbvio que o meu intento esteve bem à vista de Deus e do Diabo. Quando a minha mãe morreu, eu sabia que no fundo o meu intento deixara de vagar a esmo e encontrara a sua razão de ser.
A solidão nunca dá brecha para ser vencida. Estar mergulhado neste vazio é como nascer: não há escolha. Tenho andado em todas as direções e não encontro ninguém. Invado barracos vazios e inspeciono as ruínas de um vilarejo qualquer. O que me mantém vivo são os bichos que também desconhecem a razão de estarem perambulando por aqui. Pretendo que nem os bichos façam aparição à minha frente. Mas tenho medo da morte. Tenho medo de que minha mãe, lá na mansão dos mortos, já tenha descoberto tudo a respeito do dia em que desejei a morte dela. Não saberia como me explicar.
Já dos coiotes eu não tenho medo. Não se interessam por mim enquanto eu estiver vivo. Os coiotes deste lugar são pragas que aparecem para vilipendiar os mortos. Não precisam se preocupar com o trabalho do abate. São dotados de um faro mórbido que os conduz sem demora ao local da comida. São bem mais rápidos que os urubus, o que lhes garante as carnes mais suculentas. Não é coisa boa de ver.
Quando a minha mãe morreu, levaram o corpo para longe das minhas vistas. Disseram que era caso de enterro urgente e afastado. Naquele tempo, a justificativa me foi conveniente, afinal eu não teria mesmo coragem de encarar o rosto falecido da minha mãe. E se ela estivesse sorrindo na hora da morte? E se ela estivesse sorrindo para mim? O maldito desejo de fazer-se produzir seu sono irreversível era vergonha que me impediu a despedida. Ocorre que minha inteligência de hoje, que é melhor que a de ontem, sabe que os coiotes é que deram causa ao sumiço do corpo. É coisa difícil de ver e por isso mentiram para mim.
Sim, eu sei que minha vida não tem sentido senão o de expiar a minha falta. Mas, se morrer é benefício que por enquanto não posso alcançar, é justo que alguma ideia venha em socorro dos meus dias. A condição de estar condenado a conviver com a própria consciência não favorece a inovação das ideias e então é preciso atenção para não perder uma brecha que seja. E ela me vem. O relâmpago que ilumina em centésimos de segundo uma noite escura. É dessa maneira que ela me vem. A ideia súbita me força a procurar o corpo da minha mãe. Eis a distração que agora me move. Pois então como encontrar o que restou da minha mãe se não há alguém ao meu entorno para me orientar? Nem mesmo os bichos que me mantem a sobrevivência podem me prestar auxílio. Mas uma ideia sempre ativa as engrenagens do pensamento. Os coiotes, essas criaturas repugnantes que desrespeitaram a minha mãe, não têm mais de quem arrancar as vísceras. Não há ninguém ao redor. É possível que estejam a rondar os cemitérios à procura de vítimas repetidas. Este é o tempo em que os coiotes vivem de alimento requentado. Algum deles haverá de me levar até minha mãe.
Lá está um deles. De tanto fuçar entranhas, o pelo da cara apresenta a permanência de um tom rosado. Não é difícil persegui-lo. Tem os olhos pregados no horizonte. Depois que estive por tanto tempo na trilha aberta pelo coiote, avisto um mar de túmulos equidistantes entre si. Junto montes de pedras nas mãos e com elas espanto todos os coiotes que vejo pela frente. Arremesso com força, arremesso com raiva, porque o reencontro com a minha mãe não cabe a testemunho de animal traiçoeiro. Estou diante do túmulo da minha mãe e finalmente tenho a oportunidade de me despedir. “Mãezinha, me desculpa. Se a senhora desejar, volto à escolinha. Volto no tempo para lhe obedecer e para arrancar da cabeça o intento que me contaminou os dias. Acredite em mim, mãezinha querida, o desejo de hoje é o oposto daquele intento que apodreceu meu futuro: desejo sua ressurreição, desejo que esteja viva ao meu lado. Só mesmo a senhora tem o poder de desafiar a solidão que me mantém cativo em masmorra fria. Minha mãe, por favor, não me recuse o perdão.” Enquanto estou de joelhos ao lado do túmulo da minha mãe, ouço passos se aproximarem. Passos? De repente algo invade a musculatura do meu braço. Estou fraco, desfalecendo. Será que, enfim, é minha morte que se aproxima? Minha mãe virá me buscar? Uma fisgada é a última sensação antes de perder os sentidos.         

Na clausura em que experimento a mais brutal das solidões, rompe-se uma fenda, pela qual atravessa uma voz. Ela pede que eu conte a minha história. Estou inebriado e distante. Conto tudo. A voz é branda. Diz coisas que eu não entendo. Diz que meus irmãos estão vivos e administram o espólio da minha mãe. Brigam entre si. Diz que eles morreram para mim no momento em que passaram a pretender a minha internação. São coiotes. Diz que a miséria a que me refiro é a miséria moral trazida pelo acúmulo de bens e dinheiro. Diz também que não estou sozinho e que há pessoas velando pela minha saúde. Trajam o branco da paz. São os bichos que me mantém a sobrevivência. A voz se cala. Quando a fenda se fechar, quero dar conta do meu novo intento. Estarei de prontidão ao lado da minha mãe, e por lá fincarei permanência até que ela retorne. 

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