sábado, 1 de novembro de 2014

A seca e o raso

 por Flávio Sanso
www.reticencia.com
@flavio_sanso

Então agora temos seca. Agora? Mas e o que sempre tivemos no Nordeste não é seca? Mas lá a coisa é diferente. É? É. O cactus, o sertão alaranjado, os ossos de boi esturricados sob o sol, tudo isso é paisagem regional. Sim, é coisa da paisagem, é o Saara brasileiro. Ah, bom. Mas se agora temos seca no Sudeste, é hora de entender o que há. Sim, o caso de paisagem regional aqui não cola. Não cola mesmo. Bem, então agora vão se mexer e entender o que há. Não sei, temos quinhentos anos e estamos sempre perdidos com essa coisa de entender o que há. Falaram disso no debate eleitoral, será que agora vai? Não sei, tudo é sempre pior do que se diz no debate eleitoral. Soube que o desmatamento na Amazônia pode estar por trás da seca no Sudeste. Isso mesmo, também soube. Repare a comparação: cento e oitenta milhões de campos de futebol devastados. Nossa, nessa área desmatada caberiam um bilhão, novecentos e oitenta milhões de jogadores. Será que sobra espaço pra torcida? Já, já. Que interessante essa coisa de rios aéreos. Sim, eles vêm lá da Floresta Amazônica e se deixam despejar em forma de chuva em cima do Sudeste. É um presentão. Verdade, mas a mamata vai acabar. Estranho, ninguém disse isso no debate eleitoral. Ah, mas o debate eleitoral é tão raso quanto a represa de Guarapiranga. Que clichê. Que clichê, é verdade. Acho que o Saara brasileiro vai crescer. Vai sim, vai virar paisagem nacional. Nunca mais teremos quinhentos anos para entender o que há. Não, nunca mais.

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