terça-feira, 15 de setembro de 2015

Quando Regina Case volta?

Notas sobre o cinema brasileiro: quero que nossos filmes tenham variedade para muito mais do que a intensificação das comédias fáceis, sinto pontinhas de inveja em relação à produção cinematográfica dos hermanos argentinos, comemoro quando me vejo surpreendido com um filme brasileiro sobre o qual não tinha grandes expectativas. Tudo isso significa que torço do fundo do coração para que o cinema nacional deslanche de uma vez por todas.

Mais especialmente quanto a um filme que me tenha feito comemorar, "Que horas ela volta?", de Anna Muylaert, é uma daquelas obras artísticas que nos fazem passar a semana inteira refletindo sobre sua mensagem, e que mensagem!

Val mora no quartinho dos fundos da mansão em que trabalha como empregada doméstica, mantendo com seus patrões relação de verdadeira vassalagem. Descontada a diferença de cento e poucos anos, é como se Val fosse a aia da família, nisso incluindo a condição de ter substituído as funções da patroa na criação do rebento da casa. Nem sequer um copo d´água, Zé Carlos, o patrão em crise existencial, é capaz de tomar sem que tenha sido servido por Val. E aí está o ponto sensível do filme. A telona nos convida a verificar no que se tornou o país em cuja maior parte da existência adotou a escravidão como força produtiva. Sim, é uma cicatriz que não se cura de uma hora para outra, é um prejuízo social e moral difícil de contornar. A escravidão nos deixou como herança o costume do servilismo. Não à toa ainda há quem faça cara feia para a regulamentação dos direitos da profissão de empregada doméstica, não à toa persiste a invisibilidade atribuída a certo tipo de trabalhadores, não à toa nossos governantes se encastelam em palácios, entupindo-se de regalias que os mantenham em seus pedestais de gente diferenciada.

Há alguma perspectiva de evolução para uma sociedade tão problemática? Quem nos traz a resposta é Jéssica, o elemento modificador da trama. Jéssica é filha de Val com quem não convive há muito tempo. Para prestar o vestibular, hospeda-se no quartinho dos fundos da mansão, passando a questionar a relação de intensa subserviência suportada pela mãe. Emblemática é a cena em que se depara com o quarto de hóspedes amplo, decorado e ocioso. O que lhe vem à mente é instantâneo: se há na casa um quarto confortável e ocioso, por que ela e sua mãe não estão ali em vez de estarem alojadas no quartinho apertado dos fundos? Contudo, para Val, essa é uma hipótese que nunca lhe poderia ter ocorrido, considerando a ideia consolidada de sua inflexível submissão. O fato é que Jéssica é de um tempo em que quartinhos de empregada começam a não fazer mais sentido, assim como não faz mais sentido qualquer relação servil. Se quisermos chegar ao patamar de países que já alcançaram equilíbrio social, é fundamental, primeiro, admitirmos o tanto que ainda temos, sim, de espólio dos tempos escravocratas. O olhar questionador de Jéssica é o mesmo olhar que o filme pretende que o espectador tenha.

A atuação de Regina Casé como a empregada doméstica Val merece parágrafo à parte. É um personagem difícil, a começar pelo sotaque que ao menor descuido pode resvalar na caricatura típica das novelas. Mas tamanha entrega e tanto capricho fazem Regina Casé superar esse detalhe. É uma atriz que se desloca brilhantemente entre nuances de humor e drama. Desde o filme "Eu, Tu e Eles" não se tinha a oportunidade de apreciar um papel que lhe exijisse o melhor de sua atuação. Regina Casé é imprescindível ao cinema, impondo-se perguntar: quando ela volta?

Pois então ainda dá tempo de assistir ao belo filme de Anna Muylaert. Corra, vá antes que o próximo super-herói tome de assalto todas as nossas salas.


@flavio_sanso

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