segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Escrever não é um dom



 por Ronperlim


Eu comecei a escrever por volta dos dezoito anos, em cadernos escolares 15 por 21. Tenho preferência por canetas de bico fino porque elas propiciam uma escrita suave. Ao todo, eu tenho sete cadernos, duas agendas e uma caderneta espiral contendo uma diversidade de textos. Ainda mantenho o hábito de andar com papel e caneta para esse fim.
Eu tenho textos do início de meus escritos que não servem para concorrer ao mais singelo concurso literário. Querem saber por quê? Porque eles não foram inspiração divina, mas escrito por um pequeno escritor que percebia o mundo e não sabia expressá-lo.
Me faltava intimidade, amizade com as palavras. E esses substantivos só foram acrescidos a minha vida literária quando passei a me dedicar à leitura de livros, jornais, revistas, sites, blogs de assuntos diversificados, estudar a Gramática e Literatura. Com o passar dos anos a minha escrita atual se distanciou da nascitura de tal forma que já me rendeu resultados positivos em concursos literários e os que leram os meus livros.
Ao ler isso, alguém pode se perguntar qual a relação do meu hábito de escrita com a palavra dom. A resposta é simples: escrever é uma coisa do espírito humano que se aprende com a prática da leitura e da escrita diária. Se assim não fosse, bastaria uma inspiração divina e tudo seria perfeito, pois, a própria doutrina cristã afirma que Deus não dar pela metade ou com imperfeição.
Por isso, diferenciarei dom espiritual de dom da escrita.  
O dom espiritual, como pode ser observado no capítulo 12 de I Coríntios, verso 1 tem objetivos espirituais e se manifesta de acordo com os propósitos divinos. O apóstolo lista uma quantidade significante deles e a importância que tem para o ensinamento da palavra espiritual. Sua inspiração é dos céus.
O dom da escrita é a vocação para o manuseio da palavra, a exploração dela pelos sentidos, a manifestação de experiências sensíveis. [1]“(..) para escrever um texto literário não precisa nascer com o dom (negrito meu) divino, porque o dono do texto já não é mais quem escreve, mas quem o lê.”. (ORTÊNCIO, 2011, p. 36).
Mesmo que o indivíduo não sinta dificuldades para externar os seus sentimentos, ser criativo, ele necessita de riqueza vocabular e das técnicas. É através delas que a matéria bruta é lapidada, transformada num texto capaz de seduzir, atrair leitores e deles receber opiniões positivas. Se alguém escreve e a sua escrita não prende a atenção do leitor, aquele texto está inacabado, é matéria bruta.
As técnicas mais conhecidas e importantes são a clareza, a concisão e a coesão. Conhecê-las é imprescindível para quem pretende trabalhar a palavra e com a palavra. Seus conceitos são indispensáveis para o acabamento do texto, a transformação dele em algo útil e agradável. Sem esses conhecimentos, o texto (de um escritor ou não) se torna pesado, enfadonho e desagradável para o leitor.
A escrita literária é árdua, pois, trata-se de uma arte escrita e reescrita até chegar a “perfeição”. A esse respeito, Graciliano Ramos nos deixou esta lição:
“Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou no riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”. (Grifo meu).
Portanto, não existe dom com o sentido de dádiva, presente divino passando a falsa ideia de que escritores são seres iluminados, escolhidos a dedo por Deus para comunicar.
Para os espirituais, concluo: deixe a mente livre para a criação, conheçam todas as técnicas que a escrita criativa exige, leiam todo tipo de texto porque para se tornar escritor é necessário compreender a importância da palavra na vida íntima e social.

Nota biográfica
Ronperlim tem muitos textos espalhados pela net, impressos em antologias e alguns jornais. É autor de vários livros, dentre eles, Laura (Prêmio Alina Paim em 2011) e A menina das queimadas que se encontra na segunda edição (2014) e que está à venda nas livrarias Asabeça, Martins Fontes e Cultura.



[1] ORTÊNCIO, Bariani. Cartilha ao pré-escritor. Brasília. Centro Editorial, 2 Ed, 2011, pg. 36

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